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quinta-feira, 15 de abril de 2010

sobre a existência e a mudança

...deve haver palavras para a vida dos sentimentos decorrer como desejaríamos, ajudando-nos a adaptar-nos às incontornáveis mudanças; porém acontece que a nossa capacidade de leitura e interpretação dos sinais, revelados nas palavras e nos actos de terceiros para connosco, quando não são conforme à nossa vontade sofrem quase sempre uma distorção. Vemos e acreditamos o que já ninguém vê nem acredita. Queremos poupar-nos às mudanças incómodas que se exigem para com a verdadeira realidade, agarrando-nos à esperança de que tudo mude! Ora sabemos que para que tudo mude a solução passa exactamente por fazermos algo, porém, alienados, deixamo-nos como estamos esperançados que tudo vá mudar consentido que tudo fique na mesma…
Sem dúvida a felicidade do passado - quando a houve - aliada ao desejo da prolongarmos – sob o medo da perdemos – deve exercer sobre nós um grande domínio, uma grande dependência – a pontos de nos fecharmos quer para o mundo quer para o futuro – como se deles nada mais houvesse – julgam algumas pessoas assim porque pensam a ideia de futuro somente como uma continuação da vida do presente (do que resta dela). Mas os que não acreditam mais no passado, aspiram a, sofrem de, um desejo vital de uma nova vida…
dizer que tudo isto - pensar nas muitas mudanças a que a vida dos sentimentos obriga para depois se agir - não está intimamente ligado à liberdade que o nosso pequeno pecúlio nos possibilita é falso.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Pousada Paraíso, Salvador da Bahia

