"Quando a Sra. de Villeparisis, sem dúvida para ver se apagava a má impressão que nos causara a aparência do sobrinho, e que revelava um temperamento orgulhoso e mau, voltou a falar-nos da inesgotável bondade de seu sobrinho-neto (...), admirei-me da facilidade com que se atribuem neste mundo condições de bom coração aos que mais seco o possuem, por mais que em outras ocasiões sejam amáveis com as pessoas brilhantes que fazem parte do seu ambiente social. E a própria Sra. de Villeparisis acrescentou, embora indiretamente, uma confirmação a esses traços essenciais do caráter do sobrinho, que a mim já não despertava dúvidas, quando encontrei a ambos num caminho muito estreito e a marquesa não teve outro remédio senão apresentar-me a ele. Foi como se não ouvisse que lhe diziam o nome de alguém, pois não se lhe moveu nenhum músculo do rosto, nem o mais leve fulgor de simpatia humana lhe cruzou pelo olhar; só mostraram seus olhos um exagero na insensibilidade e inanidade do olhar, sem o que em nada se teriam diferençado dos espelhos sem vida. Depois, olhando-me fixamente e com dureza, como se quisesse certificar-se bem de quem era eu antes de devolver-me o meu cumprimento, com um movimento brusco, que mais parecia efeito de um reflexo muscular que ato de vontade, alongou o braço em toda a sua longitude e estendeu-me a mão a distância, criando entre a sua e a minha pessoa o maior intervalo possível. Quando no dia seguinte me entregaram o seu cartão, supus que fosse para um duelo. Mas não me falou senão de literatura e, depois de longo tempo de palestra, declarou que tinha muita vontade de que todos os dias passássemos juntos algumas horas. Naquela visita, não só deu provas de uma afeição veemente às coisas da inteligência, mas tornou-me patente uma simpatia que concordava muito mal com a sua saudação do dia anterior. Depois, quando vi que saudava dessa maneira sempre que o apresentavam a alguém, compreendi que era um simples costume da sociedade, próprio de um setor da sua família e a cuja mecânica corporal o havia habituado a sua mãe, que tinha interesse em que fosse admiravelmente educado; fazia aquelas saudações sem reparar que as fazia, como não reparava em seus belos trajes e em seus belos cabelos; era uma coisa isenta do significado moral que a princípio lhe atribuí e tão puramente artificial como outro costume que tinha: o de pedir que o apresentassem imediatamente aos pais de qualquer pessoa com quem travara conhecimento, e já tão instintivo nele que, no dia seguinte ao da nossa conversação, ao ver-me, lançou-se a mim e, sem ao menos dizer-me bom-dia, pediu-me que o apresentasse a minha avó, que estava a meu lado, com a mesma rapidez febril que teria se tal pedido obedecesse a algum instinto defensivo, como esse gesto inconsciente de aparar um golpe ou de fechar os olhos diante de um jorro de água fervendo, rapidez que nos preserva de um perigo que nos teria alcançado um segundo depois. E passados que foram os primeiros ritos de exorcismo, da mesma forma que uma fada esquiva despe a sua primeira aparência e se apresenta revestida de encantadoras graças, vi como se convertia aquele ente desdenhoso no mais amável e atento rapaz que conhecera. “Bem”, disse eu comigo, “já me enganei uma vez com ele, fui vítima de pura miragem, e só triunfei da primeira para cair em outra, porque este é certamente um grão-senhor enamorado da sua nobreza e que quer dissimulá-la”. E com efeito, ao fim de pouco tempo, por detrás da encantadora educação de Saint-Loup e de toda a sua amabilidade, havia de transparecer para mim outra criatura, inteiramente diversa da que eu suspeitava. Aquele jovem, com o seu aspecto de aristocrata e desportista desdenhoso, não sentia curiosidade nem estima senão pelas coisas da inteligência, especialmente por essas manifestações modernistas da literatura e da arte, que tão ridículas pareciam à sua tia; de resto, estava imbuído do que ela chamava as declamações socialistas, possuído de um grande desprezo pela sua casta, e passava horas inteiras estudando Nietzsche e Proudhon. Era um desses “intelectuais” de admiração fácil, que se encerram num livro e não se preocupam senão em pensar elevadamente. Tanto assim que a expressão, no jovem Saint-Loup, dessa tendência muito abstrata e que o afastava tanto de minhas preocupações habituais, embora me parecesse comovente, cansava-me um pouco. E confesso que quando me certifiquei bem de quem tinha sido o seu pai, nos dias seguintes à minha leitura de umas memórias cheias de acontecimentos relativos a esse famoso conde de Marsantes, resumo da elegância tão peculiar de uma época já passada, e me senti com o espírito cheio de sonhos e desejoso de saber pormenores da vida que levara o sr. de Marsantes, deu-me raiva que Robert de Saint-Loup, em vez de limitar-se a ser o filho de seu pai, em vez de guiar-me pelas páginas daquela novela antiquada que fora a sua vida, se houvesse elevado até a admiração de Nietzsche e Proudhon." Marcel Proust
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terça-feira, 21 de outubro de 2014
domingo, 12 de outubro de 2014
Histórias de Abril, made in Salazar
- permite... ?
