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terça-feira, 11 de março de 2014

Os melhoradores da Humanidade, por Nietzsche

"(...)
Em todos os tempos se quis «melhorar» os homens: a isto sobretudo foi a que se deu o nome de moral. Porém sob a própria palavra escondem-se as tendências mais díspares. Tanto a domesticação da besta homem como a criação de uma determinada espéçie de homem foram chamadas «melhoramentos»: só estes termini zoológicos expressam realidades, - realidades, certamente, das quais o «melhorador» típico, o sacerdote, nada sabe - nada quer saber.. Chamar à domesticação de um animal o seu «melhoramento» é algo que a nossos ouvidos nos soa como uma ironia. Quem sabe o que acontece nos circos de feras põe em dúvida que neles a besta seja «melhorada». É debilitada, é feita menos perigosa, é convertida, mediante o efeito depressivo do medo, mediante a dor, mediante as feridas, mediante a fome numa besta enfermiça. - O mesmo acontece com o homem domado que o sacerdote «melhorou». Na Alta Idade Média, quando de facto a Igreja era sobretudo um circo de feras, dava-se caça em todas as partes aos mais belos exemplares da «besta loura» - «Melhoraram-se», por exemplo, os aristocráticos germanos. Porém, que aspecto oferecia logo esse germano «melhorado», levado enganosamente para o mosteiro? O de uma caricatura de homem, o de um aborto: havia sido convertido num «pecador», estava metido na jaula, havia sido encerrado entre conceitos todos eles terríveis... Ali jazia agora, enfermo, murcho, odiando-se a si mesmo; cheio de ódio contra os impulsos que incitam a viver, cheio de suspeitas contra tudo o que continuava a ser forte e feliz. Em suma, um «cristão»... Dito fisiologicamente: na luta com a besta o pô-la enferma pode ser o único meio de debilitá-la. A Igreja entendeu isto: deitou a perder o homem, debilitou-o - porém pretendeu tê-lo «melhorado»...

3.
Tomemos o outro caso da chamada moral, o caso da criação de uma determinada raça e espécie. O mais grandioso exemplo disto oferece-no-lo a moral hindu, sancionada como religião no «Código de Manu» . A tarefa aí exposta consiste em criar ao mesmo tempo nada menos que quatro raças: uma sacerdotal, outra guerreira, uma de comerciantes e agricultores, e finalmente uma raça de servidores, os sudras. É evidente que aqui não nos encontramos já entre domadores de animais: uma espécie cem vezes mais suave e racional de homens é o pressuposto para conceber sequer o plano de tal criação. Vindo do ar cristão, um ar de enfermos e de cárcere, respira-se aliviado ao entrar neste mundo mais são, mais elevado, mais amplo. Que miserável é o «Novo Testamento», comparado com Manu, que mal que cheira! - Porém também esta organização tinha necessidade de ser terrível, - desta vez não na luta com a besta, mas sim com o seu conceito antitético, com o homem-não-de-criação, o homem-mestiço, o chandala. E, de novo, essa organização não tinha nenhum outro meio para fazê-lo inócuo, para torná-lo débil, que pô-lo enfermo, - pois era a luta com a «maioria». Talvez nada choque mais a nossa sensibilidade que estas medidas preventivas da moral hindu. O terceiro edicto, por exemplo (Avadana-Sastra I), o de «os legumes impuros», prescreve que o único alimento permitido aos chandalas sejam os alhos e as cebolas, em atenção a que a Escritura Sagrada proíbe dar-lhes grão ou frutos que tenham grãos, dar-lhes água ou fogo. Esse mesmo edicto estabelece que a água de que necessitem não a tomarão nem dos rios nem das fontes nem dos tanques, mas unicamente dos acessos aos charcos e dos buracos feitos pelas pisadas dos animais no chão. Do mesmo modo se lhes proíbe lavarem as suas roupas e lavarem-se a si mesmos, posto que a água que generosamente se lhes concede só é lícito utilizarem-na para aplacar a sede. Finalmente, proíbe-se às mulheres sudras assistirem no parto às mulheres chandalas, e ainda se proíbe a estas últimas assistirem-se mutuamente em tais circunstâncias... - O êxito de tal política sanitária não tardou a fazer-se sentir: epidemias mortíferas, doenças sexuais terríveis, e, em consequência disso, de novo, «a lei do cutelo», que prescreve a castração para os rapazinhos, a amputação dos lábios menores da vulva para as meninas. O próprio Manu disse: «os chandalas são fruto do adultério, incesto e crime (- esta é a consequência necessária do conceito de criação). Como vestidos terão só os trapos dos cadáveres, como vasilha, potes rachados, como adorno, ferro-velho, como culto, só os espíritos malignos; vaguearão sem descanso de terra em terra. É-lhes proibido escrever da esquerda para a direita e servir-se da mão direita para escrever: o emprego da mão direita e da escrita da esquerda para a direita está reservado aos virtuosos, às pessoas de raça».

