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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

CARTA DE AMOR 2 sem Prólogo

  por estares longe de quem desejas, a imagem da tua expressão facial na foto, é o vazio!Mas, olha o céu! Olha! e vê! ... pois, sei...
-dirás: Vazio e só vazio!!! a qualquer hora do dia!... espera, reparei agora, ali sim vejo! umas nuvens e daquele outro lado outras mais distantes estendidas...

- Sim são visíveis ali,... mas diz-me o que há para lá das nuvens?...

- exclamarás: Sei lá o que há para lá das nuvens!
- Eu digo que é o vazio!... 
- dirás: E dai!! Que retiro de saber, de ser o vazio? isso ainda mais deprime!
- Deprime nada! Olha o céu à noite!, verás o brilho pontilhado de biliões de estrelas cintilantes, mas porventura te sentirás próxima de alguma?, perto? - não! - e elas de ti que sensação terão da tua proximidade? - nenhuma decerto! - e a que se deve isso?: Ao vazio!, e o que é o vazio senão todo o espaço entre os corpos celestes!, espaço por percorrer! o que será o vazio que os separa senão um caminho - concluirás depois: o vazio é o caminho!... e o caminho é que une! Se vazio não houvesse não haveria caminho! não havia distância, não poderia haver dois corpos, e por isso não poderia haver união!, seria tudo um só ser! uma só coisa! uma singularidade!... um absoluto nada de tão coeso!... por isso houve o Big Bang e expansão!... para que houvesse vazio, espaço, caminho, distancia a percorrer, viagem e união!...
Sabes, de todas as viagens do homem a de amor é a maior!

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

é imperativo ler Thomas Paine!

"Nunca existiu, nunca existirá e nunca poderá existir um Parlamento, ou uma classe ou geração de homens, em qualquer país, com a posse do direito ou o poder de obrigar e controlar a posteridade até ‘o fim dos tempos’ ou de impor para sempre como o mundo será governado, ou quem o governará... A vaidade e a presunção de governar além sepultura é a mais ridícula e insolente de todas as tiranias. O homem não tem nenhuma propriedade sobre o homem... Estou lutando pelo direito dos vivos e contra o fato de serem alienados, controlados e constrangidos pela pretensa autoridade dos mortos que ficou escrita. (...) embora leis feitas numa geração muitas vezes continuem em vigor nas gerações seguintes, elas continuam a tirar sua força do consentimento dos vivos. Uma lei não revogada continua em vigor não porque ela não possa ser revogada, mas porque ela não foi revogada; e a não revogação passa pelo consentimento... Como o governo é para os vivos, e não para os mortos, apenas os vivos têm algum direito sobre ele. O que pode ser pensado certo e achado conveniente numa época poder ser pensado errado e achado inconveniente em outra. Em tais casos, quem decide: os vivos ou os mortos?"
Thomas Paine


"(...)Ninguém foi mais longe do que Paine, na defesa e no direito dos vivos romperem com o dos mortos, consagrando, pois, o direito à revolução (permanente). Da lógica das ideias e da argumentação de Paine, decorre, portanto, que todo sistema, ou regime, político-social é legítimo, desde que desejado pela maioria, e transitório ou reversível, desde que essa mesma ou uma nova maioria dele se queira desfazer. 
Assim, hoje - com o abismo crescente entre ricos e pobres (intra e entre países, e o aumento cada vez maior dos últimos), e com o colapso do socialismo real e com a crise do Estado de Bem-Estar (e da social-democracia, atacados pelo neoliberalismo) -, parece não haver proposta tão revolucionária e, portanto, tão atual, quanto à de Paine. Em outras palavras, com os projetos socialistas bloqueados, que outro projeto, dentro da ordem capitalista, é mais revolucionário do que o de Paine? Pois,  Paine, foi simultaneamente um social-democrata e um neoliberal avant la lettre. Como o  nosso tempo, ele queria simultaneamente mais democracia (isto é, mais igualdade, mais  social-democracia) e mais liberalismo - isto é, mais autonomia, e portanto, e paradoxalmente, menos Estado. 
Mas, sobretudo, reler Paine, ajuda-nos a manter a indignação e o espírito de luta para não aceitar, como natural, o mar de miséria que nos cerca de todos os lados. Hoje, certamente, se Paine ressuscitasse, ele que era revolucionário e democrata por instinto, mudaria sua divisa para “onde há miséria, aí está o meu país”. (...)"
Prof. Dr. Modesto Florenzano

