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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

aos meus leitores da Califórnia a New Jersey sem esquecer nenhum

… no sonho de haver entre vós alguns mui ilustres seguidores de tudo o que já escrevi e possa vir a escrever escrevo-vos e escrever-vos-ei de novo. Que melhor sonho poderia acalentar? haver no mundo quem me preze pelas palavras? Sabei, se assim fordes, de meu verbo seguidores, um pouco também do meu ser sereis! Quantas vezes eu em idade jovem ao descobrir um autor que de sua obra gostasse me propus procurá-la a fim da lê-la completa?… foi assim com Dostoievsky com Nietzsche com Cervantes com Proust com Henry Ibsen …
    Soube hoje. Tenho leitores na Califórnia e muitos outros espalhados pelo globo,  - vieram dar-me essa noticia -  um dia sem que tu peças  serás traduzido - a arte das tuas palavras haverá de chegar a quem a aprecie - e melhor que isso, quiçá um dia algumas das tuas construções frásicas transponham a gravidade terrestre e façam luz a um novo homem, envolto pela escuridão do espaço interplanetário!
Já me alegraria ter a prova que as minhas palavras voam de avião… julgo isso possível!, imprimam na Califórnia em New Jersey em São Paulo e venham com elas para Lisboa caros estrangeiros caros conterrâneos.
Inevitável; escrevi estrangeiros e logo a lembrança viajou para "O Estrangeiro" de Albert Camus… Que lição ele nos dá logo no inicio do livro! Permita-me que possa partilhá-la convosco leitor, leitora, são só umas frases, poucas:
 “Hoje, a mãe morreu. (…) Pedi dois dias de folga ao meu patrão e, com uma razão destas, ele não mos podia recusar. Mas não estava com um ar lá muito satisfeito. Cheguei mesmo a dizer-lhe: «A culpa não é minha.»

Interessante! ocorreu-me agora ao pensamento por associação ao livro o Estrangeiro - esta memória - pelo passeio subia uma rua sempre a descer para quem comigo se cruzava, e súbito, uma montra cheia de livros -  e lembrei-me do demónio que segredou ao ouvido de Nietzsche para entrar!… então de tão cativado ser por livros transpus a porta ... lá dentro, em frente das estantes cheias de livros e livros, alguns de autores desconhecidos li na lombada O Estrangeiro e um outro O Assim Falou Zaratustra… capas grossas!... e imaginem a preços módicos… comprei-os, claro! Quando, já em casa os colocava ao lado dos meus outros, questionei-me  «Ficais agora comigo por quantos anos?, depois que morrer onde ireis parar? Irão os meus filhos vender a minha biblioteca, o meu maior património, ao desbarato?,e pior que isso, deitá-los ao lixo… oh deusa Minerva não permitíeis tal afronta!...

… ainda sobre livros, conversava com uma jovem, e sem assunto sobre do que falar, questionei-a se gostava de ler livros, ao que ela me respondeu, “ para você ser inteligente não precisa ter muitos livros!”… eu fiquei apreensivo – até que lhe respondi «para tê-los sim, não preciso ser inteligente, mas para lê-los preciso, preciso de sê-lo!
... Hoje, a minha colega Paula falava à Élia – ontem nem movias os olhos, vinhas cá com uma moca, que droga de comprimido tomaste?!!! Mas hoje estás melhor, vê-se!!
 Disse-lhes eu (para a Élia):
- Precisas de sair da tua esfera de pensamentos, precisas de conviver, de te distrair
- O que mais me distrai é o trabalho!
– Élia, uma vez, um médico prescreveu-me ir ao cinema!, e realmente o cinema fazia-me bem, aliás ainda faz!, sabes Élia a arte tem um efeito muito benéfico, terapêutico mesmo!, preenche-nos no vazio!
- mas eu não sou como tu, não gosto dessas poesias que tu lês - (nessa altura, eu não parava de recitar o verso “A minha cabeça estremece com o todo o esquecimento, procuro dizer como tudo é outra coisa!...”
– mas ó Élia, a arte não é só a poesia. A arte é a musica a dança o teatro a pintura o cinema. Diz-me já pensaste, porque é que os ricos se fizeram sempre rodear pela Arte? Queres saber? porque senti-la lhes fazia bem!... É do que precisas, e agora ainda mais, por que confessas estar desiludida com a vida! sabes, nunca como hoje a Arte esteve tão ao alcance do cidadão comum. Ainda ontem revi os soberbos filmes de Claude Berri: Jean de Florette e Manon des Sources… Falar-te deles Élia, revelá-los, revelar-tos, é dar-te um prémio, aceita-o!...

