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sábado, 9 de janeiro de 2010

Humor infantil

O Andrew é um menino de 4 anos felicíssimo quando, ao fim da tarde, dá um passeio a pé ou de bicicleta com o avô; no trajecto pede-lhe para irem ver a Estação dos comboios que se situa, por detrás de uma fileira de casas; durante a passeata aproveita para confraternizar com os estranhos com quem se cruza; se vai a pedalar trava, pára a bicicleta, desce sem pressa dela, dá uns passos, olha para cima para os senhores e dá-lhes um olá sorridente; As pessoas, surpresas, por alguém tão pequenino lhes prestar tanta atenção não resistem a falar-lhe e é assim que ele em poucos dias tem conquistado verdadeiras amizades; a do Sr. Bento o comerciante da drogaria da esquina, septuagenário, e a do Sr. que costuma estar no passeio da rua, sentado na cadeira de rodas, por em consequência de um grave acidente na linha férrea, em vez de pernas ter somente dois cotos...
O avô em casa conta animado a quem o ouve, e a mulher escuta-o enquanto descasca umas batatas:
- Sabem, o Sr. Bento, o dona da drogaria da esquina, gostou tanto do Andrew que até lhe ofereceu um Shampoo para crianças, dos que não arde nos olhos... Nem acreditei, logo o Sr. Bento que não perdoa a ninguém um cêntimo....

 O Andrew adora ver os comboios...
 e o avô fala-lhe como se ele já entendesse tudo:
-   As carruagens com tons de verdes, ou em tons de azul, são os Intercidades, comboios que param apenas nas estações das principais cidades de Portugal; Os brancos e vermelhos são os Alfas, comboios muito rápidos que fazem o trajecto de Lisboa ao Porto em poucas horas, os outros são os "novos" comboios Regionais,  alcunhadas hoje de Lili-Caneças(1) e que são na verdade as antigas triplas, carruagens auto-motoras eléctricas reconstruidas....

O Andrew sabe-lhe os nomes de cor, e assim que avista um a passar na linha férrea aponta para o comboio e diz para quem estiver ao lado...
– Olha o comboio verde, é o Intercidades!
As pessoas acham-lhe graça por ele ser tão pequeno e conhecer tão bem os comboios...
- Avô olha o comboio!, é o Alfaaaaa... olha... olha...
Em casa se ouve algum comboio a passar corre para a janela e grita:
- Avó é o Intercidades! vai para o Porto!
E depois corre para sala para continuar a brincar com os carrinhos... Olha para televisão e grita..
- Não quero ai! Quero o PANDA...
- Não Andrew, o avô quer ver o telejornal! Estavas a brincar com os carrinhos, já não estavas a ver os desenhos animados... –
- Não gosto de ti... Não gosto de ti!... Não venho mais para esta casa... Vou-me embora... - E depois de abrir a porta, sai do apartamento e sobe pelas as escadas do prédio acima a repetir zangado a mesma ladainha: «Não gosto de ti! Não gosto de ti!» - Cruza-se com a vizinha Dona Florinda que vinha a descer e esta pergunta-lhe:
- Não gostas de mim Andrew?
- Nãoooo! De ti gosto, não gosto é do meu avô e da minha avó!
- Estás é com o soninho!
- Não estou nada!!...
Mas a melhor peripécia dele contou–me o avô.
 -Aconteceu ontem. Tínhamos saído de casa, e a poucos metros da porta do edifício, cruzamos com o homem sentado na cadeira de rodas, - sabemos a história - foi vítima de um acidente muito grave na linha férrea; com a pressa caiu para debaixo de um comboio; sobreviveu mas os médicos amputaram-lhe as pernas. Cruzamos com esse Sr, que assim que viu o Andrew, chamou-o «Andrew vem cá!» - O Andrew aproximou-se. A certa altura o Andrew começou apontar com o dedito indicador para as pernas cortadas acima do joelho do Sr. e a perguntar-lhe o porquê daquilo ....
- Andrew!!- gritei-lhe! - «Deixe, deixe é uma criança... Olha Andrew eu explico-te, foi o comboio, cai para debaixo dele e cortou-me as pernas...
- Foi o comboiiiiiii?!
- Foi!
- Foi o Alfa ou foiii o Regional???


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(1) alcunha dada a uma Srª do Jet-Set, muito amiga de fazer plásticas

2 comentários:

  1. Sincera inocência...
    inocente sinceridade...

    Tão bom saber que há "Andrews" por aí!!! Uma sementinha do bem a cativar as pessoas por onde vá... em sua sincera inocência há toda a beleza necessária para bem viver. Ele não saberia ser de outra forma, por isso, é sincero, real na sua sinceridade natural(nada faz com o intuito de apenas agradar)... fico pensando quando será o momento em que essa "sincera inocência" será maculada e quem sabe transformada em dissimulação, por exemplo. Algumas crianças são tão graciosas, puras, mas em algum "atalho" pelo caminho acabam deixando isso escapar... como se para aliviar o peso da bagagem fosse preciso abrir mão de algum pertence e infelizmente os mais preciosos são, às vezes, os sacrificados. Peço a Deus que os "Andrews" mantenham-se estóicos, realmente indiferentes às maldades do mundo para que o essencial não fique para trás. Talvez seja em vão, mas ainda assim eu peço... se eu desistir de fazê-lo estarei decepcionando Andrew... e a mim...
    Sendo otimista, sabendo que as mudanças são permanentes e, apenas elas são, que a sua "sincera inocência" se converta numa "inocente sinceridade"...que ele seja sim mais consciente do mundo onde vive, das pessoas que possam lhe influenciar, sabendo que isso pode ser bom ou não. Eis o sutil limite decisório, pessoal e intransferível, fronteira invisível onde os "Andrews" optam entre viver a verdade ou a mentira... e há quem diga que exista verdade em viver uma mentira...

    A cativante inocência, nata das crianças vai partir, mas que o seu lugar seja ocupado com a decisão de ser inocentemente sincero, sim pq é preciso ter coragem para decidir ser inocente num mundo de espertos e maliciosos... e essas pessoas já esperam que as demais sejam do mesmo modo... e é tão bom contrariá-las!!! Andrew nos ensina uma importante lição, importante, mas não inédita, claro que ele não sabe disso, mas ao perguntar diretamente o que queria ouvir, ele demonstra uma ignorante coragem (é preciso ter coragem para viver)... ah... se ele soubesse que as pessoas não gostam de ouvir perguntas além das retóricas!!! Ah... se ele desconfiasse que o melhor é fingir achar até o incomum natural... Enfim, o comentário torna-se quase uma prece... que ele não perca a coragem de questionar o que tem vontade e que a verdade seja preservada independentemente das reações dos outros... Como é difícil viver em meio a uma hipocrisia constante... num mundo onde geralmente espera-se por perguntas com respostas "pré-fabricadas"... mas ainda há o Andrew, que bom!

    ...devaneios... talvez sim, talvez não...

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  2. Queria ser o Andrew por um mês...rsrsrsr. Esse garoto é nota mil, é a cara da nossa sociedade (fala sério)!!! Amei o Andrew e a sua história! bj., Mirian.

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