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

da razão principal de lermos pouco e não lermos mais

 ....sobre a razão de não lermos mais recuso acreditar nas mais ordinárias respostas: pela escassez do tempo, por não gostarmos de ler! por conhecermos poucos livros - recuso-me!
... sem desprezar essas respostas ordinárias desejarei falar-vos doutra e da qual todas as outras descendem.
Se vos dessem para ler uma frase, um parágrafo em língua estrangeira desconhecida, será que face à dificuldade, à impossibilidade, para fingirdes saber, me direis não teres tempo, não gostares de ler?? Se o dissésseis todos notariam a mentira, e vos diriam, ah não é por isso! é por não saberem ler essa língua!. escusais de fingir saber! Desconhecer uma língua estrangeira não é vergonha!
- mas se o parágrafo, o texto, o livro, for na língua materna? Preferireis  dizer, para justificar a resistência, não gostardes de ler, pois confessardes a verdade em relação ao desconhecimento da vossa própria língua é embaraçador, quase vergonhoso....

 E quanto a leitura de palavras difíceis?, uma palavra nova sobre a qual desconheciam tudo, não desejasteis saber o seu significado para continuares a seguir o entendimento? Aquando sozinhos a ler, sem ninguém por perto a quem perguntar, consigais lembrar-vos de quantas foram as vezes que consultasteis o dicionário?
A leitura gosta de silêncio e paz; em virtude de assim ser,  foi sozinho, com o dicionário, o meu começo no universo dos livros. Felizmente, nasci com uma singular predisposição inata para o dicionário; inclusive valorizava a sua proximidade - mas há quem com essa predisposição não nasça e por isso desista da leitura face à estranheza das palavras desconhecidas... A um texto pequeno com 5 palavras desconhecidas segue-se um outro com 50 e assim depressa o eventual gozo da leitura se torna um desprazer desencorajador... deste desprazer não entender descende o não ler, a desculpa da falta de tempo, o desconhecimento do conteúdo dos livros...
Assim, se na verdade desejais que o povo leia mais, urge ensinar-lhe vocabulário!, ensinai-lhe o largo significado das palavras!, desde a idade infantil e durante semanas, meses, anos e décadas...As aulas do ensino da filologia deveriam começar em idade juvenil...
 em resumo, quem pode gostar de ler/entender palavras "sem significado", por ensinar?... Ninguém pode! E não por gostar ou não gostar; ninguém pode principalmente pela impossibilidade!
Houvesse mais quem ensinasse palavras e a humanidade só ganharia!, quantos desentendimentos ,quantos mal-entendidos não se evitariam!!

 outra razão de lermos pouco é a de preferirmos estar acompanhados que sozinhos.
Se as pessoas tivessem hábitos de se juntarem para ler e ouvir ler decerto os livros haveriam de nos dar muito mais...

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

a palavra portuguesa oriunda da China...