- sim claro - assentiu o velhote nonagenário sentado no banco do jardim.
sentado no banco de jardim eu já não via oliveiras às dezenas, nem uma para lembrança; absolutamente todas sem excepção haviam sido arrancadas à terra por ordem de um plano superior de Urbanização; o terreno dador de negras e reluzentes azeitonas, dá agora relva, flores e árvores altas com os troncos inclinados pelo vento, tudo isso e mais, para todos verem, além claro de bancos de jardim.
Sentei-me num, ao lado desse respeitável Sr.
...então o que aconteceu e nunca houvera acontecido, foi uma conversa na qual acabei colhendo matéria/substância de aproveitar para escrever o que ainda nunca houvera escrito...
Mas antes de lembrar o que ele contou, quero falar-vos dum erro ortográfico...
ouvia-se dizer... que no dia da inauguração do Jardim houve um momento caricato que envergonhou os representantes da câmara Municipal por a placa inaugurativa, de mármore branco, ter sido gravada com um erro ortográfico subtil. Tão subtil que passou por todas as leituras, imagine-se, durante meses, até ao festivo dia, sem ser revelado, nem pelo jardineiro, nem pelo filho, também jardineiro; cujos os olhos bem próximos da placa chegaram, quando lhe tomaram o peso e a fizeram descer da carrinha da Câmara, e depois mais próximos ainda ao aparafusarem-na ao suporte; o erro ortográfico, só foi apanhado/descoberto pelo olhar atento, mas míope, dum puto do 1º Ciclo, a avaliar pelas lentes dos seus óculos muito graduadas, de fundo de garrafa...
depois de descoberto o erro, ou melhor a correcção do erro, obrigou a mandar gravar-se uma nova placa de mármore, mas, diga-se, em má hora, pois presentemente com o novo acordo ortográfico a palavra estaria bem escrita...
voltando ao banco de jardim...
era o dia do 25 de Abril de há poucos anos atrás e em vez de ter apanhado o comboio até Lisboa para ir aturar a rabugice dos colegas, sentei-me ao lado do velhote a desfrutar a tarde soalheira do feriado. Conhecia-o ainda ele era de espinha dorsal e esqueleto direito, de dizer bom dia e boa tarde, e agora via-o de costas e pernas muito arqueadas... Iniciamos a conversa falando do Rui, o neto; um rapaz da minha idade, com quem sempre o via e agora raramente... explicou-me que ele tinha ido viver para Coimbra.
- falava com clareza, com boa dicção e ouvia igualmente bem, a pele com algumas rugas não denunciavam a avançada idade... por simpatia disse-lho
- Sabe está muito bem conservado, ninguém lhe dá os anos que tem.
- Sim, sim, ninguém me dá mas também ninguém me-os tira.
Depois voltamos ao assunto do dia que era o antes e o depois do 25 de Abril...
Sobre o depois do 25 de Abril pouco disse... mas sobre o antes falou assim:
- sim claro - assentiu o velhote nonagenário sentado no banco do jardim.
sentado no banco de jardim eu já não via oliveiras às dezenas, nem uma para lembrança; absolutamente todas sem excepção haviam sido arrancadas à terra por ordem de um plano superior de Urbanização; o terreno dador de negras e reluzentes azeitonas, dá agora relva, flores e árvores altas com os troncos inclinados pelo vento, tudo isso e mais, para todos verem, além claro de bancos de jardim.
Sentei-me num, ao lado desse respeitável Sr.
...então o que aconteceu e nunca houvera acontecido, foi uma conversa na qual acabei colhendo matéria/substância de aproveitar para escrever o que ainda nunca houvera escrito...