o velho índio-negro dono da Pousada Paraíso, sentado na sua cadeira de plástico branco, bebia tranquilo a sua cerveja enquanto mirava os transeuntes a caminho da praia. Vavá volta e meia rodava a cabeça e inclinava-se para a frente para poder ver as bundas das mais vistosas bahianas passar pleo meio do trânsito e da azáfama
- Olhe ai Português. Vocês não têm disto lá em Portugal.
Eu não respondia; andava apaixonado e tão desesperado que já nem pensava em ver outra bunda que não a da minha amada.
- Você anda preocupado Português. Você devia ir à praia de... tem lá muita mulher pelada.
- Onde é essa praia?
- Já está interessado né português... Você tá de carro?
- Não.
- A pé é mais difícil explicar. Tem que apanhar o autopic ou o mototaxi quem vai para Ipitanga...
Não era muito longe, mas eu como andava triste tudo me parecia longe.
Deixava-me estar na companhia do Vavá, atento às suas palavras....
- Que se passa com Você Português!! Qual é o seu drama?
- Tenho a minha amada e o filho aqui no Brasil, faz este ano três anos que não os via. Vim para os levar. Mas ela ora diz que quer ir ora me diz que não vai. Já não sei o que fazer para a convencer.
- Você faz-me lembrar um paulista que há uns anos passou por aqui pela pousada. Via-o sempre cabisbaixo e pesaroso a beber cerveja, sem falar com ninguém. As noites passava-as ai sentado; tomava muito café; pouco tempo ficava no quarto. Andava muito triste. Parecia doença. Até que um dia que lhe perguntei o que é se passava com ele... Não falou dessa vez, mas passado que foi um dia, enquanto bebíamos um suco contou-me que quando a mulher se decidira a sair de casa para se separarem de vez, vendo-o ela a chorar agarrado ao filho de cinco anos – falou-lhe assim - Porque é você está chorando por um filho que não é seu?
O índio Vavá mal acabou de contar rebentou num riso alto... Eu também me ri, apesar de não gostar de me rir da desgraça alheia. Pensei que altura mais macabra para saber a verdade; então comparei a desgraça dele, porque é esta a sina do Homem, comparar tudo com tudo, com a minha e quase me esqueci que sofria.
O meu sorriso desaparecia depressa, sem dar por isso afundava-o em pensamentos de medo. Talvez por isso Vavá continuava me contando as suas histórias…
- Você anda triste. Mas olhe não mude a sua natureza por causa dela. Conhece o conto do Mestre do aprendiz e do Escorpião? Dizem que escorpião queria atravessar o riacho que ia cheio e caudaloso. Então o mestre perguntou ao aprendiz se ele queria ajudar o escorpião. Quer? Quero! Ajude então. O aprendiz agarrou com cuidado o escorpião mas este sentindo-se agarrado picou-o tão dolorosamente que teve que o largar. Por três vezes ele tentou e por três vezes foi picado. Então porque a dor desespera o aprendiz decidiu não querer ajudar mais o escorpião - porque não merecia. Então o Mestre disse-lhe: merece sim ser ajudado. Não o julgue, a sua natureza é picar, como a sua é de ajudar, espero. Faça-o subir para cima desta folha de bananeira, assim ele não lhe pica. Ajude-o Use a inteligência, não permita que a natureza dele o fira… Não mude a sua boa natureza por causa da dele.
- Olhe Vavá, a minha natureza sempre foi a de ajudar, desde pequeno. Sou ateu mas deve ter-me ficado das aulas da catequese e dos livros... O que é que ela por vezes deixa-me tão desesperado... quando me compara com o ex., quando fala do que vai perder por deixar o Brasil... diz-me coisas que me magoam tanto...
- Talvez seja a natureza dela, magoar! Acha que deve também magoá-la?
- Nunca a magoei, nunca lhe bati! Só que por vezes, com os nervos, elevo o tom de voz, grito-lhe!
- Português, a gente não grita para quem ama!
Fez-se um silêncio profundo. Deixei de ouvir a azáfama de tudo o que nos rodeava.
- Português quer um suco da maracujá?, Você precisa muito de tomar suco de maracujá, acalma muito os nervos. Não deve andar atrás dela. Faça como o pescador; quer pescá-la? Dê-lhe linha!!! Linha!!!! Se ela o escolheu, ela lá saberá porquê!!! Mostre-se mais seguro! Sem medo de a perder... vai ver que ela o procura... Com carinho a gente leva uma mulher aonde quer... até as levamos á lua!
- Levá-las à lua é o mais fácil!
e Vavá continuava falando... aproveitando a companhia de um ouvinte atento…
- olhe Português eu já vi uma coisa que Você nunca viu...
- conte lá Vává o que é que Você viu que eu ainda não...
- foi no dia em que eu acreditei na ciência. Eu era crente, só acreditava em Deus... a ciência eu não compreendia por isso, eu duvidava. Ainda hoje eu não entendo isso da ciência, mas acredito.
- A ciência é exacta!
- Pois foi por isso que eu acreditei... Quando eu era guri, há sessenta anos atrás já havia quem falasse da ciência, mas eram muito poucos; as pessoas começaram a passar umas às outras «Amanhã às 10 da manhã o dia vai virar noite», As pessoas riam, todas perguntavam como e poucas acreditavam... eu mesmo não acreditei... e porque é que tinha que ser às 10 horas? Porque é que tinha que ser às horas que a ciência dizia?? Você sabe??
- Era o destino...
- Mas eu vi no relógio! Aconteceu mesmo. Começou perto das 10 horas da manhã a escurecer, as galinhas subiram para o poleiro, começou a ver-se as estrelas, e às 10 horas certas fez-se uma escuridão que o povo temeu que fosse o fim do mundo... eu fiquei mudo... O dia tinha virado noite!
- Vává, foi um eclipse. Acontece quando a lua encobre a luz do sol...
- Foi o dia em que acreditei na ciência...

segunda-feira, 5 de abril de 2010

perdoa-me meu amigo e colega das letras Cesário Verde!