    Se ouvirem a palavra chinesa para chá ouvirão algo assim tchá, uma sonoridade quase similar – poderia isto ser prova da grande viajem de ida e volta realizada pelos portugueses à China? – decerto! Aqui mesmo ao lado no país fronteiriço, a mesma palavra “chá” em nada se assemelha à nossa. Em França igual, em Inglaterra igual; o local de origem da palavra destes países para chá não foi certamente a China… 
     Mas foi na China que um conhecido meu sentindo-se doente, me contou, ter recorrido a um médico, o qual na primeira consulta, sem qualquer troca de palavras, lhe tomou o pulso, a pulsação, e de seguida lhe perguntou: Você não tem costume de beber chá quente, pois não? Contava-me isto animado, atribuindo a este episódio uma grande significação que era, a da medicina tradicional chinesa ser conhecedora dos efeitos benéficos do chá!
…  foi também por essa altura, de regresso a casa, de noite, sentindo-me em estado pré-febril, sobre o qual em criança o meu pai dizia quando notava a minha anormal quietude, “está a chocá-la!”, que recordei o episódio do médico chinês a tomar o pulso ao meu novo amigo; sem fé alguma, achei por bem fazer uma chávena de chá – abri o armário e retirei da caixa uma saqueta de chá preto de Ceylan;  depois, com água da chuva, chovida há 500 anos, por haver ficado retida em lençóis freáticos, fervida, adocei-o com mel de abelha, -  desculpem-me a redundância –  é necessária para evitar, num eventual futuro, ser confundido pelas novas gerações com outro qualquer mel que se possa fazer e inventar, diferente do feito pelas abelhas; deitei-me pouco depois sentindo a má-disposição aumentar pelo efeito da febre…
… na manhã do outro dia levantei-me e fiz o que ordinariamente fazia sem qualquer dificuldade, julgo que só à tarde, depois do almoço me recordei que me havia deitado febril… conclui em segundos: o efeito do dito chá havia sido milagroso!...

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Marcel Proust - Saint-Loup um leitor de Nietzsche

"Quando a Sra. de Villeparisis, sem dúvida para ver se apagava a má impressão que nos causara a aparência do sobrinho, e que revelava um temperamento orgulhoso e mau, voltou a falar-nos da inesgotável bondade de seu sobrinho-neto (...), admirei-me da facilidade com que se atribuem neste mundo condições de bom coração aos que mais seco o possuem, por mais que em outras ocasiões sejam amáveis com as pessoas brilhantes que fazem parte do seu ambiente social. E a própria Sra. de Villeparisis acrescentou, embora indiretamente, uma confirmação a esses traços essenciais do caráter do sobrinho, que a mim já não despertava dúvidas, quando encontrei a ambos num caminho muito estreito e a marquesa não teve outro remédio senão apresentar-me a ele. Foi como se não ouvisse que lhe diziam o nome de alguém, pois não se lhe moveu nenhum músculo do rosto, nem o mais leve fulgor de simpatia humana lhe cruzou pelo olhar; só mostraram seus olhos um exagero na insensibilidade e inanidade do olhar, sem o que em nada se teriam diferençado dos espelhos sem vida. Depois, olhando-me fixamente e com dureza, como se quisesse certificar-se bem de quem era eu antes de devolver-me o meu cumprimento, com um movimento brusco, que mais parecia efeito de um reflexo muscular que ato de vontade, alongou o braço em toda a sua longitude e estendeu-me a mão a distância, criando entre a sua e a minha pessoa o maior intervalo possível. Quando no dia seguinte me entregaram o seu cartão, supus que fosse para um duelo. Mas não me falou senão de literatura e, depois de longo tempo de palestra, declarou que tinha muita vontade de que todos os dias passássemos juntos algumas horas. Naquela visita, não só deu provas de uma afeição veemente às coisas da inteligência, mas tornou-me patente uma simpatia que concordava muito mal com a sua saudação do dia anterior. Depois, quando vi que saudava dessa maneira sempre que o apresentavam a alguém, compreendi que era um simples costume da sociedade, próprio de um setor da sua família e a cuja mecânica corporal o havia habituado a sua mãe, que tinha interesse em que fosse admiravelmente educado; fazia aquelas saudações sem reparar que as fazia, como não reparava em seus belos trajes e em seus belos cabelos; era uma coisa isenta do significado moral que a princípio lhe atribuí e tão puramente artificial como outro costume que tinha: o de pedir que o apresentassem imediatamente aos pais de qualquer pessoa com quem travara conhecimento, e já tão instintivo nele que, no dia seguinte ao da nossa conversação, ao ver-me, lançou-se a mim e, sem ao menos dizer-me bom-dia, pediu-me que o apresentasse a minha avó, que estava a meu lado, com a mesma rapidez febril que teria se tal pedido obedecesse a algum instinto defensivo, como esse gesto inconsciente de aparar um golpe ou de fechar os olhos diante de um jorro de água fervendo, rapidez que nos preserva de um perigo que nos teria alcançado um segundo depois. E passados que foram os primeiros ritos de exorcismo, da mesma forma que uma fada esquiva despe a sua primeira aparência e se apresenta revestida de encantadoras graças, vi como se convertia aquele ente desdenhoso no mais amável e atento rapaz que conhecera. “Bem”, disse eu comigo, “já me enganei uma vez com ele, fui vítima de pura miragem, e só triunfei da primeira para cair em outra, porque este é certamente um grão-senhor enamorado da sua nobreza e que quer dissimulá-la”. E com efeito, ao fim de pouco tempo, por detrás da encantadora educação de Saint-Loup e de toda a sua amabilidade, havia de transparecer para mim outra criatura, inteiramente diversa da que eu suspeitava. Aquele jovem, com o seu aspecto de aristocrata e desportista desdenhoso, não sentia curiosidade nem estima senão pelas coisas da inteligência, especialmente por essas manifestações modernistas da literatura e da arte, que tão ridículas pareciam à sua tia; de resto, estava imbuído do que ela chamava as declamações socialistas, possuído de um grande desprezo pela sua casta, e passava horas inteiras estudando Nietzsche e Proudhon. Era um desses “intelectuais” de admiração fácil, que se encerram num livro e não se preocupam senão em pensar elevadamente. Tanto assim que a expressão, no jovem Saint-Loup, dessa tendência muito abstrata e que o afastava tanto de minhas preocupações habituais, embora me parecesse comovente, cansava-me um pouco. E confesso que quando me certifiquei bem de quem tinha sido o seu pai, nos dias seguintes à minha leitura de umas memórias cheias de acontecimentos relativos a esse famoso conde de Marsantes, resumo da elegância tão peculiar de uma época já passada, e me senti com o espírito cheio de sonhos e desejoso de saber pormenores da vida que levara o sr. de Marsantes, deu-me raiva que Robert de Saint-Loup, em vez de limitar-se a ser o filho de seu pai, em vez de guiar-me pelas páginas daquela novela antiquada que fora a sua vida, se houvesse elevado até a admiração de Nietzsche e Proudhon." Marcel Proust