Mas antes de lembrar o que ele contou, quero falar-vos dum erro ortográfico...
ouvia-se dizer... que no dia da inauguração do Jardim houve um momento caricato que envergonhou os representantes da câmara Municipal por a placa inaugurativa, de mármore branco, ter sido gravada com um erro ortográfico subtil. Tão subtil que passou por todas as leituras, imagine-se, durante meses, até ao festivo dia, sem ser revelado, nem pelo jardineiro, nem pelo filho, também jardineiro; cujos os olhos bem próximos da placa chegaram, quando lhe tomaram o peso e a fizeram descer da carrinha da Câmara, e depois mais próximos ainda ao aparafusarem-na ao suporte; o erro ortográfico, só foi apanhado/descoberto pelo olhar atento, mas míope, dum puto do 1º Ciclo, a avaliar pelas lentes dos seus óculos muito graduadas, de fundo de garrafa...
depois de descoberto o erro, ou melhor a correcção do erro, obrigou a mandar gravar-se uma nova placa de mármore, mas, diga-se, em má hora, pois presentemente com o novo acordo ortográfico a palavra estaria bem escrita...
voltando ao banco de jardim...
era o dia do 25 de Abril de há poucos anos atrás e em vez de ter apanhado o comboio até Lisboa para ir aturar a rabugice dos colegas, sentei-me ao lado do velhote a desfrutar a tarde soalheira do feriado. Conhecia-o ainda ele era de espinha dorsal e esqueleto direito, de dizer bom dia e boa tarde, e agora via-o de costas e pernas muito arqueadas... Iniciamos a conversa falando do Rui, o neto; um rapaz da minha idade, com quem sempre o via e agora raramente... explicou-me que ele tinha ido viver para Coimbra.
- falava com clareza, com boa dicção e ouvia igualmente bem, a pele com algumas rugas não denunciavam a avançada idade... por simpatia disse-lho
- Sabe está muito bem conservado, ninguém lhe dá os anos que tem.
- Sim, sim, ninguém me dá mas também ninguém me-os tira.
Depois voltamos ao assunto do dia que era o antes e o depois do 25 de Abril...
Sobre o depois do 25 de Abril pouco disse... mas sobre o antes falou assim:
- «nesses anos de ditadura, já nem me lembro se trabalhava como motorista ou nos Caminhos de Ferro, já tenho 90 anos, está a ver?! a memória já me falha - mas lembro-me bem - quer como motorista quer como operário da C.P., ambos os meus chefes pertenciam à P.I.D.E. ou melhor colaboravam com ela, que é a mesma coisa, não acha? Um deles, julgo que o da C.P. uma vez convidou-me a ir a Lisboa com ele para fazermos um trabalho, dizia que eu era de confiança, vamos e voltamos no mesmo dia - é só um biscate, um extra, para ganharmos uns cobres - olhe amigo não era servirmos como testemunha acusatória para denunciarmos alguém - havia grupos de informadores para isso - era muito pior - quer saber qual era o trabalho? - ir à torturas para realizá-las - cheguei a ver fotos deles a retirarem informações pela dor infligida aos presos políticos - não aceitei o convite -também não aceitei o convite para ser motorista de um dos chefes da P.I.D.E. - fiquei logo marcado - na lista negra - por essa razão reformei-me mais cedo - vi-os a destruírem muitas famílias - dizia para os meus botões - um dia serão castigados - pelo mal que fizeram...»
... depois falamos mais um pouco e acabei dizendo-lhe que infelizmente depois do 25 de Abril bem poucos foram os que deveriam ter sido castigados... por ter-me lembrado dum artigo entrevista que lera no Expresso ao António José Saraiva...
http://www.odifamadordacopula.blogspot.pt/2014/09/blog-post.html
terça-feira, 30 de setembro de 2014
a beleza avistada por um observador em movimento e o humor de Marcel Proust, por Alexnietzsche
"O carro da Sra. de Villeparisis ia depressa. Mal me dava tempo para ver a menina que vinha em nossa direcção; e, contudo, como a beleza das criaturas humanas não é igual à das coisas, e sentimos muito bem que pertence a uma criatura única, consciente e de livre vontade, enquanto a sua individualidade, alma vaga, vontade desconhecida, se pintava em imagem prodigiosamente reduzida, mas completa, no fundo de seu distraído olhar, imediatamente (...) sentia em mim o embrião vago, minúsculo também, do desejo de não deixar passar aquela menina sem que seu pensamento tivesse consciência da minha pessoa, sem impedir que seus desejos se dirigissem a outro homem, sem que eu entrasse nessas ilusões e me assenhoreasse de seu coração. Enquanto isso, o carro afastava-se, a rapariga ficava para trás, e como carecia a meu respeito de quaisquer das noções que constituem uma pessoa, os seus olhos, que mal me tinham visto, já me haviam esquecido. Parecera-me acaso tão linda por tê-la visto assim tão fugazmente? Em primeiro lugar, a impossibilidade de nos determos junto de uma mulher, o risco que corremos de nunca mais tornar a encontrála, dão-lhe repentinamente o mesmo encanto que a determinado país a doença ou falta de recursos que nos impede visitá-lo,(...) os atractivos de uma mulher que vemos passar costumam estar em relação directa com a rapidez da sua passagem. (...)
