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terça-feira, 2 de novembro de 2010

carta a todos os leitores de Henrik Ibsen

Como acontecia nesse tempo, quando um livro dum Autor me inspirava a lê-lo - logo da obra, e acerca da, procurava ler absolutamente tudo. Aconteceu com Cervantes, Shakespeare, Dostoievski, Becket, Kafka, Homero, Proust, Ibsen, Nietzsche, Shopenhaeur, George Orwel, Nicolau Gogol, entre outros... Os esforços para encontrar as obras completas soçobravam diante da realidade editorial.. De Ibsen descobria apenas publicado em português a peça O PATO SELVAGEM e A CASA DE BONECAS. Procurava por tudo o quanto era livraria biblioteca alfarrabista e nada! Lembro-me bem. Fiquei tão triste e angustiado de não poder ter como ler mais Ibsen (quando tanto o desejava) que era como ver a mais linda das virgens nua e nada! não era pior, porque ver já é verdadeiramente alguma coisa... Entendem?... Era mais que carnal! Desejava aqueles livros - trocava-os por um orgasmo com a Ava Gardner! Estava agarrado a eles pela vontade, pelo ideal! Queria aprender a escrever melhor e doia-me imenso não ler o verdadeiramente bem escrito; tornara-me exigente. Depois de Cervantes e de muitos outros clássicos, já quase não arranjava mais para ler por achar quase tudo mal escrito! - sem estilo.
... a boa notícia veio no Século XXI, a fome de 20 anos deu em fartura; finalmente uma editora de Portugal fez obra! traduziu e publicou quase toda a dramaturgia de Ibsen. Assim que desse feito fui notificado: pensei comprar e ler todos os livros, porém por saber que eles estavam acessíveis (assegurados) fui adiando a compra. As peças estão ai! e são sublimes!, não vos conselho nenhuma peça, aconselho todas!
Ibsen chegou a ser o escritor mais conhecido da Europa a seguir a Leon Tolstoi! o autor do clássico Guerra e Paz e do injustamente menos conhecido "A Morte de Ivan Ilicht".

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

a surpresa o drama a tragedia o horror

… ao oitavo ano da presente década havia um homem que só tinha uma hora para almoçar. Ao meio dia desceria as escadas sem pressa e chegado à rua pensaria a qual restaurante ir, se não se houvesse dado em sua vida uma alteração comportamental: Em vez de almoçar corria para a estação de Metro mais próxima, para sair na seguinte. Atravessava depois a rua e estacava perto da porta principal do edifício do Banco, de onde àquela hora haveria de ver dezenas de pessoas sair. De todas, uma havia que o fazia estar ali… A ideia era falar-lhe, porém mal a viu sentiu-se incapaz da interpelar.
Quando o vi ali parado olhando as pessoas a sair do edifício, pensei que esperasse alguém; pareceu-me um tanto magro e era visível a mesma agitação interior dos tempos da escola...
-Que fazes por aqui amigo?
- Eu? (Surpreso...)
-Sim tu!, Que fazes por aqui?
-Aproveito a minha hora de almoço para ver quem gosto…
-E sobra-te tempo para almoçar?
-10 minutos.
-Isso é amor? Ou Loucura?
-Antes fosse loucura!
-Quem é ela?
- Se eu soubesse…
- Um dia declaras-te.
- Como amigo? Como?
- Subtilmente!
- Eu queria ser o mais explicito possível…
- Não! Fá-lo subtilmente! Sem tu próprio dares por isso…
(...)
...Ora as probabilidades de se declarar sem que ele próprio se apercebesse eram escassas! mas não impossíveis. Sabia que teria apenas de aparecer no Banco e consultar o saldo da sua conta bancária, e quiçá o futuro não lhe reservasse dizer subtilmente o que não sabia como...
E do mesmo modo que as pessoas sonham a dormir com as pessoas que há muito desejam acordados, involuntariamente, inspirado pelo contacto de vê-la e de ouvi-la, lhe saiu súbito quer das mãos quer dos lábios os actos e as palavras a declaração sublimar - subentendida - que estava a bem dizer em nota de rodapé em letrinha minúscula, mas ainda assim legível.
Uma dessas vezes, sentado, diante dela, em consequência do como a via manusear o mouse, agarrou-lho, virou-o de modo a abri-lo e limpou-o da sujidade acumulada nas rodas com esmerado cuidado. Lembrou-me o relojoeiro da vila onde cresci, que aproveitava a profissão para tocar no pulso das senhoras. Ao vê-lo limpar o mouse, ela ficou perplexa. Era a primeira vez que alguém tivera esse cuidado. Sem saber o que dizer, levantou-se da cadeira e desapareceu dali. Veio 2 minutos depois com duas folhas de papel de limpeza. Estendeu-las depois, agradecendo-lhe!
Uma outra vez, aconteceu no mesmo lugar e na mesma cadeira, de há um ano atrás, quando, lhe falou por acaso de um casaco que ela por há muito não vestir já quase esquecera…

Ele: - Lembro-me que a via muitas vezes com um casaco cinzento claroo…
- (pausa) quando ela do casaco se lembrou. Ela: – ah sim tenho sim, já está guardado a algum tempo no armário. Sim dessa cor.
Ele: - pois eu não invento!