domingo, 12 de outubro de 2014

Histórias de Abril, made in Salazar

- permite... ?
- sim claro - assentiu o velhote nonagenário sentado no banco do jardim.

  sentado no banco de jardim eu já não via oliveiras às dezenas, nem uma para lembrança; absolutamente todas sem excepção haviam sido arrancadas à terra por ordem de um plano superior de Urbanização; o terreno dador de negras e reluzentes azeitonas, dá agora relva, flores e árvores altas com os troncos inclinados pelo vento, tudo isso e mais, para todos verem, além claro de bancos de jardim.
Sentei-me num, ao lado desse respeitável Sr.  
...então o que aconteceu e nunca houvera acontecido, foi uma conversa na qual acabei colhendo matéria/substância de aproveitar para escrever o que ainda nunca houvera escrito...
 Mas antes de lembrar o que ele contou, quero falar-vos dum erro ortográfico...
 ouvia-se dizer... que no dia da inauguração do Jardim houve um momento caricato que envergonhou os representantes da câmara Municipal por a placa inaugurativa, de mármore branco, ter sido gravada com um erro ortográfico subtil. Tão subtil que passou por todas as leituras, imagine-se, durante meses, até ao festivo dia, sem ser revelado, nem pelo jardineiro, nem pelo filho, também jardineiro; cujos os olhos bem próximos da placa chegaram, quando lhe tomaram o peso e a fizeram descer da carrinha da Câmara, e depois mais próximos ainda ao aparafusarem-na ao suporte; o erro ortográfico, só foi apanhado/descoberto pelo olhar atento, mas míope, dum puto do 1º Ciclo, a avaliar pelas lentes dos seus óculos muito graduadas, de fundo de garrafa... 
depois de descoberto o erro, ou melhor a correcção do erro, obrigou a mandar gravar-se uma nova placa de mármore, mas, diga-se, em má hora, pois presentemente com o novo acordo ortográfico a palavra estaria bem escrita... 