Se eu pudesse descer do carro e falar com a moça que passava, talvez me houvesse desiludido qualquer imperfeição de sua pele, que não se poderia ver do carro. (...) Talvez uma só palavra sua, um sorriso, me tivessem dado uma chave ou código inesperado para compreender a expressão de seu rosto ou de seu porte, que imediatamente já me pareceriam banais. É muito possível, porque nunca na minha vida encontrei moças tão deliciosas como naqueles dias em que estava com uma pessoa muito grave, de quem não podia separar-me apesar dos mil pretextos que inventava; em Paris, alguns anos depois da minha primeira viagem a Balbec, ia eu de carro com um amigo de meu pai quando vi uma mulher andando muito depressa na escuridão da noite; ocorreu-me que seria tolice perder por uma questão de cortesia a minha parte de felicidade na única vida que sem dúvida existe; desci sem desculpa alguma e lancei-me em busca da desconhecida; perdi-a num cruzamento de ruas, dei com ela no seguinte, e afinal, sem fôlego, me vi cara a cara com a velha sra. Verdurin, da qual eu sempre fugia, e que me disse, muito contente e admirada:
- Que amabilidade a sua, correr para vir cumprimentar-me!"
Proust, in Tomo II, EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO
Proust, in Tomo II, EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
JUDEUS o povo perseguido
Com ou sem grandes conhecimentos Históricos dá para concluir que o povo judeu tem sido ao longo da sua História culpabilizado, escorraçado, perseguido, aprisionado e mais macabro ainda, executado; há poucos séculos atrás os Tribunais do Santo Ofício da Inquisição não brincavam em serviço, torturavam-os nos interrogatórios, acusavam-os de judaizarem (de praticarem em segredo a religião dos seus antepassados) e servindo-se das alianças com os Reis Católicos puniam com requintes de malvadez os judeus com a pena de morte... imagine os carrascos a garrotarem o seu pescoço apertando um pouquinho mais a cada meia volta... ou então imagine-se acobardado a assistir a tudo conjuntamente no meio do povo, sentindo asco de si mesmo e da multidão cúmplice... Mas para quê ir tão atrás no tempo, ainda bem mais recente houve o horror indescritível documentado e fotografado do Holocausto... Como conseguiram fazer isto ao Povo judeu? eu respondo-vos - por ser fácil - já não seria fácil se o povo judeu se valesse do direito de entrar em guerra! Ora nem se podiam valer, precisariam, para isso, de um exército! acontece que agora presentemente o povo judeu já o tem!!!, e ainda bem! Tardava!! já não era sem tempo! Vã glória terem precisado da ajuda de quem lhe fez um caminho por entre as águas salgadas.. eram mesmo uns sonsos, uns sem sal... ahahha hoje canta outro galo!! hoje eles devolvem cada pedrada... e quem nao gosta que não lhes atire pedras!! Muito bonzinhos são os israelitas, porque se fosse o nosso 1º rei Dom Afonso Henriques e em vez de espadas e mocas tivesse os recursos bélicos dos Israelitas,...
leio e releio António José Saraiva, INQUISIÇÃO e CRISTÃOS NOVOS
"(...)Em 1979, António José Saraiva rompeu com o regime saído do 25 de Abril. Defendia que como não se fizera a liquidação do anterior regime e o apuramento de responsabilidades, nos crimes da PIDE, nos crimes da guerra colonial, nas suspeitas de corrupção, que o regime do 25 de Abril era uma continuação, sob outras vestes, do salazarismo e marcelismo.
Escreveu num artigo demolidor, intitulado O 25 de Abril e a História: "Em resumo, não se fez a liquidação do antigo regímen, como não se fez a descolonização. Uns homens substituíram outros, quando os homens não substituíram os mesmos; a um regímen monopartidário substituiu-se um regímen pluripartidário. Mas não se estabeleceu uma fronteira entre o passado e o presente.
Os nossos homens públicos contentaram-se com uma figura de retórica: "a longa noite fascista". Com estes começos e fundamentos, falta ao regime que nasceu do 25 de Abril um mínimo de credibilidade moral. A cobardia, a traição, a irresponsabilidade, a confusão, foram as taras que presidiram ao seu parto e, com esses fundamentos, nada é possível edificar.
