Ele e ela.
Eram quase vizinhos e digo quase porque poderiam viver paredes-meias, não fosse viverem em ruas diferentes porém muito próximas. A consequência desta relativa proximidade e os horários de trabalho semelhantes levava-os a verem-se diariamente quando acontecia deslocarem-se a pé pelas mesmas ruas em direcção ao Metro, ou no regresso a casa. Caminhavam dir-se-ia lado a lado, outras, um no encalço do outro e a consequência destes coincidentes trajectos era: para ele, o êxtase visual, justificado pelos encantos visíveis e invisíveis dela, sentia-os ele mais insinuados pela roupa justa que cobertos; saber onde ela tomava o cafezinho da manhã, reconhecer-lhe o sonoro tok tok dos seus saltos altos; e, por ultimo, uma vontade inexorável de a conhecer. Chegou mesmo a vestir-se de castanho por constatar que ela vestia muito roupas castanhas. Mas não resultou, ela nem para ele olhava; desprezava-o quanto mais lhe conhecia o desejo nos olhares. Se ele se aproximava, meio encoberto pela multidão, ela, assim que o notava, afastava-se. Apercebia-se ele disso mas em vez de ficar triste pesaroso e cabisbaixo, proferia a seguinte frase, que para ele era um divisa motivadora: “Acolhe-me no Inferno!”
Já ela por ser uma mulher muito assediada aprendera cedo a reconhecer os homens a evitar, bem como a rotular a maioria, pela insistência dos olhares, de tarados. Adquirira muita prática nesses apressados juízos de valor e não supunha que pudesse uma ou outra vez enganar-se. Avaliava todos pela bitola mais baixa e muito raramente olhava um. Quem a conhecesse diria dela: uma mulher cheia de curvas, muito recta. Na verdade não dava confiança aos homens, nem aos tímidos nem aos ousados e não fosse mesmo as curvas a trair-lhe a fleuma jamais a cobiçariam…
Acreditavam alguns que havia ali muito fogo ardente, e o seu vizinho não era excepção. Esta brasa de mulher inspirava nele desejos iguais aos da maioria, mas porque a via mais que os restantes – quanto mais perto da vista mais perto do coração - experimentava por ela um misto de adoração e de repulsa, sentimentos estes aparentemente antagónicos, porque quanto mais ele se mostrava interessado mais ela o ignorava e desprezava…
A desgraça chegara. A sorte do homem ia de mal a pior, andara anos triste por se achar pobre e agora que pensava que ia ser promovido, auferir um pouco mais, continuar a pagar o empréstimo da compra da casa, comprar um novo carro, acreditar finalmente na conquista da mulher dos seus sonhos, fora chamado ao gabinete do chefe.
- Olhe ali o quadro, está ver esses pionés espetados no mapa da empresa? Retire o do meio, está a mais, já não nos faz falta…
- Que quer dizer chefe?
- Não percebeu, olhe bem para o pionés que retirou do mapa, sim esse, é você!, Está despedido!
Já cá fora, a sós, voltou a olhar para o pionés e viu o quanto era insignificante.
- Anos e anos a trabalhar e não passei disto! - dizia.
Lamentava-se: Adeus emprego!, casa!, carro!, mulher!
Nesse dia poderia ter começado a beber! e ou a drogar-se, mas não, o apelo dum instinto mais forte levou-o a desfolhar as páginas dum jornal diário. Lera “Casa de meninas. Massagens. Zona do Marquês de Pombal! 961234512”; pegou no telemóvel!
- Sim o senhor está onde?... Está perto! Sim pode vir por essa rua, quem sobe! É no número 467, 4º Drt. Quando chegar toque à campainha. Tem elevador…
À porta do edifício o homem desempregado sentiu a diferença, habituado aos prédios antigos do Intendente, às escadas íngremes de madeira. Lembrou-se com saudade do tempo em que as jovens nigerianas do Intendente o costumavam assediar. Uma delas - lembrou-se – inclusive, chamou-o da varanda para descaradamente lhe mostrar o que tinha para lhe oferecer, levantando a mini-saia… Alegrou-se de ter recordado esse episódio... Ainda hoje se perguntava porque é que não aceitara o convite... foi lá dias depois, mas ela - disseram-lhe - tinha ido para Espanha...
Carregou no botão do elevador e apreciou a suavidade da ascensão, sentia-se subir para o céu…
TRIMMMM
TRIMMMMMM!!!!
Uma senhora corpulenta na ternura dos quarenta veio abrir-lhe a porta, pareceu-lhe ser a patroa. Vestia um roupão vermelho, apertado à cintura por um cinto da mesma cor.
- Vim por causa do anúncio…
- E fez muito bem em vir… Faz favor de entrar… Esteja à vontade... Pode sentar-se no sofá… Quer beber alguma coisa?...
- Não vim propriamente beber… - disse num tom de voz sorridente…
- Eu sei eu sei, veio ver as meninas. Vejo que vem bem humorado… Certamente, a vida corre-lhe bem… Olhe está com sorte, estão cá as meninas todas e nenhuma está ocupada… Até me admirei de hoje não me pedirem uma folga… São excelentes profissionais, gostam do que fazem…
- É bom! é bom! E os preços…
- 40 euros tudo, uma hora no quarto.
- Óptimo!
- Quer ver as meninas uma de cada vez ou prefere que venham todas juntas?
- Todas juntas!
- Então espere aqui um bocadinho, vou buscá-las …
Durante a espera o nosso homem sentado no sofá, questionava-se «Serão novas? Serão todas boas? Quanto é que me importará um show lésbico?»
Súbito vê entrar na sala a patroa.
- Elas já vão desfilar, espero que lhe agradem… Entrem meninas, entrem!
O homem recostou-se para trás e endireitou as costas…
Uma a uma viu-as entrarem na sala muito bem vestidas. A de fato era a executiva, fazia-se passar por advogada… A que vinha de branco era a enfermeira… uma terceira vinha vestida com uma farda da P.S.P…. outra de coelhinha da Playboy… e súbito o homem teve como que um desfalecimento, turvou-se-lhe a vista… sem querer acreditar viu, entre as cinco, a vizinha – não podia ser verdade, mas era - estava vestida de freira… e não havia dúvidas, ela também o reconheceu…
O nosso homem podia ter-se acabrunhado, mas não se acabrunhou. Apontou para a vizinha e disse alto para a madre superior:
- QUERO AQUELA!
A vizinha ainda esboçou um olhar de clemência, ou melhor de dispensa, para a madre superior! que sempre sentia prazer em obrigá-las a trabalhar... De nada lhe valeu. A patroa dirigiu-se a ela, agarrou-a pela mão e levou-a a ele…
- Aqui a tem! … Durante uma hora é sua. Olhe que o tempo passa depressa! Desfrute-a! Em caso de algum descontentamento tem direito a escrever no livro amarelo – depois segredou-lhe ao ouvido «Escolheu bem! Essa é uma profissional!»
"A vida como ela é"!! Por vezes pensamos que nunca teremos isto ou aquilo, e de repente, inexplicavelmente temos, isto, aquilo e mto mais!!!!
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