 voltando ao banco de jardim...
 era o dia do 25 de Abril de há poucos anos atrás e em vez de ter apanhado o comboio até Lisboa para ir aturar a rabugice dos colegas, sentei-me ao lado do velhote a desfrutar a tarde soalheira do feriado. Conhecia-o ainda ele era de espinha dorsal e esqueleto direito, de dizer bom dia e boa tarde, e agora via-o de costas e pernas muito arqueadas... Iniciamos a conversa falando do Rui, o neto; um rapaz da minha idade, com quem sempre o via e agora raramente... explicou-me que ele tinha ido viver para Coimbra.
- falava com clareza, com boa dicção e ouvia igualmente bem, a pele com algumas rugas não denunciavam a avançada idade... por simpatia disse-lho
- Sabe está muito bem conservado, ninguém lhe dá os anos que tem.
- Sim, sim, ninguém me dá mas também ninguém me-os tira.

Depois voltamos ao assunto do dia que era o antes e o depois do 25 de Abril...
  Sobre o depois do 25 de Abril pouco disse... mas sobre o antes falou assim:


- «nesses anos de ditadura, já nem me lembro se trabalhava como motorista ou nos Caminhos de Ferro, já tenho 90 anos, está a ver?! a memória já me falha - mas lembro-me bem - quer como motorista quer como operário da C.P., ambos os meus chefes pertenciam à P.I.D.E. ou melhor colaboravam com ela, que é a mesma coisa, não acha? Um deles, julgo que o da C.P. uma vez convidou-me a ir a Lisboa com ele para fazermos um trabalho, dizia que eu era de confiança, vamos e voltamos no mesmo dia - é só um biscate, um extra, para ganharmos uns cobres - olhe amigo não era servirmos como testemunha acusatória para denunciarmos alguém - havia grupos de informadores para isso - era muito pior - quer saber qual era o trabalho? - ir à torturas para realizá-las - cheguei a ver fotos deles a retirarem informações pela dor infligida aos presos políticos - não aceitei o convite -também não aceitei o convite para ser motorista de um dos chefes da P.I.D.E. - fiquei logo marcado - na lista negra - por essa razão reformei-me mais cedo - vi-os a destruírem muitas famílias - dizia para os meus botões - um dia serão castigados - pelo mal que fizeram...»

... depois falamos mais um pouco e acabei dizendo-lhe que infelizmente depois do 25 de Abril bem poucos foram os que deveriam ter sido castigados... por ter-me lembrado dum artigo entrevista que lera no Expresso ao António José Saraiva...

http://www.odifamadordacopula.blogspot.pt/2014/09/blog-post.html

terça-feira, 30 de setembro de 2014

a beleza avistada por um observador em movimento e o humor de Marcel Proust, por Alexnietzsche