A moral da criação e a moral da domesticação são completamente dignas uma da outra nos meios para se imporem: é-nos lícito assentar como tese suprema que, para fazer moral, é preciso ter a intenção firme do contrário. Este é o grande problema, o inquietante problema atrás do qual eu andei durante mais longo tempo: a psicologia dos melhoradores da humanidade. Um facto pequeno e, no fundo, modesto, o da chamada pia fraus proporcionou-me o primeiro acesso a este problema: a pia fraus, património de todos os filósofos a sacerdotes que «melhoraram» a humanidade. Nem Manu, nem Platão, nem Confúcio, nem os mestres judeus duvidaram jamais do seu direito à mentira. Não duvidaram dos seus direitos completamente diferentes… Expressando-o numa fórmula seria lícito dizer: todos os meios com que pretendeu até agora tornar moral a humanidade foram radicalmente imorais. "
 Nietzsche, in CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS

segunda-feira, 3 de março de 2014

Os Russos que amo e desprezo!

A luta pelo poder retratou a luta pela vida, sem qualquer critério ético ou moral, sem qualquer valor pela vida do outro. Mas entre os homens civilizados ela não tem mais lugar!... e será perseguida pela lei!! jamais a desumanidade para com o próximo ilibará líder politico algum dos seus crimes!...  Acreditemos em futuros julgamentos como os houve em Nuremberg... façamos por eles!!
A minha admiração pelos Russos começou com Gogol e Dostoievski, o meu desprezo com Estaline e todos os seus seguidores!!...
Quanto mais se avança no relógio da História maior deveria ser o avanço ético moral no que concerne à vida do outro, o bem supremo, o bem comum!, por isso mais custa perdoar os algozes de hoje que os do passado! - a Justiça tarda!!

domingo, 16 de fevereiro de 2014

...os dias felizes em Münster...

  num dia de Outubro, cedo, pouco depois do nascer do sol, caminhava pela Hammerstr quando fui surpreendido e alegrado por um esquilo que, ágil e apressado, descia pelo tronco de uma majestosa árvore; o fruto, havia antes caído e foi rápido em linha recta que ele a ele se dirigiu. Apanhou-o com as patinhas pequenitas, levou-o aos dentes, olhou em várias direcções, depois, acto contínuo, correu para o tronco de outra árvore e subiu-o veloz. Via-o sobre um ramo com o fruto na boca meio encoberto pela ramagem. Ficou ali como que se esperasse que lhe tirassem uma fotografia, depois rápido escondeu-se. Eu perscrutava-o entre aquele emaranhado de ramos e folhas, na esperança de vê-lo. Mas nada, nem sombra.
Sem esquilo, o desalento fez-me decidir a não ficar ali especado a olhar para um esquilo que não via; depois, pensei «se continuar o meu passeio haverei de observar outros noutras árvores»; de facto as árvores eram todas grandes o suficiente para albergar muitos esquilos iguais àquele que eu tanto desejara continuar a ver... Na verdade Münster estava ornamentada de coisas que continuar a vê-las não cansava - as árvores, as aves, os esquilos, as cores das ruas...