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Nietzsche e o amor!

"As paixões se tornam más e pérfidas quando são consideradas com maldade e perfídia. Foi assim que o cristianismo chegou a fazer de sublimes forças capazes de idealidade, de Eros e de Afrodite, génios infernais e espíritos enganadores, criando na consciência dos crentes, a cada excitação sexual, remorsos – que a alguns levaram até a loucura. Não é espantoso transformar sensações necessárias e normais em fonte de miséria interior; e assim, voluntariamente, tornar a miséria interior necessária e normal em todos os homens? Além disso, essa miséria permanece secreta, mas ela não tem senão raízes mais profundas: pois, nem todos têm, como Shakespeare em seus sonetos, a coragem de confessar a tristeza provocada pelo cristianismo nesse domínio.
(...)Tem-se o direito de chamar inimigo a Eros? As sensações sexuais, da mesma forma que as sensações de piedade e de adoração, têm de particular que o homem, ao experimentá-las, faz o bem a outro por seu prazer — não se encontra muitas vezes na natureza disposições tão benfazejas! E é justamente uma delas que é caluniada e que é corrompida pela má consciência! — Mas essa demonização de Eros acabou por ter um desfecho de comédia: o “diabo” Eros se tornou aos poucos mais interessante para os homens do que os anjos e os santos, graças aos boatos e as disposições misteriosas da Igreja em todas as questões eróticas: é graças a ela que as histórias de amor se tornaram o único interesse verdadeiramente comum a todos os meios — com um exagero que pareceria incompreensível à antiguidade — e que um dia não deixará de provocar a hilaridade. (Já provoca!) Todo o nosso pensamento, do mais elevado ao mais baixo, estão marcados e mais que marcados pela importância excessiva que se confere aos comportamentos relacionado com o amor, apresentado sempre como acontecimento principal. Talvez por causa desse juízo a posteridade haverá de encontrar em toda a herança da civilização cristã alguma coisa de mesquinho e de maníaco. “
Nietzsche, in Obras Completas de Nietzsche –
Texto revisto por Alexnietzsche, no intuito de melhorar um bocadinho o português das traduções, sem desvirtuar o original.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Capitan Phillips x Robert Kennedy


 Enoja! tresanda ao cheiro da violência a "Justiça" americana de tão severa - 33 anos de cadeia para o ingénuo líder dos piratas. E mais 3 homicídios!! 3!! - O poder da força das armas sobre a pobre mediocridade - Os ilustres profissionais americanos ohh tão inteligentes são!! na pressa de matar!!! - sem direito a julgamento!!! - que piedosos! que misericordiosos! - são ainda piores que o Javert dos Miseráveis! Não se entende mesmo qual é o propósito do filme - mostrar que os Americanos matam sem escrúpulos? Já o sabíamos! - será este o modelo de justiça que Robert Kennedy desejou  para a América??? - de onde retiraram este modelo? do Antigo Testamento? - ninguém salvaria este filme da critica nem o Tom Hanks!! se há histórias baseadas em factos verídicos imerecedoras de serem passadas para o cinema, está é uma delas! enfim, lamentamos, mais um filme para esquecer, de tantos lugares comuns e de tão nacionalista!!

que contraste com este excelente filme
http://www.dailymotion.com/video/xkzf6m_kennedy-is-shot_shortfilms

e este discurso http://www.youtube.com/watch?v=GoKzCff8Zbs

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Carta de amor - reeditada.

  passara o tempo em que subia às oliveiras....
 o nevoeiro húmido da noite em Vila Real lembrava a neblina densa nas manhãs de Inverno para a qual eu criança olhava vidrado...
   a neblina nocturna amarelada pela luz dos candeeiros diria que esperava...
  tudo esperava
  o menino, o avô ...
 as pessoas saudosas, os amigos...
... eu, a simpatia da bela jovem para quem olhara cativado... .
 já a olhava sem pestanejar, quando por mérito da proximidade, cumprimentá-mo-nos...
falávamos e depois de uma pequena pausa  a jovem mulher exclamou
- «Não me olhes assim! Não gosto que me olhes assim!»...
  pensei - «perturbou-a ver-me nos olhos o êxtase estético que ela própria provocava»
 ... mas esgotando-se as razões de permanecermos ali em companhia um do outro e ocultando eu a mais profunda - a fruição contemplativa da sua feminina figura - despedimo-nos.