Uma outra vez, ao passar em frente do seu Guiché para se sentar no sofá da sala de espera olhou para o local onde habitualmente ela trabalhava mas não a vira lá. Pensou "Será que hoje não veio? Não, ausentou-se por momentos..." então enquanto lia um artigo de uma revista que por ali estava, ouviu sobre os diversos sons que provinham de todo o lado uma voz que lhe soou familiar. Era a voz dela, imaterial. Ao reconhecer-lhe a voz logo soube em si a qualidade da reconhecer.

Nesse tempo ele amava-a pelo pouco que via e reconhecia nela. Das suas mãos e dedos que não tinham nem anéis nem aliança, a independência! Do modo atencioso como o tratava como cliente, a simpatia! Do seu modo de andar, a graça a feminilidade.
Mas nem sempre vê-la lhe trouxe a felicidade sonhada! Aconteceu uma vez num desses períodos de almoço adiados, a visão de algo que se pudesse teria evitado testemunhar!, à hora do almoço passou pelo Campo Pequeno e viu-a acompanhada por um homem de fato. Seria um amigo? seria se não fosse ter testemunhado enquanto subiam na passadeira rolante de acesso à entrada do Centro Comercial um beijo demorado!... o que profundamente, a pontos de se dar na sua vida uma nova alteração comportamental. Durante o tempo que se saberá agora, que foi de meio ano, não procurou voltar a vê-la.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Walt Whitman - 32

32
“Julgo que poderia mudar e viver com os animais, são tão plácidos e tão independentes,
Fico a olhar para eles um tempo infinito.
Não se cansam nem se lastimam com a sua situação
Não ficam acordados na escuridão, nem choram os seus pecados,
Não me enfadam com as suas discussões sobre os deveres para com Deus,
Nenhum se sente insatisfeito ou enlouquece com a obsessão de tudo possuir,
Nenhum se ajoelha perante outro, nem perante a sua espécie que viveu há milhares de anos,
Nenhum é respeitável ou infeliz à face da terra.
Assim mostram a relação comigo e eu aceito-os
Trazem-me testemunhos de mim mesmo, mostram claramente que deles são os possuidores.
Pergunto a mim próprio onde obtêm esses testemunhos,
Terei passado por ali em tempos remotos e tê-los-ei perdido por negligência?(…)”

domingo, 26 de setembro de 2010

Walt Whitman - Louisiana

“Vi em Louisiana um carvalho a crescer
Estava isolado e o musgo pendia dos seus ramos,
Sem um companheiro, ali crescia soltando folhas jubilosas verdes escuras…
E o seu aspecto rude, firme e vigoroso fez-me pensar em mim.
E interroguei-me como ele conseguia soltar folhas jubilosas estando ali só, sem o seu amigo, pois eu sabia que não o conseguiria.
(…) e embora o carvalho cintile lá em Louisiana solitário numa vasta planície,
Soltando jubilosas folhas toda a sua vida, sem um amigo, um amante próximo,
Sei muito bem que eu não o conseguiria.”

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

nao consigo conceber...

...um ser angelical ter que morrer!!!
...é o derradeiro objectivo válido do homem: a imortalidade da beleza, a da vida!... não vejo outro mais árduo e difícil!... julgo que a humanidade porá toda a ciência ao serviço desse objectivo! porque não há coisa que mais enoja que a condição humana, o envelhecimento do corpo, a sua decrepitude - a carne podre!... enoja principalmente a nós os que lambemos com o pensamento a sensualidade do belo...
Nós os que nascemos condenados à morte! criámos o direito ... leis para abulir a pena de morte até para com os assassinos... e então os inocentes? porque terão que morrer...? que vergonha...
...pobres mortais que aceitais a morte (para sofrerdes menos) que até chegasteis ao cumulo de dizer bem dela! decerto porque nao amais o suficiente a vida, porque não a amais ao ponto de a desejares para sempre!... A imortalidade nao assusta os Deuses, A eternidade é o seu Paraíso!

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

confissoes de uma aficionada da tauromaquia...