O actual estado de coisas, em Portugal, nasceu podre nas suas raízes. Herdou todos os podres da anterior; mais a vergonha da deserção. E com este começo tudo foi possível depois, como num exército em debandada: vieram as passagens administrativas, sob capa de democratização do ensino; vieram "saneamentos" oportunistas e iníquos, a substituir o julgamento das responsabilidades; vieram os bandos militares, resultado da traição do comando, no campo das operações; vieram os contrabandistas e os falsificadores de moeda em lugares de confiança política ou administrativa; veio o compadrio quase declarado, nos partidos e no Governo; veio o controlo da Imprensa e da Radiotelevisão, pelo Governo e pêlos partidos, depois de se ter declarado a abolição da censura; veio a impossibilidade de se distinguir o interesse geral dos interesses dos grupos de pressão, chamados partidos, a impossibilidade de esclarecer um critério que joeirasse os patriotas e os oportunistas, a verdade e a mentira; veio o considerar-se o endividamento como um meio honesto de viver. Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma Primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco." Um texto actualíssimo, como se vê.(...)"
by Paulo Gaião, In Expresso, 27 de Julho de 2012
by Paulo Gaião, In Expresso, 27 de Julho de 2012
sábado, 27 de setembro de 2014
CARTA DE AMOR 1 com Prólogo
Introdução - explicação ao leitor.
... só aqui estou eu, sentado, a escrever, para si...
... o que me trouxe foram as cartas de amor; senti, ao lê-las, não ter nunca lido nenhumas mais inspiradas... as minhas ouso dizer são as mais belas cartas de amor da língua portuguesa... quem não acredite que mo prove... semanalmente comprometo-me a editar um ou duas... tenho a certeza que nunca haveis lido cartas de amor mais belas ... publicarei aqui as ditas sem qualquer ordem cronológica... faço-o por considerá-las dignas de vós... apreciadores de arte!
"Ler pode tornar o Homem perigosamente humano."
Guiomar de Grammon
... só aqui estou eu, sentado, a escrever, para si...
... o que me trouxe foram as cartas de amor; senti, ao lê-las, não ter nunca lido nenhumas mais inspiradas... as minhas ouso dizer são as mais belas cartas de amor da língua portuguesa... quem não acredite que mo prove... semanalmente comprometo-me a editar um ou duas... tenho a certeza que nunca haveis lido cartas de amor mais belas ... publicarei aqui as ditas sem qualquer ordem cronológica... faço-o por considerá-las dignas de vós... apreciadores de arte!
"Ler pode tornar o Homem perigosamente humano."
Guiomar de Grammon
... é bem diferente ler o que eu escrevi para o mundo e ler o que eu escrevo para si - o que é para o mundo é para todos, o que é para si é para ser seu !, porque as palavras devem voltar ao ser de onde partiram!
A S., sem querer, fê-las nascer pelo gesto simples de me olhar e cumprimentar!... então de imediato tudo o que foi emoção - os seus olhos a olhar nos meus - num vislumbre lento - a sua expressão cândida e alegre - contrastante com a sua fisionomia de normal mais séria - tudo, toda a emoção - tudo!, se quis em palavras!, eu dizia depois de nos vermos «vou escrever-lhe!»...
Sem dúvida estas palavras vieram-me inspiradas de si!, é normal então voltarem para si!...
A S., sem querer, fê-las nascer pelo gesto simples de me olhar e cumprimentar!... então de imediato tudo o que foi emoção - os seus olhos a olhar nos meus - num vislumbre lento - a sua expressão cândida e alegre - contrastante com a sua fisionomia de normal mais séria - tudo, toda a emoção - tudo!, se quis em palavras!, eu dizia depois de nos vermos «vou escrever-lhe!»...
Sem dúvida estas palavras vieram-me inspiradas de si!, é normal então voltarem para si!...
minutos depois passava segunda vez pela mesma entrada do edifício onde nos cruzamos- como o carteiro que toca sempre duas vezes - mas já lá não estavas!, foi bom na mesma, porque passei pelo mesmo sitio onde a vira!... depois em silêncio revivi a imagem que retive de si quando nos olhámos! mais que as suas roupas de cor preta, os seus sapatos pretos e a sua mala preta, eu vi os seus olhos! Se eu fosse pintor ou mesmo não fosse, mas soubesse pintar, eu poderia pintá-los para poder voltar a vê-los - numa tela!, mas como não sou nem sei quando, ou mesmo se, voltarei a vê-los, recorro-me do fraco talento para a escrita, de modo a que estas palavras sempre mos possam lembrar...
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
se não chegar uma página, tome 1/4 de livro...