 .... todavia fosse pelo tom de voz com que disse
- Não me olhes assim! Não gosto que me olhes assim! -  fosse porque eu não conseguia mesmo evitar escrever, na manhã do dia seguinte, em torno daquela frase e relembrando retalhos da minha infância, escrevi-lhe uma carta...

 ...depois de ouvirmos tocar a campainha, era com imenso prazer que eu e minha irmã rápidos descíamos os degraus três a três para ir beijar minha avó que chegava. Enquanto descia as escadas aos saltos, sempre com os olhos postos nos degraus, gritava para mim mesmo «É a avó! É a avó!» O último salto era para os braços da minha avó... Essa mesma avó que abria a porta da coelheira para eu ver os coelhinhos, que só apetecia agarrar, a quem eu logo dizia «Avó apanha-me um.» Não precisava de lhe pedir outra vez; ela, estendia os braços e os coelhinhos, todos muito juntinhos a olhar para nós, de repente saltavam em todas as direcções e uns por cima dos outros. Todo aquele movimento cessava quando minha avó apanhava um. Eu não reparava em mais nada, só no coelhinho; podiam as galinhas fazer muito barulho, os patos grasnar, o cão ladrar, nada fazia com que eu retirasse os olhos daquele coelhinho. Jamais um deles me disse:
- Não me olhes assim! Não gosto que me olhes assim!”.
 Eu não reparava em mais nada, mas minha avó reparava, reparava na aflição com que a mãe coelha olhava para nós. «Pronto, pronto! – dizia-lhe minha avó, libertando-o – aqui tens o teu pequenino! Nós não lhe fizemos mal.» E ficávamos todos a vê-lo voltar para ao pé dos seus, eu, a minha avó, a coelha cinzenta e os seus irmãos. Depois de olhá-los uma última vez minha avó fechava a porta e abria uma outra, contígua, mas de uma outra casinha, a do coelho da semente.
 -Avó este é muito grande. Ó vó tu não matas este?
- Este não filho, este é o coelho da semente.
  Eu percebia por coelho da semente aquele que minha avó nunca matava...
- eu nem sabia o porquê.. cheguei a cogitar que a minha avó gostasse mais dele que dos outros...
... porque os outros ela matava.
 Eu não gostava que se matasse os coelhos, mas via muitas vezes minha avó matá-los.
 Ela fazia assim: agarrava-os pelas patas traseiras com a mão esquerda, depois. levantava o braço direito e cerrando os dentes descia-o atestando com força uma, duas três ou quatro pancadas de mão fechada na nuca do coelho, atrás das orelhas, e só depois o punha no chão meio morto...
 Eu tinha pena deles e agachava-me para lhe fazer festinhas... Se minha avó me via a fazer-lhe festinhas repreendia-me logo.
- Deixa-o, ele assim nunca mais morre...
 Eu obedecia-lhe, levantava-me e ficava a olhar para o coelho.
- Coitadinho! Coitadinho!
Repreendia-me outra vez minha avó.
- Não lhe chames coitadinho! Ele assim demora mais tempo a morrer...
Não era mentira o que a minha avó dizia, bem sei hoje que não há nada com mais efeito positivo sobre os seres como o fazer-lhes festinhas ou falar-lhes com palavras meigas...

 ... e assinei a carta.

  mas hoje à distancia de mais uma década, relembrando aquela noite, vejo que no tempo em que por ali deambulava, à espera, eu procurava sobretudo, acima de todos os compromissos e deveres, marcar um encontro com um tempo em que escreveria as histórias de vida das pessoas, seus desejos e sonhos... 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

As últimas palavras sempre são do homem: Sim Senhora!


