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sexta-feira, 26 de junho de 2026

O tempo, esse idiota intemporal, corre gritante pelo mundo

     

... é consabido, para prestar atenção ao próximo precisamos abdicar da nossa rotina sistemática «sem tempo para». Mas quando abdicamos da nossa rotina "sem tempo para" e optamos por "ter tempo para"  prestarmos atenção a uma personagem, estamos onde?

- No teatro!

Não rias de quem chora;

é coisa que Deus ordena,

pode a roda desandar

e caíres na mesma pena.


O MUNDO INTEMPORAL DO TEATRO


    Carson Mc Cullers, conclui um dos seus poemas líricos com este verso:
    «O tempo, esse idiota intemporal, corre gritante pelo mundo».
    É este correr contínuo do tempo, tão violento que parece gritar, que priva as nossas vidas de tanta dignidade e significado e é, talvez, mais do que qualquer outra coisa, a prisão do tempo que teve lugar numa obra de arte completa, que dá a certas peças a sensação de profundidade e significado.

 Nas notícias de Londres sobre A Morte de Um Caixeiro Viajante um certo conhecido crítico, céptico, afirmou que Willy Loman era a espécie de homem que qualquer pessoa de entre a assistência teria expulso de um escritorio se ele se tivesse habilitado ao emprego ou se o abordasse para confidências sobre as suas preocupações. Em si a afirmação contém, talvez, alguma verdade. Mas a implicação de que Willy Loman é, consequentemente, uma personagem perante a qual não temos razões para nos preocupar em dramaturgia revela uma nítida concepção falsa do que é o Teatro.

    A contemplação é uma coisa que existe fora do tempo - e o sentido trágico também. Mesmo no mundo actual de comércio existe, em certas pessoas, uma sensibilidade pelas situações infelizes dos outros, - capacidade de preocupação e compaixão, que sobreviveu a um período de vida mais terno fora da presente roda viva da actividade comercial. Se enfrentássemos Willy Loman detrás de uma secretária de escritório, se encontrássemos o seu olhar nervoso e ouvissemos a sua voz querelosa, naturalmente olharíamos para o relógio de pulso e para a nota dos encontros marcados na agenda. Claro que não o expulsaríamos do escritório, mas, certamente, ajudá-lo-iamos a sair com uma velocidade maior do que a que Willy teria, impotente, esperado. Mas suponhamos que não havia relógio de pulso nem agenda; e suponhamos também que não estávamos, realmente, a encarar Willy por trás de uma secretária - e encarar uma pessoa não é a melhor maneira de a ver! Suponhamos, por outras palavras, que o encontro com Willy Loman tinha, por qualquer motivo, acontecido num mundo fora do tempo. Penso que, então, o receberíamos com interesse e gentileza e até com respeito. Se o mundo do teatro não nos oferecesse esta ocasião para observar as suas personagens sob uma condição especial de mundo intemporal, então, na verdade, as personagens e acontecimentos do drama tornavam-se igualmente sem finalidade, igualmente triviais, nos correspondentes encontros e acontecimentos da vida. (...)"
 Tennesse Williams

É uma questão de tempo para a anormalidade ser aceite por a nova normalidade

 "A situação anormal quando dura muito tempo se torna normal. A capacidade humana de perceber a anormalidade é limitada, então quando a situação anormal se prolonga a sensibilidade do povo para a anormalidade diminui, acaba se acostumando com tudo,... este limite da capacidade humana para perceber a anormalidade é um elemento fundamental em engenharia social laboral, quer dizer, quando você quer impor uma nova situação que é anormal é só você mantê-la durante algum tempo que ela deixa de ser anormal, você se acostuma com ela... em geral a população só percebe a anormalidade seguinte, a nova."

In Aula COF, OLAVO de CARVALHO




terça-feira, 23 de junho de 2026

Olavo de Carvalho, A força da mentira fundada no signo e no significado...

A teoria dos signos.

Existe uma distinção entre o signo, o significado e o referente.
o Signo é um elemento visual ou acústico que serve para indicar no seu pensamento algum significado.
O Significado é um conjunto de outros signos, de palavras que explicam a intenção com que o signo foi usado, o significado que o falante está atribuindo ao signo; e por fim existe o referente que é a coisa, o fato, a situação do mundo real ao qual aquilo se refere; a palavra vaca é um signo, a definição de vaca que está no dicionário é o significado e o referente é uma vaca real no pasto.

(...) sempre existe na transmutação das experiências em palavras, em discurso, alguma dificuldade, a possibilidade de erro é monstruosa, (...)

 (...)a mentira tem esse privilegio, por isso que é mais fácil mentir do que desmentir a mentira, é sempre mais fácil, a mentira evidentemente no primeiro instante tem uma tremenda vantagem, ela não precisa do "referente" , o efeito verbal por si produz o resultado desejado. (...)