… Qual a combinação de factores na vida de uma mulher até à prostituição?
...os factores que levaram a V. a prostituir-se foram: primeiro: a relação afectiva com um homem violento! Ainda não tinham celebrado o primeiro mês de namoro e já ela o ouvia ameaça-la de morte, - a amiga cabeleireira sua confidente escutava-a - com ódio nos olhos diz que me mata caso eu termine a relação! – ontem puxou o cortinado da janela e enrolou-mo no pescoço com violência! - chorei a minha desgraça e depois disse-lhe o que ele queria ouvir, prometi-lhe que o não deixaria!...
durante um mês, todos os dias, jurava que nunca o iria deixar! não bastou, a violência continuava... duas a três vezes por semana ele possuía-a e cinco e seis vezes por mês ele ameaçava-a…
Até quando?
… até que ele veio para Portugal trabalhar, deixando-a no Brasil grávida. Uma jovem mulher que conheceu um único amante não se liberta facilmente da carne… e grávida ainda menos, porque agora ele é será sempre o pai. A violência e o medo eram mais que razões para não ir atrás dele... Mas foi! e porquê? Porque a mãe disse-lhe que o filho tinha mudado! Todavia em Portugal a brasileira teve do brasileiro mais do mesmo! Porrada à quinta-feira quando não era à quarta e ameaças de morte à segunda-feira, quando não era Domingo… A saudade dos entes queridos, uma vida de guerra aprisionada pelo medo e a falta de amigos a quem recorrer minaram-lhe a saúde… foi ao fundo do abismo e para não enlouquecer subiu-lhe o suicídio à cabeça… pensou-o e fê-lo!, com comprimidos! O seu acto não teve uma desfecho trágico por uma unha negra, foi socorrida a tempo…
… dias depois, sem qualquer estratégia - enquanto trabalhava com o marido em cima dum andaime no 7º piso a lavar vitrinas – disse-lhe que o ia deixar. O homem reagiu como sempre reagia, mal – com ódio. Agarrou-a pelas costas e levou-a à força para a beira do andaime. Lá de cima fê-la olhar cá para baixo. Não fosse a pronta reacção de uma terceira pessoa e o seu corpo teria feito no trajecto da queda uma perfeita linha recta. Já tinha escapado da morte 3 vezes! do cortinado enrolado no pescoço, dos comprimidos misturados no estômago e de uma potencial queda do sétimo andar... então, um dia decidiu que estava disposta a tudo, esperou pela oportunidade de estar sozinha e saiu do lar das ameaças sem saber ao certo para onde… bateu em muitas portas blindadas... procurava uma nova casa, um novo trabalho, alguém que a acolhesse... e dias depois, a olhar-se ao espelho, temeu o frio de ser arrastada para baixo do limiar da pobreza... por isso, para manter a dignidade foi trabalhar para um bar de engate!,
… Os bares de engate que eu espreitei há anos atrás, eram escuros, com musica ambiente a meio som e tinham como clientes grupos de homens com as mais variadas profissões, desde mecânicos de automóveis a empresários da construção civil. Assim que eles se sentavam vinham duas ou três meninas perguntar se lhes pagavam algo de beber… elas explicavam-lhes que era a condição para poderem ficar a conversar com eles… se pagassem uma ou duas garrafas de champanhe permaneceriam com eles mais tempo… entre elas havia as que se prostituíam e as novas na profissão que o não faziam ainda…
… a decisão de trabalhar num desses bares de alterne foi um dos factores para a prostituição de facto… desse trabalho de empregada de bar de alterne até ao de se prostituir na rua foi um passo… disseram-lhe que ganhava mais...
... é cómica! quando o amigo lhe pergunta qual a posição que gosta mais, diz que é a sinto, a sinto muito! No quarto da pensão para onde leva os clientes, se lhe pedem para se pôr de quatro para mostrar o rabo, nega-se a fazê-lo – diz que não gosta de se sentir mulher objecto!, se lhe perguntam se engole, diz que sim mas só leite de vaca… não geme porque diz que é ridículo… e não goza porque não sente prazer com homens desconhecidos… se lhe dão palmadas no rabo vira-se para trás e diz ao cliente – pare com isso!
... tem um rosto belo de traços finos mas não deixa que lhe tirem uma foto... receia decerto... o quê não sei... diz como se fosse de admirar, que o pai do seu segundo filho com quem se juntou, era seu cliente!, - fala no filho com ternura - mostra as fotos dele que guarda da carteira às pessoas de quem gosta! revela sentido orgulho em afirmar que a irmã é uma mulher direita e bem casada!
… passado alguns anos neste trabalho que ela alcunha de tourada tem hoje menos pudor em confessar o que faz...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