Há estados de alma
doentes de melancolia; nota-mo-la nos outros e em nós, e não raro aconselhamos
ou aconselham-nos: - Vá! Sai dessa apatia, vai dar um passeio!... – porém, não
obstante concordarmos com o conselho, quantas vezes não nos deixamos estar
presos, dias, semanas, à cómoda inactividade física?... às vezes anos… parados!!… um dia é porque chove! no outro é por que faz frio. Pois bem, peço-vos, deixai-vos de desculpas. Sabei! até no Inverno deverias
preferirdes salpicar-vos de chuva a estardes debaixo das nuvens negras da
melancolia. E quando o estado do tempo se agrava?, e a
caminhada se torne lamacenta, impraticável, perigosa? Bem, jamais
desejaria que corresses perigo de vida - prescrevo-vos então a outra caminhada…
Qual? A que podereis fazer pelas páginas dos livros, frase após frase, num
passo de leitura ora vagaroso, ora ritmado; para não vos demorardes demais nas
paisagens salutares da arte, das ideias, dos valores nobres. No caminho das
páginas havereis de ver, de parágrafo em parágrafo, enseadas com muito vento,
planícies imensas a perder de vista; tereis a impressão de terdes subido a
miradouros e a verdes mais longe!, - e enquanto pelo objecto da leitura
caminhardes lereis muitas coisas. Descobrireis até frases terapêuticas com
princípios activos mais benfazejos para a alma que os dos fármacos. Poderia
citar-vos algumas!, mas melhor não, Curar-vos-ia de toda a melancolia, e isso
eu não quero! Onde depois iria eu achar leitores melancólicos? Se vos apraz,
sabei que Aristóteles afirmou que por regra os homens inteligentes são
melancólicos! Eu fui-o muito! Sou-o ainda. Sei por conhecimento próprio o
quanto aborrece ao próprio a melancolia! Hoje conheço-a mais e por isso convivo
com ela melhor!, e às vezes, concluo, sou Melancólico, logo existo!,
Ler é bom
remédio! As leituras, em semelhança com os passeatas a pé, por havermos
despendido velhas energias e adquirido novas, fazem sentirmo-nos vivificados!...
Seria pedir
muito à vossa melancolia, agarrar em livros dos mais variados autores, socorrer-se
da sua companhia, e calcorrear o salutar caminho das palavras?
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
obedecer ou não obedecer eis a questão
Sem regras – dizem - Sem regras não passamos de selvagens; mas urge avisar: Cuidado!, a obediência às regras não nos isentará de responsabilidades - podemos em consequência da "boa obediência" virmos a ser punidos por havermos praticado actos de selvajaria!... Quantos povos, quantas pessoas não massacraram barbaramente o próximo, o seu semelhante, no cumprimento das regras?, que nos difere dos Nazis, e dos russos Estalinistas quando no cumprimento cego das regras prejudicamos seriamente alguém? – para nos inocentarmos, passamos a responsabilidade para a hierárquico superior, e dizemos: estávamos a cumprir ordens! – querendo com isso desresponsabilizar-mo-nos, mas deveríamos antes querer legitimar que todos os nossos actos nos responsabilizam, todos, quer os voluntários quer os ordenados pela hierarquia!, em síntese, somos igualmente selvagens quando, virando as costas à ética, aceitamos a selvajaria dissimulada sobre a fachada das regras e, sem quaisquer escrúpulos, nos tornamos os seus agentes.
A selvajaria pode ser maior ou menor, conforme o gravidade do mal que causa; o mais pequeno dos males que alguém causa a alguém, é, será sempre, um acto de selvajaria!
segunda-feira, 28 de julho de 2014
A mandioca, o Carnaval e os anjos celestiais!!
A professora pedira aos meninos para ler em casa um texto
alusivo ao Carnaval e, para incentivá-los ao cumprimento desse dever, o da
leitura, dissera-lhes que quem lesse o texto até ao fim acharia nele uma
recompensa; ficaram por isso os meninos intrigados sobre qual seria.
- Srª Professora diga-nos. Qual é a
recompensa?
- Ai isso é que não vos digo!, se vos digo
perde a graça e vocês já não leriam!
- Leríamos sim!
- Meus queridos, saberão todos que ler já
por si é uma recompensa, na medida em que é um exercício racional, mas quanto a
este texto garanto-vos que vão ter uma outra acrescida! Entenderam?
- Um dos meninos - o Luis - disse que sim,
mas um outro disse:
- Não.
- O Luís entendeu, e vai fazer o favor de
te explicar por outras palavras…
(Luís virado para o Pedro)
- Pedro, ler faz-nos bem como jogar à
bola! É um exercício! A outra recompensa deve ser marcar um golo! (riu-se)
- É mais ou menos isso! Quem ler tudo até
ao fim vai achar a outra recompensa. Agora não me perguntem qual?...
Os catraios (os guris) estavam
verdadeiramente intrigados a olhar para as duas folhas A4 cheias de palavras; eu
mesmo também fiquei intrigado… mas, quando cheguei a casa, atirei a mala para
cima da cama e nunca mais me lembrei do dever escolar…
Aconteceu que no dia seguinte, em
consequência do meu completo esquecimento, ser um dos poucos a não saber nada
sobre a recompensa! Ouvia os meus colegas falarem uns com os outros
referindo-se à recompensa, rindo-se…
- Leram o texto?