… a praça, um espaço largo com árvores e algumas mesas, com pessoas de pé assistindo 4 indivíduos a jogar Truco, foi abalada pela voz estridente da mulher:
- Eurico!!! Vem cá!!
- Já vou.
Mas Eurico continuava absorvido no jogo das cartas e deixava passar o tempo sem se levantar do banco de pedra…
- EURICO!!! VEM CÁÁAA!!!!
- JÁ VOU MULHER!!!! Que coisa!!!
- Vem cá ajudar a depenar o frango!!!
- Eurico vá, páre de gritar para a sua mulher!!
- URICO!!!!!!!
- Vou já, Bosta!! – resmungava Eurico!!
O certo é que Eurico adorava jogar Truco, muito mais que depenar frangos.
E a mulher de Eurico? Ela detestava odiava o jogo do Truco, mas acima de tudo ela abominava ainda mais uma coisa – esperar!!
- URICOOOO!!! Ou você vem ou vou eu ai!!
- Eurico vá homem vá depressa ou a sua mulher vem buscá-lo por uma orelha!! Ahahah
Eurico enfurecido levantou da cadeira com raiva, arremessou o baralho de cartas sobre o tampo da mesa, e ameaçou: ela vai apanhar ai ai vai,  se ouvirem barulho  e gritaria não acudam!  Mulher que abusa, merece é receber cabresto!!!
- Eurico vá lá homem, sua mulher está mandando!
- Vou ver o que ela quer!!! –disse ele afastando-se da praça…
- Sabiam que a mulher de Eurico quando quer comprar um electrodoméstico vende a bunda ao marido? E diz que mulher que dá de graça é besta!!  Ahahahahah
- É mesmo? Ahaha kkkk kkkkkk kkkkkk
E depois de alguns comentários e risadas em torno da pessoa de Eurico e da mulher, já ninguém lembraria deles não fosse vir do fundo da rua uma grande gritaria!, que foi aumentando a pontos de alarmar todo o mundo!!
Ouviam-se os cães de Eurico ladrar, sons de tachos de pratos de cozinha se quebrando, e frangos e galinhas que passeavam pela cozinha saiam agora apavorados pela janela largando as penas …
- O povo todo correu uns atrás dos outros e a praça ficou vazia…  estavam alarmados e receavam o pior… todos riam do Eurico e da mulher mas na verdade todos gostavam muito de Eurico, um daqueles homens raros de bondade… e claro ninguém queria ver o Eurico na cadeia…  
Aproximando-se todos da entrada da casa ouviram Eurico gritar EU TE MATO, a porta de entrada estava encostada e todos os que puderam entraram de rompante. Eurico estava no chão, a mulher tinha um joelho pressionando a garganta do homem, puxando-lhe os cabelos!
- olhem Eurico está apanhando da mulher!!! Ahahah kkkkkkkkk kkkk
e dois amigos de Eurico acudiram, arrancando-o dos braços da mulher, disseram-lhe, viu Eurico no que deu enfurecer sua mulher!!! – a expressão de Eurico dizia, errei!! não devia ter abandonado o jogo! 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