  Apresento-vos agora, Marckus Woestmann, o estudante de Filosofia de cabelo ruivo vermelho.
 Eu tocara à campainha do edifício residência de estudantes Universitários dos mais variados países; procurava portugueses. E enquanto esperava que me viessem abrir a porta esta abriu-se e Marckus apareceu. Reconheci de imediato nos traços da sua fisionomia o nobre carácter, a simpatia. Falávamos um com o outro pela primeira vez, mas o modo como falávamos traduzia uma amizade de anos. Alguém que nos visse pensaria: dois velhos amigos. Disse-lhe ser português e filho da mãe Literatura. A esta confissão mostrou-se muito surpreso; perguntou «Mas porque gostas de Literatura?» para melhor lhe responder reformulei a pergunta «O que há de interessante na Literatura digna do nosso tempo?» A resposta exigia que lhe lesse todos os livros que havia lido, ou que discorresse acerca do bem dessas variadas emoções que só a leitura me proporcionara.
 - A Literatura - disse-lhe - é rir, é chorar, é olhar as árvores, é descobrir, é...  - Inteligente como só os raros, influiu que ia dizer… é espírito.
 Perguntou-me se eu não queria dar um passeio com ele; aceitei. Fomos pelos caminhos castanhos que circundavam o lago. De vez em quando éramos ultrapassados por quem na altura concedia ao corpo o supremo bem que advém de correr.
- Correr é nobre, não achas? - perguntei.
- Sim, denota manifestamente uma preocupação com o corpo e com a mente. (...)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

a alteração de humor em consequência de uma rajada de vento

A palavra vento traz-me à memória a ultima noite de Verão do ano de 1998. Fazia uma passeata perto da Bahnhof de Münster, quando, surgindo do nada, vi um indivíduo muito mal trajado vir ao meu encontro. Nessa altura eu já havia perdido os complexos de falar com os vagabundos e as prostitutas; aos primeiros, caso me pedissem algo, oferecia-lhes um pão embrulhado em  palavras fraternas, às últimas falava-lhes sem vergonha alguma de ser visto na sua companhia; era ele um sem-abrigo que outrora viajara por toda a Europa. O que ele me pedira eu não tinha, mas o que eu pensava que não tinha para ele, tinha-o de facto, tempo, afecto até. Ouvia-o e falava-lhe, quando, bem perto, passou, por nós, um homem muito bem vestido - era um Sr. de negócios com a sua malinha na mão. Aproveitando a proximidade, ele pediu-lhe uma esmola, mas em em má hora o fez - O Sr. executivo nem sequer se dignou olhá-lo; foi horrível!
Apercebi-me depois, com o decorrer da conversa, o vagabundo ser pessoa sensível e inteligente; lembro-me vestiamos Tshirts de manga curta quando súbito soprou uma rajada de vento frio que me gelou os braços -  senti pela expressão do vagabundo uma alteração de humor no seu estado de espírito - ficou mais apreensivo! e apercebendo-se ele que eu notara tal, explicou-se:
Há anos atrás  - contou-me - num dia de Outubro, diante das águas calmas do lago senti uma rajada de vento destas levar-me a alma!...
ah pensei, «a rajada de vento frio anunciou-lhe o término definitivo do Verão.»
  (...)Senti fome e voltei a casa, entrei pelas traseiras. Na cave da casa de Frau Baak havia por cima das prateleiras de muitos armários, víveres, frascos de compotas, latas de conserva, muitas das quais com mais de 20 anos, cujos prazos de validade haviam há muito expirado. Sim, já me haviam dito que Frau Baak, a septuagenária, enchera a cave de víveres com medo da fome, mas ouvir tal não me causara grande impressão; foi preciso ver, tocar naqueles frascos frios cobertos de pó...