se pudesses ler as palavras inspiradas que se agarraram à minha pele como grãos de areia depois que me banhei na tua orla... mas recordas-te o que aconteceu quando corri para ti (como uma criança)?, contaste o número das vezes que te escrevi e concluíste que eram demais… e trataste logo de mo dizer para que eu parasse de correr… Talvez um passo vagaroso, um compasso lento, uma cadência quase mortal te dissesse mais… Querias o comboio dos sentimentos parado na estação, a aguardar! e fazia-te confusão o tráfego do meu aeroporto com aviões a partir e a chegar de cinco em cinco minutos… por isso, assustada, quem sabe se com medo, achaste que era demasiado!, mas não é exactamente assim que são julgados os génios, as suas vidas e as suas obras! No filme Amadeus de Milos Forman, Mozart ouve com espanto acerca da sua peça musical: “Demasiadas notas!" e logo retruca: “E quer me dizer vossa Ex quais as que estão a mais?” Tudo o que os génios fazem parece ser ao comum dos mortasis em demasia!, como escrevem muito não são mais lidos! Pense-se em Marcel Proust!...
Quiseste virar a página e viraste-a de facto, mas sem a leres. E como a não leste não a viveste! (...)
...à hora em que passei na rua que sobe até à estátua do Fernando Pessoa, já era noite e vi (depois comecei vendo) caminhar à minha frente um casal de mão dada. Ele uma amostra de homem, ela uma perfeição. Decidi segui-la para ter a certeza de que era real e não uma aparição que acabara de entrar na Igreja. Um cão entra numa Igreja porque tem a porta aberta, mas porque entraria na Igreja um ateu como eu? Ora, por alguma coisa que valha a pena: por umas boas nádegas – desculpar-me-ão a rudeza da expressão – a verdade é que eram-no de facto, comprovava-se pela beleza do seu desenho, todo ele realçado pela justeza cingida da calça branca ajustada - sublime - até ouvi a voz de Deus!
- Ainda me negas? Depois de teres visto com os teus próprios olhos!
- «Foi um acaso, se soubesses a fórmula fazia-los todos iguais àquele! E haverias de ver como diminuiria a infelicidade na terra! As mulheres seriam melhor amadas e homens mais fiéis! Mas como é que sem saberes a fórmula ainda te arrogas de seres o criador de tão excelsa perfeição??, És é um grande charlatão!!!»
Infelizmente não pude continuar a cobiçar aquele quadro vivo de arte contemporânea por muito mais tempo, porque o meia-leca da hiena macho estava de guarda!, e ao aperceber-se que aqui o leão rondava a sua febra começou a rosnar, que é como quem diz, a olhar na minha direcção para me informar que me tinha topado!, Se uma alma de mulher deve ser amada, quer pela justeza das suas acertadas palavras e conselhos quer pelas suas boas acções, um lindo cu de mulher, porque é do que agora se trata, não o deve ser menos! Oh não morresse eu nunca e sempre visse e tocasse a perfeição das nádegas imateriais…

sexta-feira, 26 de março de 2010

Elogios como graos de areia - a refutação...

"os elogios...mesmo que bonitos e feitos para agradar...quando demasiados podem ser vistos como uma intrusão...para alguém que pode ser timido..."

A sua frase “bem todas as mulheres são bonitas” não a levei a sério… ainda assim me interroguei se haveria lido George Orwell, conclui depois que não, pois não vi escrito “mas há umas que são mais bonitas que outras”. Uma maneira de dizer que todos os animais não são iguais dizendo que são, é acrescentando: mas há uns que são mais iguais que outros.
Não sei em que terá pensado ou qual foi a intenção quando escreveu, “nunca fui alguém que crie ideias a partir de pessoas famosas...” li a frase 4 vezes mas não alcancei saber que género de ideias criadas a partir de pessoas famosas tinha no pensamento, se é que as havia.
Sim é um facto incontestável, as pessoas ditas famosas têm mais exposição. Agora que elas são mortais e estão sujeitas às imperfeições como as que o não são, também não é novidade, não há Deuses na terra!
Agora quanto a ser calmo e a ser contido nos elogios, para não serem vistos com uma intrusão, é assunto que a meu ver dá para uma tese de mestrado! Desde já lhe digo que não aconselho a ninguém a minimizar as suas virtudes para agradar a quem quer que seja. Elogios, desculpe contrariá-lo, nunca são demais. Se os elogios na terra pecam é mais pela falta, não pelo seu excesso. E a meu ver mais falta fazem às pessoas tímidas que às que o não são, uma vez que os elogios (a fama) prometem facilidades sociais… e abrem muitas portas… Quem elogia sem violar a ética de uma formação humanista, mesmo que seja em quantidades abissais, não merece reparo negativo, pelo contrário, elogiar é dar aos vivos o que outrora só os mortos colhiam em seus túmulos. Pasme-se mas o termo elogio vem do idioma Latim, elogium, “inscrição tumular; epitáfio; escritos que os vivos gravavam nas lápides em abono do bom nome, memória e honra dos seus mortos. Isso era chamado um elogium… talvez possa advir dai uma prova da dificuldade de elogiar - não era habitual - as pessoas desses tempos remotos precisavam de esperar toda uma vida para finalmente terem o seu elogium.
Se alguém os pensa ou vê como uma intromissão, que poderemos fazer? Minimizar a bondade do nosso coração? vamos deixar de dar nozes e pérolas? para não melindrar gengivas, manias, traumas e paranóias?? Admira-me esse discurso, «ai por favor pára como os elogios que me metes medo» – não os vemos depois a comprar um cão! – como é que os podemos levar a sério? - Quem não quer elogios que não abra páginas em redes sociais, vá fazer um exame à próstata, como o George Cloney afirmou preferir (a ter uma página no facebook).
Eu não sou famoso! Porém é raro o dia que não receba uma sms logo pela manhã com este dizer. Oi lindo! A pessoa que mo manda conheceu-me numa rede social, nunca nos vimos pessoalmente nem pela Web. Ora diga-me, acha que deva apresentar queixa na esquadra da minha residência por intrusão na esfera da minha vida privada? Sim decerto, se tivesse a mania da perseguição! Sei que os(as) há por ai com essas manias, não as(os) ouvisse eu no Ministério Publico na sala das diligências durante as inquirições…
De qualquer modo se o que conta é a intenção, obrigado. Se era para me normalizar os excessos para me conter a verve e a escrita desde já lhe digo que não vá por ai…