adivinhem qual é o meu penacho


 estava a andar e avistei um papagaio verde sobre um poleiro perto dum kioske – havia duas oliveiras e um palmeira ao redor e o papagaio pareceu-me atractivo – ainda dei dois passos na direcção que levava – os seguintes já foram na direcção do papagaio e estranho seria se assim não fosse - é que eu gosto de animais e tenho um fraquinho por aves! - já é de família!
Até nos pombos da cidade eu reparo!,
Surpreendeu-me esta semana ver três pombos agachados em três sítios inusitados, em locais diferentes contudo similares, refiro-me à altura. Um estava imóvel sobre a relva do Parque Eduardo VII, outro à sombra, atrás de um pilar dum prédio de habitação, e o terceiro igualmente agachado sobre o primeiro degrau no acesso à porta de uma casa na Av. Almirante Reis. Pensei «estes pombos pousados no chão ou estão a mudar de comportamentos ou estão doentes sem forças para voar para lugares mais altos, - são presas fáceis e estão vivos! é estranho não serem caçados pelos gatos vadios na cidade! ah não admira – os gatos castrados não se reproduzem!... »
 … mas chega, não quero falar-vos mais de pombos nem de gatos castrados – prefiro retomar ao episódio do papagaio, que foi o que me trouxe aqui!...
passos depois da minha mudança de direcção já eu tentava apresentar-me à ave de penas verdes!, não é tarefa fácil. Se tentarmos tocar-lhe corremos o risco de levar uma bicada… A plumagem, reparei, não a tinha muito cuidada, deveria ser um cinquentão! Mirava-me ora com um olho ora com o outro. A cabeça revirada para trás, alardeando alguns gritos assustadores. – Percebia-os – provinham do medo do meu tamanho e de lhe ser estranho! O instinto fizera-o gritar, e ele gritou durante um breve espaço de tempo. Depois deve ter pensado «não surte efeito, o homem não se afasta! está aqui mesmo ao lado!, devo estar-lhe a parecer um louco!» e calou-se. As penas no cimo da cabeça eriçadas baixaram e começou a olhar-me de outra maneira. Estava a estudar-me! Amigo ou inimigo? Quanto a isso eu não queria que ele tivesse dúvidas! Então peguei numa das sementes de girassol que estavam no chão do seu ninho metálico e tratei de lhe mostrar que lha queria dar no bico. O comportamento dele gerido por um instinto inteligente mudou de imediato, pensou «quer me dar comida boa, deve ser amigo!» todavia rejeitou a semente, nem tentou pegá-la com os dedos da pata! Já não era o mesmo papagaio de há pouco, baixou a guarda e depois a cabeça! Eu ainda receei que ao aproximar a mão me bicasse, mas incrível ele fechava os olhos inteiramente confiante…
mais importante, do que a comida que ele tinha como garantida, queria que eu lhe tocasse!, baixou a cabeça aproximando assim o pequeno penacho. Com a unha do dedo indicador como se fosse um bico dum seu semelhante fui tocando-lhe nas penas da cabeça…. pela imobilidade a expressão dos olhos semi-fechados – notei - estava deleitado… cheguei mesmo a tocar-lhe perto dos olhos e no bico… expondo o meu dedo ao golpe, qual domador a meter a cabeça dentro da boca do leão… a ponta do dedo ali ao perigo no meio do bico… que arrepios … nada fez… revirou um pouco a cabeça baixando-a mais… levei de novo o dedo ao cimo da sua cabeça e lento e suavemente massajei-lhe a pequena plumagem, começaram-se a passar minutos, e eu queria ir, ir à minha vida, mas o prazer do papagaio era tão visível tão palpável!!!
quem lhe faria festas? Só os estranhos!
por isso me demorei para ele e com ele, sim confesso, deu-me muito prazer dar-lhe festas! Entendi-o melhor que ninguém quando ele me disse: sinto inveja dos macacos no Zoo, são mais tocados e acarinhados que eu!
… os olhos dele estavam tão fechados e o corpo tão imóvel que até me pareceu que adormecera… estava ali somente ali… sem passado sem futuro…
… a dona do Kioske já olhava... eu não podia ficar ali o dia todo e interrompi o contacto,  o papagaio continuava com os olhos fechados sentindo o contacto prazeiroso. Olhei-o uma ultima vez, virei costas e fui-me embora…
… nem perguntei como ele se chamava… não foi preciso!

 pois amigos adoraria ficar aqui a falar-vos de macacos e papagaios e outros mais... mas tenho que ir, provir ao meu sustento… não me pagam para escrever… mas quem me lê, lê-me até ao fim… 

