... é consabido, para prestar atenção ao próximo precisamos abdicar da nossa rotina sistemática «sem tempo para». Mas quando abdicamos da nossa rotina "sem tempo para" e optamos por "ter tempo para" prestarmos atenção a uma personagem, estamos onde?
- No teatro!
Não rias de quem chora;
é coisa que Deus ordena,
pode a roda desandar
e caíres na mesma pena.
O MUNDO INTEMPORAL DO TEATRO
Carson Mc Cullers, conclui um dos seus poemas líricos com este verso:
«O tempo, esse idiota intemporal, corre gritante pelo mundo».
É este correr contínuo do tempo, tão violento que parece gritar, que priva as nossas vidas de tanta dignidade e significado e é, talvez, mais do que qualquer outra coisa, a prisão do tempo que teve lugar numa obra de arte completa, que dá a certas peças a sensação de profundidade e significado.
Nas notícias de Londres sobre A Morte de Um Caixeiro Viajante um certo conhecido crítico, céptico, afirmou que Willy Loman era a espécie de homem que qualquer pessoa de entre a assistência teria expulso de um escritorio se ele se tivesse habilitado ao emprego ou se o abordasse para confidências sobre as suas preocupações. Em si a afirmação contém, talvez, alguma verdade. Mas a implicação de que Willy Loman é, consequentemente, uma personagem perante a qual não temos razões para nos preocupar em dramaturgia revela uma nítida concepção falsa do que é o Teatro.
A contemplação é uma coisa que existe fora do tempo - e o sentido trágico também. Mesmo no mundo actual de comércio existe, em certas pessoas, uma sensibilidade pelas situações infelizes dos outros, - capacidade de preocupação e compaixão, que sobreviveu a um período de vida mais terno fora da presente roda viva da actividade comercial. Se enfrentássemos Willy Loman detrás de uma secretária de escritório, se encontrássemos o seu olhar nervoso e ouvissemos a sua voz querelosa, naturalmente olharíamos para o relógio de pulso e para a nota dos encontros marcados na agenda. Claro que não o expulsaríamos do escritório, mas, certamente, ajudá-lo-iamos a sair com uma velocidade maior do que a que Willy teria, impotente, esperado. Mas suponhamos que não havia relógio de pulso nem agenda; e suponhamos também que não estávamos, realmente, a encarar Willy por trás de uma secretária - e encarar uma pessoa não é a melhor maneira de a ver! Suponhamos, por outras palavras, que o encontro com Willy Loman tinha, por qualquer motivo, acontecido num mundo fora do tempo. Penso que, então, o receberíamos com interesse e gentileza e até com respeito. Se o mundo do teatro não nos oferecesse esta ocasião para observar as suas personagens sob uma condição especial de mundo intemporal, então, na verdade, as personagens e acontecimentos do drama tornavam-se igualmente sem finalidade, igualmente triviais, nos correspondentes encontros e acontecimentos da vida. (...)"
Tennesse Williams