sexta-feira, 19 de março de 2010

O professor Bianchi

Um olhar azul claro e expressivo, de estatura pequena, quase franzina, cabelo loiro escasso, entrava na sala de aula, depois sentava-se em cima do tampo da mesa, cruzava as pernas e olhando os presentes fazia-nos entender querer o silêncio; e assim que este então se fazia ouvir interrompia-o - começara a dar a aula…
Na primeira aula se bem recordo, para se apresentar disse-nos que o seu maior defeito era a sua maior virtude - e vendo-nos com cara de querermos desvendado o mistério - revelou-o - Falo demais! De facto falava! Duas ou mais horas seguidas, que passavam depressa. Cedo em toda a Universidade o elegi como um dos meus professores preferidos – A sua eloquência, o seu vasto saber, o seu bom gosto eram admiráveis. E com o tempo somando momentos e visitas fui tornando-me próximo. Era uma pessoa pouco dada a demonstrações de afectividade, mas tinha um riso franco. Recordo-me de uma vez, subíamos um dos corredores da UTAD, ele dizer-me que eu lhe havia dado um dos melhores elogios que um professor pode receber, que assistir às suas aulas mais do que transmitir-nos o saber aumentava-nos a inteligência.
Por essa altura, eu contava uma anedota que havia lido num pequeno livro acerca de música, escrito pelo Maestro Vitorino de Almeida. Num fim de tarde contei-lha e tive pela primeira vez a satisfação de o ter feito rir. Em poucas palavras posso também contá-la a vós. Não sei se já viram pautas de música. Talvez já tivessem reparado existir nessas pautas palavras como, piano, pianíssimo, forte, fortíssimo! Pois é acerca delas, do significado delas, apesar de claro, poder ser erradamente interpretado a razão do riso desta anedota real. Aconteceu de facto algures numa sala com boas qualidades acústicas. Enquanto a orquestra ensaiava, o maestro que a dirigia interrompeu e exclamou: Forte! – Pediu depois que retomassem. Bateu com a batuta, os músicos encheram o peito e recomeçaram a tocar. Quando chegaram ao trecho onde tinham sido interrompidos, o Maestro voltou a interrompê-los e exclamou: Desculpem, parece que não entenderam, eu disse Forte! Fez-se silêncio. Os músicos olharam todos uns para os outros e tacitamente concordaram em mostrar ao Sr. Maestro o quanto o tinham entendido bem!, e todos se compenetraram. O maestro levantou a batuta e quando passaram pelo mesmo trecho os músicos tocaram com o máximo de força e fôlego. Todavia o maestro interrompeu de novo e de novo exclamou: Meus caros eu disse FORTE!, Desta vez um dos músicos indignado ousou responder ao maestro: Mas maestro nós já não conseguimos tocar mais Forte!, e responde-lhe o maestro: Eu pedi forte porque logo no início vocês tocaram fortíssimo.
O meu professor preferido rira-se desta anedota, e se bem recordo disse-me uma vez que já conhecia muitas pessoas e que não via grande razão em querer conhecer mais. Foi uma exclamação que batia de frente com os meus ideais. Sou daqueles seres, quiçá estranhos, que adora conhecer pessoas, por inúmeras razões… Mas porque me veio esta lembrança à memória? Por viver num mundo onde há tantas pessoas que fazem enorme questão em afastar da sua vida esta ou aquela determinada pessoa, e por ler um jornal esta entrevista com Helen Browns e  (por nos saberem a atravessar o luto da morte de um filho) “As pessoas com coragem vêm-nos perguntar se podem fazer alguma coisa, mas nós não queremos que façam nada, só que estejam ao nosso lado, queremos pessoas na nossa vida”. Curioso é reconhecer que aquelas pessoas de quem outras tanto fazem questão de se afastarem são as mesmas sobre quem outras tanto gosto têm em tê-las próximas! Concluo assim que a qualidade das pessoas é mais relativa que absoluta, e que não basta amar ou odiar esta e não aquela pessoa, é preciso saber o porquê e em nome de que ideal ou fim se ama ou odeia…
Mas acerca disso quem se auto-interroga?