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

uma loira excepcionalmente acelerada


 … via-se a léguas que a loira tinha bastante pedalada – quase arrancava a bicicleta do chão do ginásio… ninguém sabia onde ela ia buscar forças para passar 2 horas a pedalar…
- Está? olá Alex,…(a voz da fonte emissora era a de uma senhora na casa dos 50 anos a quem eu volta e meia telefonava…)
- lembra-se de lhe falar da minha amiga que conheci no ginásio? Você não imagina como é aquela mulher!, eu já lhe disse que ela andava com o Personal Trainer? Sim? Ah pois já lhe contei!, sabe como eu soube? Veio-me pedir emprestado o apartamento, por uma noite! Mas não sabe a melhor, além do marido e do P T ainda anda com um colega lá do trabalho. Olhe emprestei-o. Não acha que fiz bem? Tem dias, diz, que avia os 3, já viu? Se você visse como eles me revolveram o quarto. Ui … tive que chamar a empregada de limpeza! Sabe o que ela me contou?, oiça, não tenha pressa Alex, não desligue! Disse-me que não sabia como devia depilar a coisa… e que lembrou-se de pedir conselho aos três. O P T queria-la toda depilada!, o marido mais conservador queria-la normal mais cabeluda, e o colega também. Imagine! Olha sabe a quem fez a vontade? Ao marido??!! Acha??? O Alex é tão ingénuo. Foi ao Personal Trainer, e sabe porquê? Porque é ele que a come melhor, disse! Ahahah ela é demais… e sabe o melhor, o marido dela anda com uma brasileira, e que foi o próprio que lhe contou, ai o mundo anda perdido!!! não sei o que é que os homens vêem nas brasileiras? – até sei… dizem têm um mamar doce!, têm Alex? – então não me  responde? - Quem é que me disse que as portuguesas estão consideradas as mulheres da Europa mais difíceis de levar para a cama?? Ah já sei foi um surfista! Outra muita engraçada dela foi esta, conto-lhe já! Disse que no antigo trabalho tinha um colega lindo, todo bom com um sinalzinho sobre o lábio! - está a ver ela a contar-me e a morder os lábios e a fechar os olhos – Quando estava a sós com ele dizia-lhe muitas vezes «se não fosse casada, dava-te muitos beijinhos no sinal.»  E quando fala dos dois filhos? «O meu mais novo não fala com ninguém tem um feitiozinho de merda. Ainda bem que a minha sogra diz que eles são a cara do filho! o meu mais velho nasceu com um sinal sobre o lábio igualzinho; quando a enfermeira mo deu acabado de nascer e lho vi, lembrei-me logo do meu colega!» ahahah ela é toda acelerada, disse-lho outro dia – pois sou! como não haveria de ser? O meu pai sempre diz – foste feita em cima de uma mota, guria!... num pinhal!!... Alex até lha apresentava, mas é melhor não, o Alex merece umas amigas mais cultas!...
mas conte sobre ela:
para o Alex eu conto sim:
- essa minha amiga quando ouvia o pai dizer "o meu maior pesadelo foi feito em cima do meu maior sonho" até exclamava para si própria admirada «O meu pai surpreende, afinal é cabeça!!!» - e foi assim durante anos sempre que dizia a frase ia adensando cada vez mais o misterioso mistério... um dia chegou a casa bêbado - chegava quase sempre, mas desta vez um pouco mais bêbado do que o costume - e voltou a repetir a frase para a filha... ela de tão intrigada vendo-o falador achou a altura certa para desvendar o mistério:  deixou passar uma meia hora e falou-lhe assim: meu pai você nunca me falou dos seus sonhos, qual foi o seu maior sonho diga para a sua filha: 
- Uma mota!!! que eu comprei e que hoje já nao tenho!
- E o que voce fez em cima dessa mota? - 
- Comi a sua mãe!!!
olhou para o pai sem querer acreditar 
agora entendi.... essa sua frase...
qual frase filha???
a frase que voce sempre repete

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

é para ler se faz favor

 … é preciso repensar as culturas, conhecer muitas, para, depois das relativizar, tirar proveito desse conhecimento!, outro dia escutei que na cultura ocidental o trabalho é um castigo – relembrei ainda que estávamos no Éden e súbito, por causa de havermos cometido o pecado original, a cópula, fomos dele expulsos…

… sempre detestei o império romano! Usavam o "tripalium", um instrumento de tortura, como uma cadeira de três pés ('tri') ou varas (“palium”) para amarrar os escravos e açoitá-los! - Ora de um instrumento de tortura não pode advir nada de bom! Só dor, sofrimento e morte!, e da palavra que o designa também não! – As tarefas dos escravos dominados pelos romanos só poderiam ser cruelmente exaustivas para estes as associarem ao martírio da tortura no “tripalium” - na verdade a cultura ocidental ainda não se livrou do mal que essa tortura causou! – entenderemos assim se pensarmos na palavra que por associação de conceitos derivou do tripalium romano – trabalho! - o qual era e continua a ser encarado como um castigo... não admira que em consequência disso haja quem veja o trabalho como um meio para causar sofrimento ao trabalhador! - para essa gente um dos maiores prazeres da vida é humilhar os seus semelhantes!, - é gente com quem não me dou - atiro-lhes à cara! ironizando!, - uns gostam de foder o próximo, outros a próxima!
Mas comparai a nossa cultura com a japonesa! enquanto para nós os latinos o trabalho é um castigo, para eles é o caminho para o Paraíso!...
É por isso eles não se atrasam, a chegar ao trabalho!