- Lemos sim! – gritaram os meus colegas no
meio de muitas risadas
- Quem é que não leu?
Eu levantei o braço!...
- Quem mais não leu?
Levantaram o braço mais uns tantos!...
- Vamos então ler em voz alta, para
todos ouvirem. João retire a mão da cara, olhe a postura! Sente-se direito.
Faça-nos o favor de ler. Em voz alta. Leia o título também.
O João não lia mal; tinha o costume de pigarrear
a voz antes de ler ...
QRQRQRRRRR QRQRQRRRR
O professor havia pedido aos seus alunos
disfarces de Carnaval, e ficara combinado deixarem-nos dentro de uma caixa de
papelão; por isso o barulho e a azáfama em volta da caixa era grande; queriam
ser os primeiros a deixar na caixa o seu disfarce e a ver os dos outros.
- Vá chega!, Vão sentar-se! – ordenou o
professor, incomodado pela gritaria infantil!
De imediato todos procuraram o lugar para
se sentar. Todos menos Edú Nassim, o guineense; ele aproveitara a confusão para
informar o professor sem ser ouvido pelos outros…
- Esqueci-me de trazer a fantasia de
Carnaval …
- Não faz mal Edú. Vai para o teu lugar!
O esquecimento de Edú tinha uma
razão. Os pais tinham vindo da Guiné Bissau, e passavam por algumas
dificuldades… Um kilo de farinha de mandioca para os pais de Édu tinha
prioridade sobre qualquer disfarce…»
Os
alunos atentos à história riram-se; perguntaram depois o que era uma mandioca,
e dois houve que por estarem distraídos perguntaram ao colega do lado sobre o
quê que riam…
O professor explicou que uma mandioca era
uma raiz muito maior que uma cenoura com uma casca castanha escura e toda
branca por dentro. Depois, elogiou a dicção do pequeno leitor e pediu a um
outro aluno para ler a parte que faltava… (continua…)
«A mãe de Edú pensara comprar-lhe uma
coroa de rei para fazer jus ao nome Nassim, mas não passou dai, do pensamento…
O professor poderia aproveitar-se da
desculpa de Edu para dar uma lição de moral sobre o esquecimento, mas não o fez,
seria imoral, não acham?
Com 3 grandes passos chegou-se perto da caixa
e enfiou os braços que desapareceram no meio dos disfarces; agarrou em todos de
um vez e pô-los sobre duas mesas. Havia disfarces e máscaras para todos os
gostos. Havia um alusiva ao livro do Alexandre Dumas, Os três Mosqueteiros,
outra ao famoso cavaleiro da Triste Figura, uma com uma mascarilha e uma capa negra
era a do Zorro, havia a dum coelho – o da Alice no pais das Maravilhas – havia
a do pirata da barba Azul, e a do Capitão Ahab, mas de todas, a mais cobiçada
pelos rapazes foi a do Homem Aranha… todos estavam muito animado, menos Edú,
ele continuava sentado, sem querer participar na distribuição das fantasias…
Vendo-o cabisbaixo, o professor chamou-o.
- Vem cá Édu.
O Édu levantou-se relutante, como se fosse
pedir sopa uma segunda vez!»
- Sopa?? – questionou um aluno
- É referente ao Oliver Twist, não é
professor?
- Sim é. Alude a uma das passagens mais
famosas do Oliver Twist. (virando-se para o leitor) Continua!
«Queria escapulir-se, receava o pior!,
estava naquela escola fazia pouco tempo e ainda não se habituara a estar no
meio dos branco.
A
máscara a capa e o chapéu do Zorro está fora de questão, pensou o professor,
perder-se-ia o efeito do contraste.
- Quem
quer ser o Zorro?
-
Eu não me importo de fazer de Zorra! – disse a Carminda; ela sabia aproveitar
as deixas…
Com o olhar
na caixa, antes que as fantasias fossem todas distribuídas e o Édu ficasse sem
uma, o professor, retirou umas asinhas acinzentadas, de penas ganso, procurou ainda
a aljava e a flecha mas delas nem a sombra. A ideia era que Edu se tornasse um orgulhoso
cupido guineense!, mas gorada essa hipótese esperava que com as asinhas o vissem
anjo, disfarçado de anjo!! Vestiu-lhes as asas!! e perguntou à turma:
- Digam-me o que é que o Édu vos faz
lembrar, não vos parece mesmo um… digam, digam!
Edu chateado achou por bem mover os braços, as asas mexeram-se por isso
um pouco!
Carminda viu e disparou!
- Um
morcego!!!
Toda a turma riu!
- Ahhhah ahahaha Edú parece mesmo um
morcego!!
- Bate as asas Edú, sais pela janela!!»