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

aos meus leitores da Califórnia a New Jersey sem esquecer nenhum

… no sonho de haver entre vós alguns mui ilustres seguidores de tudo o que já escrevi e possa vir a escrever escrevo-vos e escrever-vos-ei de novo. Que melhor sonho poderia acalentar? haver no mundo quem me preze pelas palavras? Sabei, se assim fordes, de meu verbo seguidores, um pouco também do meu ser sereis! Quantas vezes eu em idade jovem ao descobrir um autor que de sua obra gostasse me propus procurá-la a fim da lê-la completa?… foi assim com Dostoievsky com Nietzsche com Cervantes com Proust com Henry Ibsen …
    Soube hoje. Tenho leitores na Califórnia e muitos outros espalhados pelo globo,  - vieram dar-me essa noticia -  um dia sem que tu peças  serás traduzido - a arte das tuas palavras haverá de chegar a quem a aprecie - e melhor que isso, quiçá um dia algumas das tuas construções frásicas transponham a gravidade terrestre e façam luz a um novo homem, envolto pela escuridão do espaço interplanetário!
Já me alegraria ter a prova que as minhas palavras voam de avião… julgo isso possível!, imprimam na Califórnia em New Jersey em São Paulo e venham com elas para Lisboa caros estrangeiros caros conterrâneos.
Inevitável; escrevi estrangeiros e logo a lembrança viajou para "O Estrangeiro" de Albert Camus… Que lição ele nos dá logo no inicio do livro! Permita-me que possa partilhá-la convosco leitor, leitora, são só umas frases, poucas:
 “Hoje, a mãe morreu. (…) Pedi dois dias de folga ao meu patrão e, com uma razão destas, ele não mos podia recusar. Mas não estava com um ar lá muito satisfeito. Cheguei mesmo a dizer-lhe: «A culpa não é minha.»

Interessante! ocorreu-me agora ao pensamento por associação ao livro o Estrangeiro - esta memória - pelo passeio subia uma rua sempre a descer para quem comigo se cruzava, e súbito, uma montra cheia de livros -  e lembrei-me do demónio que segredou ao ouvido de Nietzsche para entrar!… então de tão cativado ser por livros transpus a porta ... lá dentro, em frente das estantes cheias de livros e livros, alguns de autores desconhecidos li na lombada O Estrangeiro e um outro O Assim Falou Zaratustra… capas grossas!... e imaginem a preços módicos… comprei-os, claro! Quando, já em casa os colocava ao lado dos meus outros, questionei-me  «Ficais agora comigo por quantos anos?, depois que morrer onde ireis parar? Irão os meus filhos vender a minha biblioteca, o meu maior património, ao desbarato?,e pior que isso, deitá-los ao lixo… oh deusa Minerva não permitíeis tal afronta!...

… ainda sobre livros, conversava com uma jovem, e sem assunto sobre do que falar, questionei-a se gostava de ler livros, ao que ela me respondeu, “ para você ser inteligente não precisa ter muitos livros!”… eu fiquei apreensivo – até que lhe respondi «para tê-los sim, não preciso ser inteligente, mas para lê-los preciso, preciso de sê-lo!
... Hoje, a minha colega Paula falava à Élia – ontem nem movias os olhos, vinhas cá com uma moca, que droga de comprimido tomaste?!!! Mas hoje estás melhor, vê-se!!
 Disse-lhes eu (para a Élia):
- Precisas de sair da tua esfera de pensamentos, precisas de conviver, de te distrair
- O que mais me distrai é o trabalho!
– Élia, uma vez, um médico prescreveu-me ir ao cinema!, e realmente o cinema fazia-me bem, aliás ainda faz!, sabes Élia a arte tem um efeito muito benéfico, terapêutico mesmo!, preenche-nos no vazio!
- mas eu não sou como tu, não gosto dessas poesias que tu lês - (nessa altura, eu não parava de recitar o verso “A minha cabeça estremece com o todo o esquecimento, procuro dizer como tudo é outra coisa!...”
– mas ó Élia, a arte não é só a poesia. A arte é a musica a dança o teatro a pintura o cinema. Diz-me já pensaste, porque é que os ricos se fizeram sempre rodear pela Arte? Queres saber? porque senti-la lhes fazia bem!... É do que precisas, e agora ainda mais, por que confessas estar desiludida com a vida! sabes, nunca como hoje a Arte esteve tão ao alcance do cidadão comum. Ainda ontem revi os soberbos filmes de Claude Berri: Jean de Florette e Manon des Sources… Falar-te deles Élia, revelá-los, revelar-tos, é dar-te um prémio, aceita-o!...