Voltando lá acima. Estávamos no Éden e súbito, por causa de havermos cometido o pecado original, a cópula, fomos dele expulsos…
Mas que ideia absurda a do pecado original!!!
Pecado o caralho!! Pecado o caralhinho!!!...
… deixai-me gritar por favor!!
- Não houve pecado nenhum ó filhos da puta!!, oh grandessíssimos filhos da p…!!! Agarrem-me! antes que cometa um crime! Quem inventou o sexo fez mais vida!! Ouviram??? Larguem-me!! Podem-me largar se faz favor!, Que imbecilidade, que falta de bom senso! Dá vontade de ordenar: tragam-me os culpados pela historieta do pecado original!!!... que comédia! Ó Nietzsche! 

terça-feira, 24 de julho de 2012

O cão ladra, Deus consente!


É acertado afirmar que os homens que combatem a fé em Deus, o fazem por acreditarem que é insustentável poder-se esperar alguma coisa de coisa alguma; nas suas mentes Deus não passa do fruto da imaginação do homem, nas suas mentes Deus é coisa que não existe senão como ideia. Assim eles não combatem Deus – é difícil combater o que não existe – mas a ideia de Deus. Na Religião Católica recebemos da Bíblia uma aproximação "ideal" da definição de Deus; é aceite que Ele, Deus é omnipotente, omnisciente e omnipresente. Ora, pergunto, quem provar a impossibilidade de ser Deus omnipotente, não provará a inexistência dessa ideia de Deus? Sim, assim creio. E como então provaremos tal inexistência? Ora, poucos católicos negarão que o poder existente num ser confere-lhe a faculdade de poder intervir, de alterar algo; e manifesta-se quando na verdade altera. Assim, de que modo podemos nós homens compreender a omnipotência e a omnisciência de um Deus que aceita ser testemunha das dores mais agudas dos homens sem ousar manifestar-se? Os ateus compreendem-no assim: não existe omnipotência, não existe omnisciência, não existe Deus - é que para estes não há saber nenhum no Universo que legitime a não ajuda, pois tal é um crime[1]. - Os religiosos defendem-se, e dizem «Só a omnisciência ininteligível de Deus legitima a sua não intervenção». Contrapõe ali um ateu: «Até o Fox Terrier dos vizinho quando vê os donos guerrearem-se lhes ladra...» interrompe-o, um intelectual  «É o que o teu cão tem indubitavelmente mais ciência que a omnisciência de coisa alguma».
Sim, deverá ser isso, querem os religiosos fazer crer a ateus que quanto à omnisciência de Deus não lhes é dado suficiente inteligência para entendê-la. Respondem os ateus «Ficai vocês com ela. Não queremos ser abonados com uma inteligência que não presta ajuda a quem dela urgentemente precisa. Envergonhar-nos-ia até ao tutano.»
A inexistência da omnipotência de Deus é provada por uma só omnisciência legitimar a sua não intervenção: a omnisciência de coisa alguma. Acrescente-se que tal omnisciência não cabe, nem poderá nunca caber na mente de ateus humanistas. Vale.

Arthur Schopenhaeur legou-nos - acerca do panteísmo – este genial trabalho:
“A minha principal objecção ao panteísmo é que não tem significado. Chamar ao mundo Deus não é explicá-lo, mas apenas enriquecer a linguagem com um sinónimo supérfluo para a palavra mundo. O efeito é o mesmo se se disser «o mundo é Deus» ou «o mundo é o mundo». Se partirmos de Deus como aquilo que é dado e se pretende explicar, dizemos «Deus é o mundo»; depois, por certo, daríamos uma explicação, na medida em que isso seria remontar o ignotus ao notius, embora continuasse a não ser mais que uma explicação da palavra. Mas se partirmos daquilo que é realmente dado, o mundo, e dissermos «o mundo é Deus», então torna-se claro como o dia que isso nada diz, ou, no máximo, explica o ignotium pelo ignotus.
Daí que o panteísmo pressuponha a pré-existência do teísmo: pois apenas partindo de um Deus, ou seja, tendo já um e conhecendo-o, é possível vir a identificá-lo com o mundo, na verdade para o pôr delicadamente de lado. Não se parte, sem preconceitos, do mundo como aquilo que vai ser explicado; parte-se de Deus como aquilo que é dado, mas em breve, não sabendo o que fazer com ele, deixa-se o mundo tomar o seu papel. É essa a origem do panteísmo. Pois nunca ocorreria a pessoa alguma com uma visão isenta de preconceitos do mundo considerá-lo como Deus. Teria, sem dúvida, de trajar-se de um Deus muito mal-avisado, que não soubesse fazer melhor do que transformar-se num mundo como este.
O grande avanço que se supõe que o panteísmo representa sobre o teísmo é, se for tomado seriamente e não como uma simples negação disfarçada, uma transição do improvado e dificilmente concebível para o decididamente absurdo. Porque, por muito obscuro, vago e confuso que possa ser o conceito que está aliado à palavra Deus, dois predicados são, não obstante, inseparáveis dele: supremo poder e suprema sabedoria. Mas que um ser provido desses dois predicados se transferisse para uma situação como a que este mundo representa é, francamente, uma ideia absurda: porque a nossa situação no mundo é obviamente de tal ordem que nenhum ser inteligente, para não dizer omnisciente iria transplantar-se para ela.”