"O carro da Sra. de Villeparisis ia depressa. Mal me dava tempo para ver a menina que vinha em nossa direcção; e, contudo, como a beleza das criaturas humanas não é igual à das coisas, e sentimos muito bem que pertence a uma criatura única, consciente e de livre vontade, enquanto a sua individualidade, alma vaga, vontade desconhecida, se pintava em imagem prodigiosamente reduzida, mas completa, no fundo de seu distraído olhar, imediatamente (...) sentia em mim o embrião vago, minúsculo também, do desejo de não deixar passar aquela menina sem que seu pensamento tivesse consciência da minha pessoa, sem impedir que seus desejos se dirigissem a outro homem, sem que eu entrasse nessas ilusões e me assenhoreasse de seu coração. Enquanto isso, o carro afastava-se, a rapariga ficava para trás, e como carecia a meu respeito de quaisquer das noções que constituem uma pessoa, os seus olhos, que mal me tinham visto, já me haviam esquecido. Parecera-me acaso tão linda por tê-la visto assim tão fugazmente? Em primeiro lugar, a impossibilidade de nos determos junto de uma mulher, o risco que corremos de nunca mais tornar a encontrála, dão-lhe repentinamente o mesmo encanto que a determinado país a doença ou falta de recursos que nos impede visitá-lo,(...) os atractivos de uma mulher que vemos passar costumam estar em relação directa com a rapidez da sua passagem. (...)
Se eu pudesse descer do carro e falar com a moça que passava, talvez me houvesse desiludido qualquer imperfeição de sua pele, que não se poderia ver do carro. (...) Talvez uma só palavra sua, um sorriso, me tivessem dado uma chave ou código inesperado para compreender a expressão de seu rosto ou de seu porte, que imediatamente já me pareceriam banais. É muito possível, porque nunca na minha vida encontrei moças tão deliciosas como naqueles dias em que estava com uma pessoa muito grave, de quem não podia separar-me apesar dos mil pretextos que inventava; em Paris, alguns anos depois da minha primeira viagem a Balbec, ia eu de carro com um amigo de meu pai quando vi uma mulher andando muito depressa na escuridão da noite; ocorreu-me que seria tolice perder por uma questão de cortesia a minha parte de felicidade na única vida que sem dúvida existe; desci sem desculpa alguma e lancei-me em busca da desconhecida; perdi-a num cruzamento de ruas, dei com ela no seguinte, e afinal, sem fôlego, me vi cara a cara com a velha sra. Verdurin, da qual eu sempre fugia, e que me disse, muito contente e admirada:
 - Que amabilidade a sua, correr para vir cumprimentar-me!"
Proust, in Tomo II, EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

JUDEUS o povo perseguido

Com ou sem grandes conhecimentos Históricos dá para concluir que o povo judeu tem sido ao longo da sua História culpabilizado, escorraçado, perseguido, aprisionado e mais macabro ainda, executado; há poucos séculos atrás os Tribunais do Santo Ofício da Inquisição não brincavam em serviço, torturavam-os nos interrogatórios, acusavam-os de judaizarem (de praticarem em segredo a religião dos seus antepassados) e servindo-se das alianças com os Reis Católicos puniam com requintes de malvadez os judeus com a pena de morte... imagine os carrascos a garrotarem o seu pescoço apertando um pouquinho mais a cada meia volta... ou então imagine-se acobardado a assistir a tudo conjuntamente no meio do povo, sentindo asco de si mesmo e da multidão cúmplice... Mas para quê ir tão atrás no tempo, ainda bem mais recente houve o horror indescritível documentado e fotografado do Holocausto... Como conseguiram fazer isto ao Povo judeu? eu respondo-vos - por ser fácil - já não seria fácil se o povo judeu se valesse do direito de entrar em guerra! Ora nem se podiam valer, precisariam, para isso, de um exército! acontece que agora presentemente o povo judeu já o tem!!!, e ainda bem! Tardava!! já não era sem tempo! Vã glória terem precisado da ajuda de quem lhe fez um caminho por entre as águas salgadas.. eram mesmo uns sonsos, uns sem sal... ahahha hoje canta outro galo!! hoje eles devolvem cada pedrada... e quem nao gosta que não lhes atire pedras!! Muito bonzinhos são os israelitas, porque se fosse o nosso 1º rei Dom Afonso Henriques e em vez de espadas e mocas tivesse os recursos bélicos dos Israelitas,...