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Nietzsche e o amor!

"As paixões se tornam más e pérfidas quando são consideradas com maldade e perfídia. Foi assim que o cristianismo chegou a fazer de sublimes forças capazes de idealidade, de Eros e de Afrodite, génios infernais e espíritos enganadores, criando na consciência dos crentes, a cada excitação sexual, remorsos – que a alguns levaram até a loucura. Não é espantoso transformar sensações necessárias e normais em fonte de miséria interior; e assim, voluntariamente, tornar a miséria interior necessária e normal em todos os homens? Além disso, essa miséria permanece secreta, mas ela não tem senão raízes mais profundas: pois, nem todos têm, como Shakespeare em seus sonetos, a coragem de confessar a tristeza provocada pelo cristianismo nesse domínio.
(...)Tem-se o direito de chamar inimigo a Eros? As sensações sexuais, da mesma forma que as sensações de piedade e de adoração, têm de particular que o homem, ao experimentá-las, faz o bem a outro por seu prazer — não se encontra muitas vezes na natureza disposições tão benfazejas! E é justamente uma delas que é caluniada e que é corrompida pela má consciência! — Mas essa demonização de Eros acabou por ter um desfecho de comédia: o “diabo” Eros se tornou aos poucos mais interessante para os homens do que os anjos e os santos, graças aos boatos e as disposições misteriosas da Igreja em todas as questões eróticas: é graças a ela que as histórias de amor se tornaram o único interesse verdadeiramente comum a todos os meios — com um exagero que pareceria incompreensível à antiguidade — e que um dia não deixará de provocar a hilaridade. (Já provoca!) Todo o nosso pensamento, do mais elevado ao mais baixo, estão marcados e mais que marcados pela importância excessiva que se confere aos comportamentos relacionado com o amor, apresentado sempre como acontecimento principal. Talvez por causa desse juízo a posteridade haverá de encontrar em toda a herança da civilização cristã alguma coisa de mesquinho e de maníaco. “
Nietzsche, in Obras Completas de Nietzsche –
Texto revisto por Alexnietzsche, no intuito de melhorar um bocadinho o português das traduções, sem desvirtuar o original.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Capitan Phillips x Robert Kennedy


 Enoja! tresanda ao cheiro da violência a "Justiça" americana de tão severa - 33 anos de cadeia para o ingénuo líder dos piratas. E mais 3 homicídios!! 3!! - O poder da força das armas sobre a pobre mediocridade - Os ilustres profissionais americanos ohh tão inteligentes são!! na pressa de matar!!! - sem direito a julgamento!!! - que piedosos! que misericordiosos! - são ainda piores que o Javert dos Miseráveis! Não se entende mesmo qual é o propósito do filme - mostrar que os Americanos matam sem escrúpulos? Já o sabíamos! - será este o modelo de justiça que Robert Kennedy desejou  para a América??? - de onde retiraram este modelo? do Antigo Testamento? - ninguém salvaria este filme da critica nem o Tom Hanks!! se há histórias baseadas em factos verídicos imerecedoras de serem passadas para o cinema, está é uma delas! enfim, lamentamos, mais um filme para esquecer, de tantos lugares comuns e de tão nacionalista!!

que contraste com este excelente filme
http://www.dailymotion.com/video/xkzf6m_kennedy-is-shot_shortfilms

e este discurso http://www.youtube.com/watch?v=GoKzCff8Zbs

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Carta de amor - reeditada.