quarta-feira, 17 de março de 2010

dias sem música

se o arrependimento matasse, por ter permitido esquecer-me nestes apressados anos da vida adulta de me entregar durante horas à ocupação que mais prazer me proporcionava nos meus tempos de adolescente, falo-vos das horas ligado à musica, já estaria morto. Nesse tempo escutava alto as sinfonias de Beethoven, as aberturas de Rossini, as fugas fantásticas de Bach, e alcançava assim as alturas – o céu sideral não poderia propiciar prazer mais elevado. Era a eternidade! O perfeito esquecimento de todas as verdades absolutas quanto à minha finitude - eu sentia neste mesmo corpo mortal a imortalidade! Sons ritmos e timbres em tão perfeita orquestração que eu pelo poder que tinha das apreciar na totalidade sentia como se o próprio criador daquelas obras fosse.

segunda-feira, 15 de março de 2010

um paradigma na chuva

Há duas maneiras distintas de sentir a chuva: quando se está abrigado e quando não. Para quem está confortavelmente sentado num sofá é cómodo opinar acerca da vida dos que se molham...
No interior de um edifício alto eu via chover copiosamente em todo pátio do Campus da Justiça. A chuva já havia alagado a relva e juntava-se no chão cimentado criando pequenos lagos e cursos de água. Chovia continuamente, como quando ouvia a minha avó dizer "só um doido anda lá fora como o tempo assim!!" A própria atmosfera alagada de humidade tornara-se quase opaca, mal deixava ver os vultos das duas pessoas paradas à chuva, uma atrás da outra. Uma, um homem debaixo dum chapéu-de-chuva grande e azul, atrás dele uma mulher mais jovem a ser fustigada pela chuva. O motivo: um telefone público.
A chuva é fria e escorre-lhe dos cabelos para o pescoço. Ela encolhe os ombros e inclina a cabeça para trás para a chuva não entrar, em vão. Conto 10 minutos de relógio, continua estoicamente no mesmo sítio… súbito passa um homem a correr como se a chuva o queimasse… A chuva cai agora mais forte mas nem uma palavra entre ambos… Alguém sabe como é que isto se tornou possível, normal, racional, humano mesmo?
Foi então que senti o desejo de associar tudo o que pudesse àquela situação insólita; a mulher preferia ensopar-se de chuva, enregelar, a interpelar um estranho.
Eu próprio, que outrora pedia uma boleia a quem quer que passasse debaixo do seu chapéu-de-chuva, hoje, a interpelar alguém, prefiro a chuva. Magoa fundo a rejeição de um estranho. Um ser que nos conhece pode alegar um motivo justificado. Já um estranho fá-lo gratuita e voluntariamente, e isso no meu entender é mais grave, porque trai a nossa esperança na humanidade. Despedaça a fé nas divisas humanistas, fazer o bem sem olhar a quem, quem dá a tempo dá duas vezes, entre muitas outras. Sente-se o desgosto maior…

sexta-feira, 12 de março de 2010

Mente Estável versus Instável - Aldous Huxley

"um homem capaz de sacrificar de ânimo leve um hábito mental há muito tempo formado constitui uma excepção. A grande maioria dos seres humanos não gosta e, na realidade, até detesta todas as noções com as quais não estão familiarizados. Trotter, no seu admirável Instincts of the Herd in Peace and War, chamou-lhes de «mente estável» e colocou em oposição a eles uma minoria de «pessoas de mente instável», apaixonados pela inovação em si própria.
A tendência do homem de mente estável, quer seja introvertido ou extrovertido, visionário ou não visionário, será sempre para verificar que «aquilo que está, está certo». Menos sujeito aos hábitos de raciocínio formados na mocidade, os de mente instável naturalmente que sentem prazer em tudo o que é novo e revolucionário. É aos de mente instável que devemos o progresso em todas as suas formas, assim como todas as formas de revolução destrutiva. Os de mente estável, devido à sua relutância em aceitar modificações, dão à estrutura social a sua sólida durabilidade. Há no mundo muito mais gente de mente estável que instável (se as proporções fossem trocadas viveríamos num caos); mas em todos menos em alguns momentos muito excepcionais, eles possuem o poder e a riqueza mais do que proporcional ao seu número. Daí resulta que, ao aparecrem pela primeira vez, os inovadores foram geralmente perseguidos e sempre escarnecidos como lunáticos e loucos.

