...desde tenra idade os outros
sempre me despertaram extrema curiosidade.
não sentia qualquer dificuldade em tocar nas
pessoas, em falar-lhes, em perguntar-lhes qualquer coisa. Eu não precisava de
conhecê-las para as conhecer; eu ia ter com elas, e elas diziam-me bubu, e bibi
e eu percebia-as. E mesmo sem saber falar eu falava-lhes, e elas começavam a ficar
felizes...
Mas hoje se vou ter com alguém
que não conheça já ninguém me diz bubu nem baba e olham para mim como se eu já
não fosse criança; eu sei que mudei muito, mas eu não mudei nada; e se por acaso me aproximo das pessoas
que não conheço elas olham-me agora com uma cara de espanto, como se eu não devesse
estar ali; e, infelizmente, da expressão dos seus rostos transparece de
imediato a falta de uma explicação.
E não poderia ser de outra
maneira.
A exigência de explicações para actos inusitados são tão antigas quanto o homem; o homem há muito que está desacostumado que se abeirem dele, por isso pede
explicações a quem o faz.
Plutarco diz-nos que uma vez um dos sete
sábios da Grécia, Anacarsis, tendo visitado Atenas, foi a casa de Sólon,
legislador de Atenas. Este depois de Anacarsis ter batido à porta quis uma
explicação. Anacarsis anunciou-se como um estrangeiro que ia unir-se a ele
pelos laços da amizade e da hospitalidade. A explicação de Anacarsis não agradou Sólon,
que lhe respondeu:
«Mais vale procurar amigos em sua própria casa que
procurá-los fora.»
Retrucou-lhe Anacarsis:
«Pois bem! visto que
estais em vossa casa, fazei então de mim vosso amigo e hóspede.»
Se o espírito de Anacarsis quis manifestar-se pela vivacidade da sua pronta resposta, o de Sólon também não se deixou de manifestar - pela pronta hospitalidade concedida. Se não fora a beleza de Anacarsis razão para que Sólon anui-se ao convite de amizade, que outra
poderia ter sido senão a beleza das palavras, reflexo da do espírito?
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