  passara o tempo em que subia às oliveiras....
 o nevoeiro húmido da noite em Vila Real lembrava a neblina densa nas manhãs de Inverno para a qual eu criança olhava vidrado...
   a neblina nocturna amarelada pela luz dos candeeiros diria que esperava...
  tudo esperava
  o menino, o avô ...
 as pessoas saudosas, os amigos...
... eu, a simpatia da bela jovem para quem olhara cativado... .
 já a olhava sem pestanejar, quando por mérito da proximidade, cumprimentá-mo-nos...
falávamos e depois de uma pequena pausa  a jovem mulher exclamou
- «Não me olhes assim! Não gosto que me olhes assim!»...
  pensei - «perturbou-a ver-me nos olhos o êxtase estético que ela própria provocava»
 ... mas esgotando-se as razões de permanecermos ali em companhia um do outro e ocultando eu a mais profunda - a fruição contemplativa da sua feminina figura - despedimo-nos.

 .... todavia fosse pelo tom de voz com que disse
- Não me olhes assim! Não gosto que me olhes assim! -  fosse porque eu não conseguia mesmo evitar escrever, na manhã do dia seguinte, em torno daquela frase e relembrando retalhos da minha infância, escrevi-lhe uma carta...

 ...depois de ouvirmos tocar a campainha, era com imenso prazer que eu e minha irmã rápidos descíamos os degraus três a três para ir beijar minha avó que chegava. Enquanto descia as escadas aos saltos, sempre com os olhos postos nos degraus, gritava para mim mesmo «É a avó! É a avó!» O último salto era para os braços da minha avó... Essa mesma avó que abria a porta da coelheira para eu ver os coelhinhos, que só apetecia agarrar, a quem eu logo dizia «Avó apanha-me um.» Não precisava de lhe pedir outra vez; ela, estendia os braços e os coelhinhos, todos muito juntinhos a olhar para nós, de repente saltavam em todas as direcções e uns por cima dos outros. Todo aquele movimento cessava quando minha avó apanhava um. Eu não reparava em mais nada, só no coelhinho; podiam as galinhas fazer muito barulho, os patos grasnar, o cão ladrar, nada fazia com que eu retirasse os olhos daquele coelhinho. Jamais um deles me disse:
- Não me olhes assim! Não gosto que me olhes assim!”.
 Eu não reparava em mais nada, mas minha avó reparava, reparava na aflição com que a mãe coelha olhava para nós. «Pronto, pronto! – dizia-lhe minha avó, libertando-o – aqui tens o teu pequenino! Nós não lhe fizemos mal.» E ficávamos todos a vê-lo voltar para ao pé dos seus, eu, a minha avó, a coelha cinzenta e os seus irmãos. Depois de olhá-los uma última vez minha avó fechava a porta e abria uma outra, contígua, mas de uma outra casinha, a do coelho da semente.
 -Avó este é muito grande. Ó vó tu não matas este?
- Este não filho, este é o coelho da semente.
  Eu percebia por coelho da semente aquele que minha avó nunca matava...
- eu nem sabia o porquê.. cheguei a cogitar que a minha avó gostasse mais dele que dos outros...
... porque os outros ela matava.
 Eu não gostava que se matasse os coelhos, mas via muitas vezes minha avó matá-los.
 Ela fazia assim: agarrava-os pelas patas traseiras com a mão esquerda, depois. levantava o braço direito e cerrando os dentes descia-o atestando com força uma, duas três ou quatro pancadas de mão fechada na nuca do coelho, atrás das orelhas, e só depois o punha no chão meio morto...
 Eu tinha pena deles e agachava-me para lhe fazer festinhas... Se minha avó me via a fazer-lhe festinhas repreendia-me logo.
- Deixa-o, ele assim nunca mais morre...
 Eu obedecia-lhe, levantava-me e ficava a olhar para o coelho.
- Coitadinho! Coitadinho!
Repreendia-me outra vez minha avó.
- Não lhe chames coitadinho! Ele assim demora mais tempo a morrer...
Não era mentira o que a minha avó dizia, bem sei hoje que não há nada com mais efeito positivo sobre os seres como o fazer-lhes festinhas ou falar-lhes com palavras meigas...