Eu conjuntamente com os meus colegas, rimos, depois, fez-se me luz,
ah agora sei, era esta a recompensa!
quinta-feira, 19 de junho de 2014
À memória do meu amigo Ribas
O Ribas e os pais moravam numa modesta casa térrea com uma porta no meio de duas
janelas viradas para a rua. Havia lá estado uma vez num dia quente de Verão a ajudá-los a transportar coisas antigas do sótão para o quintal, situado nas traseiras da casa. Só me voltei a lembrar desse dia passados que foram 3 anos quando lhe ouvi dizer «o meu falecido pai felicitou-me por teres ido lá a casa, gostou dos teus
modos e de saber que eras meu amigo»
A satisfação cobria-lhe o rosto mais por ter alegrado o pai que por ter recebido a sua aprovação. Além do meu comportamento solicito e educado houve um outro factor: o tabaco, ou melhor a aversão ao tabaco; quando ma ouviu manifestar, passou literalmente a ver-me fora dos grupos das más companhias do filho e dos amigos de John Barleycorn, essa informação surtiu o efeito de um bálsamo naquele velho pai sofrido...
A satisfação cobria-lhe o rosto mais por ter alegrado o pai que por ter recebido a sua aprovação. Além do meu comportamento solicito e educado houve um outro factor: o tabaco, ou melhor a aversão ao tabaco; quando ma ouviu manifestar, passou literalmente a ver-me fora dos grupos das más companhias do filho e dos amigos de John Barleycorn, essa informação surtiu o efeito de um bálsamo naquele velho pai sofrido...
As cortinas brancas não deixavam ver para dentro do quarto,
mas a janela, aberta por causa do calor das noites quentes de Agosto, permitia-me
ouvi-lo. Cantava alto. Enfiei a cabeça para dentro da janela afastando as cortinas
com a mão e ele nem notou. Deitado na cama, de tronco de barriga para cima, olhos postos no infinito do tecto, cantava Zeca
Afonso.
“E se um dia houver uma praça de gente madura
E um estátua de febre a arder… "
Deixei-o acabar a canção e chamei-o.
- Ribas!
- Olá... Já vou. Deixa-me só vestir uma camisa...
O rumo era em direcção à casa do nosso amigo comum, o Sr. Bastos onde à noite
nos reuníamos para cumprir com imenso agrado o hábito habitual de ouvirmos o Ribas a tocar guitarra e a cantar... Só depois da actuação, aceitávamos iniciar as partidas de Xadrez.
Por vezes o Ribas perguntava-me:
- Não me queres encomendar uma serenata? Só tens que me dizer onde ela mora e escolher a canção, o resto deixa comigo!!
Caminhava lançando as pernas para a frente, dentro de umas calças largas, baloiçando a barriga…
Por vezes o Ribas perguntava-me:
- Não me queres encomendar uma serenata? Só tens que me dizer onde ela mora e escolher a canção, o resto deixa comigo!!
Caminhava lançando as pernas para a frente, dentro de umas calças largas, baloiçando a barriga…
- Sabes o que eu descobri? ontem à noite?
- Diz.
- Descobri. O Universo está afinado em Lá menor!
- Diz.
- Descobri. O Universo está afinado em Lá menor!
-???????????? (o meu espanto era ainda maior que o universo)
- Como ??????
- Estava a cantar. Deitado. A certa altura da canção a cama vibrou debaixo das minhas
costas. Eram as molas do colchão, ressoavam. Voltei a cantar
e notei que o colchão ressoava sempre na mesma nota. Lá menor.
- Lá menor?
- Sim. O colchão. A cama! As paredes da casa. Alexandre, o Universo está afinado em lá menor. Tudo o que
vês. A claridade da lua, o brilho das estrelas... tudo o que está parado e tudo o que se move!
O Ribas de todas as pessoas para quem eu tinha declamado um ou dois versos da minha autoria havia sido o único que me pedia que o declamasse de novo para fruir com verdadeiro prazer da mensagem e das rimas!!
"Gente gentalha que em Deus acreditaste
E o tornaste à vossa imagem, podre e oca
Com ódios e guerras santas vos elevaste
Mas para com a verdade não abriste a boca (...)
quanto ao resto do poema... esse será só para os meus verdadeiros leitores!! para aqueles que me procuram para ler mais!!
O Ribas de todas as pessoas para quem eu tinha declamado um ou dois versos da minha autoria havia sido o único que me pedia que o declamasse de novo para fruir com verdadeiro prazer da mensagem e das rimas!!
"Gente gentalha que em Deus acreditaste
E o tornaste à vossa imagem, podre e oca
Com ódios e guerras santas vos elevaste
Mas para com a verdade não abriste a boca (...)
quanto ao resto do poema... esse será só para os meus verdadeiros leitores!! para aqueles que me procuram para ler mais!!
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