leio e releio António José Saraiva, INQUISIÇÃO e CRISTÃOS NOVOS

"(...)Em 1979, António José Saraiva rompeu com o regime saído do 25 de Abril. Defendia que como não se fizera a liquidação do anterior regime e o apuramento de responsabilidades, nos crimes da PIDE, nos crimes da guerra colonial, nas suspeitas de corrupção, que o regime do 25 de Abril era uma continuação, sob outras vestes, do salazarismo e marcelismo.      
Escreveu num artigo demolidor, intitulado O 25 de Abril e a História: "Em resumo, não se fez a liquidação do antigo regímen, como não se fez a descolonização. Uns homens substituíram outros, quando os homens não substituíram os mesmos; a um regímen monopartidário substituiu-se um regímen pluripartidário. Mas não se estabeleceu uma fronteira entre o passado e o presente.
Os nossos homens públicos contentaram-se com uma figura de retórica: "a longa noite fascista". Com estes começos e fundamentos, falta ao regime que nasceu do 25 de Abril um mínimo de credibilidade moral. A cobardia, a traição, a irresponsabilidade, a confusão, foram as taras que presidiram ao seu parto e, com esses fundamentos, nada é possível edificar.
O actual estado de coisas, em Portugal, nasceu podre nas suas raízes. Herdou todos os podres da anterior; mais a vergonha da deserção. E com este começo tudo foi possível depois, como num exército em debandada: vieram as passagens administrativas, sob capa de democratização do ensino; vieram "saneamentos" oportunistas e iníquos, a substituir o julgamento das responsabilidades; vieram os bandos militares, resultado da traição do comando, no campo das operações; vieram os contrabandistas e os falsificadores de moeda em lugares de confiança política ou administrativa; veio o compadrio quase declarado, nos partidos e no Governo; veio o controlo da Imprensa e da Radiotelevisão, pelo Governo e pêlos partidos, depois de se ter declarado a abolição da censura; veio a impossibilidade de se distinguir o interesse geral dos interesses dos grupos de pressão, chamados partidos, a impossibilidade de esclarecer um critério que joeirasse os patriotas e os oportunistas, a verdade e a mentira; veio o considerar-se o endividamento como um meio honesto de viver. Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma Primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco." Um texto actualíssimo, como se vê.(...)"
by Paulo Gaião, In Expresso, 27 de Julho de 2012

sábado, 27 de setembro de 2014

CARTA DE AMOR 1 com Prólogo

 Introdução - explicação ao leitor.

... só aqui estou eu, sentado, a escrever, para si...
... o que me trouxe foram as cartas de amor; senti, ao lê-las, não ter nunca lido nenhumas mais inspiradas... as minhas ouso dizer são as mais belas cartas de amor da língua portuguesa... quem não acredite que mo prove... semanalmente comprometo-me a editar um ou duas... tenho a certeza que nunca haveis lido cartas de amor mais belas ... publicarei aqui as ditas sem qualquer ordem cronológica... faço-o por considerá-las dignas de vós... apreciadores de arte!

"Ler pode tornar o Homem perigosamente humano."
Guiomar de Grammon


... é bem diferente ler o que eu escrevi para o mundo e ler o que eu escrevo para si - o que é para o mundo é para todos, o que é para si é para ser seu !, porque as palavras devem voltar ao ser de onde partiram!
A S., sem querer, fê-las nascer pelo gesto simples de me olhar e cumprimentar!... então de imediato tudo o que foi emoção - os seus olhos a olhar nos meus - num vislumbre lento - a sua expressão cândida e alegre - contrastante  com a sua fisionomia de normal mais séria - tudo, toda a emoção - tudo!, se quis em palavras!, eu dizia depois de nos vermos «vou escrever-lhe!»... 
Sem dúvida estas palavras vieram-me inspiradas de si!, é normal então voltarem para si!... 
 minutos depois passava segunda vez pela mesma entrada do edifício onde nos cruzamos- como o carteiro que toca sempre duas vezes - mas já lá não estavas!, foi bom na mesma, porque passei pelo mesmo sitio onde a vira!... depois em silêncio revivi a imagem que retive de si quando nos olhámos! mais que as suas roupas de cor preta, os seus sapatos pretos e a sua mala preta, eu vi os seus olhos! Se eu fosse pintor ou mesmo não fosse, mas soubesse pintar, eu poderia pintá-los para poder voltar a vê-los - numa tela!, mas como não sou nem sei quando, ou mesmo se, voltarei a vê-los, recorro-me do fraco talento para a escrita, de modo a que estas palavras sempre mos possam lembrar...