 ... e assinei a carta.

  mas hoje à distancia de mais uma década, relembrando aquela noite, vejo que no tempo em que por ali deambulava, à espera, eu procurava sobretudo, acima de todos os compromissos e deveres, marcar um encontro com um tempo em que escreveria as histórias de vida das pessoas, seus desejos e sonhos... 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

As últimas palavras sempre são do homem: Sim Senhora!


… a praça, um espaço largo com árvores e algumas mesas, com pessoas de pé assistindo 4 indivíduos a jogar Truco, foi abalada pela voz estridente da mulher:
- Eurico!!! Vem cá!!
- Já vou.
Mas Eurico continuava absorvido no jogo das cartas e deixava passar o tempo sem se levantar do banco de pedra…
- EURICO!!! VEM CÁÁAA!!!!
- JÁ VOU MULHER!!!! Que coisa!!!
- Vem cá ajudar a depenar o frango!!!
- Eurico vá, páre de gritar para a sua mulher!!
- URICO!!!!!!!
- Vou já, Bosta!! – resmungava Eurico!!
O certo é que Eurico adorava jogar Truco, muito mais que depenar frangos.
E a mulher de Eurico? Ela detestava odiava o jogo do Truco, mas acima de tudo ela abominava ainda mais uma coisa – esperar!!
- URICOOOO!!! Ou você vem ou vou eu ai!!
- Eurico vá homem vá depressa ou a sua mulher vem buscá-lo por uma orelha!! Ahahah
Eurico enfurecido levantou da cadeira com raiva, arremessou o baralho de cartas sobre o tampo da mesa, e ameaçou: ela vai apanhar ai ai vai,  se ouvirem barulho  e gritaria não acudam!  Mulher que abusa, merece é receber cabresto!!!
- Eurico vá lá homem, sua mulher está mandando!
- Vou ver o que ela quer!!! –disse ele afastando-se da praça…
- Sabiam que a mulher de Eurico quando quer comprar um electrodoméstico vende a bunda ao marido? E diz que mulher que dá de graça é besta!!  Ahahahahah
- É mesmo? Ahaha kkkk kkkkkk kkkkkk
E depois de alguns comentários e risadas em torno da pessoa de Eurico e da mulher, já ninguém lembraria deles não fosse vir do fundo da rua uma grande gritaria!, que foi aumentando a pontos de alarmar todo o mundo!!
Ouviam-se os cães de Eurico ladrar, sons de tachos de pratos de cozinha se quebrando, e frangos e galinhas que passeavam pela cozinha saiam agora apavorados pela janela largando as penas …
- O povo todo correu uns atrás dos outros e a praça ficou vazia…  estavam alarmados e receavam o pior… todos riam do Eurico e da mulher mas na verdade todos gostavam muito de Eurico, um daqueles homens raros de bondade… e claro ninguém queria ver o Eurico na cadeia…  
Aproximando-se todos da entrada da casa ouviram Eurico gritar EU TE MATO, a porta de entrada estava encostada e todos os que puderam entraram de rompante. Eurico estava no chão, a mulher tinha um joelho pressionando a garganta do homem, puxando-lhe os cabelos!
- olhem Eurico está apanhando da mulher!!! Ahahah kkkkkkkkk kkkk
e dois amigos de Eurico acudiram, arrancando-o dos braços da mulher, disseram-lhe, viu Eurico no que deu enfurecer sua mulher!!! – a expressão de Eurico dizia, errei!! não devia ter abandonado o jogo! 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