[1] Art. 200º
(Omissão de auxilio)
1. Quem, em caso de grave necessidade, nomeadamente provocada por desastre, acidente, calamidade pública ou situação de perigo comum, que ponha em perigo a vida, a integridade física ou a liberdade de outra pessoa, deixar de lhe prestar o auxílio necessário ao afastamento do perigo, seja por acção pessoal, seja promovendo o socorro, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias.
2. Se a situação referida no número anterior tiver sido criada por aquele que omite o auxílio devido, o omitente é punido com pena de prisão até 2 anos ou com pena de multa até 240 dias.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Alfredo Marceneiro, revisitado

... a andar pelas ruas de Lisboa, desde a Rua do Carmo até à estátua do Pessoa, notei o que já não sentia há anos, o prazer de olhar para a diversidade das pessoas e dos seus rostos… subia num passo lento e vagaroso quem sabe para ver com mais atenção quem por ali andava, quando oiço alguém em lugar discreto a cantar baixinho ali perto… olhei para a direita e ouvi uma sexagenária encostada a uma parede a cantar um fado… apesar da idade a voz era límpida!, e disse-lhe – canta muito bem! – continuei a andar para não lhe incomodar o canto…… um minuto depois vinda de trás diz-me ela em voz alegre ao passar - obrigado, pelo seu elogio!-Olho-a com atenção e penso, “esta mulher tem muito para dizer - vou falar com ela!” –  alcanço-a em poucas passadas e ela vendo-me dispara a falar: - Olhe foi muito bom saber que gostou de me ouvir. Sabe, cantar é o meu destino, mas cantar não foi o meu destino, e se eu lhe dissesse que aos 24 anos cantei no Coliseu, fiquei em 6º lugar pela Moraria!, mas naquele tempo custava-me tanto cantar em público, tinha tanta vergonha!, Ainda pensei voltar a cantar, depois de ter o meu filho! Mas já trabalhava! Fui administrativa! Os meus irmãos tantas vezes me pediam – Vai cantar!! Ai tinha tanta vergonha. Como eu mudei! Agora não tenho! Canto na rua! Não me importo que pensem que sou louca, quem pensa que sou é que é louco! Eu venho para aqui mesmo porque gosto de cantar! Quando canto vivo o momento! Depois puxou-me por um braço para uma rua menos iluminada e disse-me:- tenho 68 anos mas a minha voz não o diz!, não lhe parece que tenho uma voz mais nova? - parece sim!- sabe porquê? por três coisas! Não fumo! Não bebo e não faço noitadas. Escute. Veja se conhece este fado do Alfredo Marceneiro.- depois voltando a agarrar-me o braço encetou a cantar estes desconhecidos versos...


Fui de viela em viela
Numa delas dei com ela
E quedei-me enfeitiçado
Sob a luz dum candeeiro
Estava ali o Fado inteiro
Pois toda ela era fado

Arvorei um ar gingão
Um certo ar fadistão
Que qualquer homem assume
Pois confesso que aguardei,
Quando por ela passei,
O convite do costume

Em vez disso, no entanto,
No seu rosto só vi pranto
Só vi desgosto e descrença
Fui-me embora amargurado
Era fado, mas o fado
Não é sempre o que se pensa

Ainda recordo agora
A visão que ao ir-me embora
Guardei da mulher perdida
A pena que me desgarra
Só me lembra uma guitarra
A chorar penas da vida

assim que acabou de cantar passou a explicar-mo a canção - e referindo-se à letra disse - ela que ele encontrou era uma mulher da vida... " aguardei...  O convite do costume"... já entendeu? - e continuou explicando-me com um entusiasmo raro cada verso da letra - versos que nunca ouvira - mas como haverei de vos dizer, a arte mais cedo ou mais tarde vem ter com os artistas...