Um herético, de acordo com a admirável definição de Bossuet, é aquele que «emite uma opinião singular» - quer dizer, uma opinião sua, em oposição a uma que já foi consagrada pela aceitação geral. Que se trata de um patife, não é preciso dizer. É também um imbecil - um «cão» e um «demónio», no dizer de São paulo, que profere «baboseiras vãs e profanas». Nenhum herético ( e a ortodoxia de que ele se afasta não tem necessariamente de ser uma ortodoxia religiosa; pode ser filosófica, ética, artística, económica); nenhum autor de opiniões singulares é alguma vez razoável aos olhos da maioria dos de mente estabilizada. Porque o razoável é o familiar, é aquilo que os de mente estável estão no hábito de pensar no momento em que o herege profere a sua opinião singular. Usar a inteligência de qualquer outro modo que não seja o habitual não é usar a inteligência; é ser irracional, delirar como um louco."

Aldous Huxley, in "Sobre a Democracia e Outros Estudos"
Acresce que os de mente estável por serem a maioria mais facilidade têm de se encontrarem - de se agruparem - de formarem alianças. Já os de mente instável, os criadores por serem em reduzido número menor probabilidade têm de se cruzarem com os seus iguais... pelo que, concluo, se tornam almas mais solitárias... mais expostas... sem a protecção do grupo...

quarta-feira, 3 de março de 2010

carta de um poeta (escrita na 3ª pessoa)

Venho humildemente dirigir-me a Vª Exª pelas razões seguintes…
tentei esquecê-la mas não o consegui de todo…
fi-lo como penitência pelas minhas faltas e desregramentos
mas não surtiu efeito
e na verdade eu mesmo não merecia afastar-me…
só me resolvi a isso quando notei que me tratou indelicadamente…
sou um artista da palavra e por isso merecia da sua parte mais respeito…
todavia venho à sua presença para que me reconsidere e me subtraia com a sua bondade do número dos renegados…
e que possamos ser amigos e conversarmos como conversamos nos raros momentos que nos aconteceram…
vi-a poucas vezes na minha vida, mas sempre que a vi olhei-a dos pés à cabeça e não existiu fio de cabelo que não lhe notasse…
eu merecia vê-la muito mais vezes mas parece que por uma qualquer lei maquiavélica quanto mais amamos um desejo menos ele se realiza…
pagamos muito caro gostarmos das pessoas…
mas o que me decidiu mesmo escrever-lhe é a quadra que se aproxima e indagar se Vª Exª sabe compadecer-se da dor alheia…

Obrigado meu Senhor

poderia eu alguma vez acreditar na existência do Deus dos Cristãos e dos Árabes dos Judeus e dos Protestantes e de todas as outras infindáveis comunidades monoteístas, vendo uma matilha de cães selvagens da savana africana a rasgar com as presas as entranhas dum gnu vivo a bramir a dor de olhos revirados no Inferno? 
oh quanto eu quero ácida a ironia - ó Deus eu lembro-te todos os doentes incuráveis do Instituto Português de Oncologia a serem devorados interiormente pelo inúmera diversidade de cancros e agradeço-te Deus todas estas provas de divindade e ainda rogo que se faça consoante a tua vontade. E agradeço: Obrigado meu senhor por podermos ver com repugnância os insectos a devorarem-se uns aos outros ainda vivos até à última antena, obrigado meu senhor pelos ataques dos lobos às vaginas das vacas a pastar nos prados, obrigado meu senhor por os Veterinários poderem testemunhar os efeitos irreversíveis desses ataques!, e seu abate ser depois obrigatório! Obrigado meu senhor também por todos os estropiados e mongolóides, sem esquecer as crianças que morreram e morrerão de poliomielite e fome, obrigado também meu senhor pela diversidade dos cancros das mamas, dos úteros, do pâncreas, dos pulmões, da pele e de todos os outros 1001 tipos de cancro, mil vezes obrigado. Nós não poderíamos nunca imaginar mundo mais perfeito e um ser criador mais misericordioso omnisciente e omnipotente, por tudo isto e por muito mais eu te dous graças por vosso imenso poder e vossa imensa glória!