adivinhem qual é o meu penacho


 estava a andar e avistei um papagaio verde sobre um poleiro perto dum kioske – havia duas oliveiras e um palmeira ao redor e o papagaio pareceu-me atractivo – ainda dei dois passos na direcção que levava – os seguintes já foram na direcção do papagaio e estranho seria se assim não fosse - é que eu gosto de animais e tenho um fraquinho por aves! - já é de família!
Até nos pombos da cidade eu reparo!,
Surpreendeu-me esta semana ver três pombos agachados em três sítios inusitados, em locais diferentes contudo similares, refiro-me à altura. Um estava imóvel sobre a relva do Parque Eduardo VII, outro à sombra, atrás de um pilar dum prédio de habitação, e o terceiro igualmente agachado sobre o primeiro degrau no acesso à porta de uma casa na Av. Almirante Reis. Pensei «estes pombos pousados no chão ou estão a mudar de comportamentos ou estão doentes sem forças para voar para lugares mais altos, - são presas fáceis e estão vivos! é estranho não serem caçados pelos gatos vadios na cidade! ah não admira – os gatos castrados não se reproduzem!... »
 … mas chega, não quero falar-vos mais de pombos nem de gatos castrados – prefiro retomar ao episódio do papagaio, que foi o que me trouxe aqui!...
passos depois da minha mudança de direcção já eu tentava apresentar-me à ave de penas verdes!, não é tarefa fácil. Se tentarmos tocar-lhe corremos o risco de levar uma bicada… A plumagem, reparei, não a tinha muito cuidada, deveria ser um cinquentão! Mirava-me ora com um olho ora com o outro. A cabeça revirada para trás, alardeando alguns gritos assustadores. – Percebia-os – provinham do medo do meu tamanho e de lhe ser estranho! O instinto fizera-o gritar, e ele gritou durante um breve espaço de tempo. Depois deve ter pensado «não surte efeito, o homem não se afasta! está aqui mesmo ao lado!, devo estar-lhe a parecer um louco!» e calou-se. As penas no cimo da cabeça eriçadas baixaram e começou a olhar-me de outra maneira. Estava a estudar-me! Amigo ou inimigo? Quanto a isso eu não queria que ele tivesse dúvidas! Então peguei numa das sementes de girassol que estavam no chão do seu ninho metálico e tratei de lhe mostrar que lha queria dar no bico. O comportamento dele gerido por um instinto inteligente mudou de imediato, pensou «quer me dar comida boa, deve ser amigo!» todavia rejeitou a semente, nem tentou pegá-la com os dedos da pata! Já não era o mesmo papagaio de há pouco, baixou a guarda e depois a cabeça! Eu ainda receei que ao aproximar a mão me bicasse, mas incrível ele fechava os olhos inteiramente confiante…
mais importante, do que a comida que ele tinha como garantida, queria que eu lhe tocasse!, baixou a cabeça aproximando assim o pequeno penacho. Com a unha do dedo indicador como se fosse um bico dum seu semelhante fui tocando-lhe nas penas da cabeça…. pela imobilidade a expressão dos olhos semi-fechados – notei - estava deleitado… cheguei mesmo a tocar-lhe perto dos olhos e no bico… expondo o meu dedo ao golpe, qual domador a meter a cabeça dentro da boca do leão… a ponta do dedo ali ao perigo no meio do bico… que arrepios … nada fez… revirou um pouco a cabeça baixando-a mais… levei de novo o dedo ao cimo da sua cabeça e lento e suavemente massajei-lhe a pequena plumagem, começaram-se a passar minutos, e eu queria ir, ir à minha vida, mas o prazer do papagaio era tão visível tão palpável!!!
quem lhe faria festas? Só os estranhos!
por isso me demorei para ele e com ele, sim confesso, deu-me muito prazer dar-lhe festas! Entendi-o melhor que ninguém quando ele me disse: sinto inveja dos macacos no Zoo, são mais tocados e acarinhados que eu!
… os olhos dele estavam tão fechados e o corpo tão imóvel que até me pareceu que adormecera… estava ali somente ali… sem passado sem futuro…
… a dona do Kioske já olhava... eu não podia ficar ali o dia todo e interrompi o contacto,  o papagaio continuava com os olhos fechados sentindo o contacto prazeiroso. Olhei-o uma ultima vez, virei costas e fui-me embora…
… nem perguntei como ele se chamava… não foi preciso!

 pois amigos adoraria ficar aqui a falar-vos de macacos e papagaios e outros mais... mas tenho que ir, provir ao meu sustento… não me pagam para escrever… mas quem me lê, lê-me até ao fim…