o escritor tem uma história para vos contar…

não era uma vez um homem feliz, era um farrapo de um ser humano que vasculhava o lixo com profundidade, enfiando os braços e as mãos dentro dos contentores... quando acontecia vê-lo tinha o cuidado de ser discreto para lhe poupar a vergonha que pudesse sentir ao ver-me; notei depois o erro em ter para com ele esse cuidado, porque quando uma vez me viu foi como se eu não estivesse ali… Era imune a essa vergonha… aprendera a não esperar que não houvesse ninguém para o ver… A sua total indiferença remetia-me para a frase os outros sempre serão outros… e o desprezo que lhes dava (a quem o pudesse estar a ver) era bem patente ao continuar a vasculhar o lixo - como se não houvesse viva alma a observá-lo - em busca de algo que pudesse ter algum valor... Ao pensar que por causa da vergonha nos inibimos de agir, perdendo o valor da oportunidade, senti vontade de ter para com o mundo igual indiferença!
...Contou-me um amigo que uma vez não pediu o telefone a uma mulher que havia conhecido, e com quem conversara durante horas, por vergonha de o fazer num velório… Mas onde é que está escrito que não se pode pedir o número de telefone a uma mulher num velório?! foi o que eu lhe disse… agora ele espera o acaso de voltar a ver, apesar de dizer que tem quase a certeza de isso não vir mais a acontecer… perdeu a oportunidade e não terá outra!, é como ir atrás de uma mulher bonita e não entrar no mesmo metro!... é um fenómeno comum entre os homens, aproximarem-se de um desconhecida com ganas de a conhecer para depois recuarem… sem se conseguirem apresentar…
outro dia um politico qualquer apareceu na TV com um corte de cabelo desacertado, e ouvi o comentário do meu amigo sexagenário…
- há cada corte de cabelo, lá para os meus lados - referindo-se aos Punks - vejo cada galo de Barcelos…
Achei-lhe piada porque tenho bem presente a imagem de um galo de Barcelos e a crista enorme… enfim quando menos se espera ouve-se um dizer um comentário com piada…
Quando os oiço tento memorizá-los para depois deixá-los escritos!... é caso para dizer que a Arte é filha da memória…
Jantava outro dia um amigo meu com uma senhora que angaria para ela mesma clientes na rua, confessando-lhe ela que lhe doíam as nádegas porque caíra de bêbada numa discoteca…
- Como é que foi isso possível, não bebes um vinho maduro às refeições porque tem álcool e embebedas-te num sábado à noite…
- Dói-me isto tudo – tocando com a palma da mão nas nádegas – hoje não vou poder trabalhar…
- Ah pois não vais não!
Conta-me que lhe pergunta como é que ela foi parar àquela vida…
- Como é que vieste parar à prostituição? Conta-me!
(…)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

...de uma garrafa que deu à costa...

...escrevo criando uma atmosfera de afectos... como se houvesse de verdade e fosse real o desejo de tocar e sentir o outro... é esse fenómeno, de querer tocar e de ser tocado pelo outro - que se aproxima da paixão - na verdade raro... o mais das vezes esta ficção nao se projecta na realidade... nao passa da fase de projecto... nao passa da planta, da maquete, do esboço... nao chega a realizar-se como obra... é doloroso sentirmos como são raros os encontros íntimos a dois...
se por vezes penso que os mereceria mais por os procurar desta forma (pela escrita) mais do que a maioria... constato que a realidade é outra... e que também aqui é tudo muito fortuito... produto do acaso...
nao sei se sentes assim leitora...
fico entao à espera de que possas ter para me dizer para continuarmos o livro - a vida - a realização do amanha...
espero que nao interfira com a tua realidade emocional caso tenhas ou nao namorado, se bem que todos os namoros e namorados estejam sujeitos à influência e à atração dos seres...

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Herberto Helder, O estilo

"— Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos? (...)"

in Os Passos em Volta - Estilo, Herberto Helder

segunda-feira, 19 de julho de 2010

continuação do anterior, leiam o outro primeiro

... a escuridão envolvente fazia dele um vulto, protegia-o, mas não lhe facilitava a realização do seu objectivo - que era ver a noiva - não obstante conseguira reconhecê-la... a ideia de atirar pedrinhas surtira efeito… haveria agora de conseguir falar-lhe! e se não o conseguisse a algum fim haveria do levar… o importante era não ser descoberto… e para que o não vissem, preferia os pequenos atalhos a ir pela estrada… e tendo apenas oliveiras que o ouvissem dizia «É o nosso segredo! … ainda não sabe quem lhas atira! nao sabe quem sou! mas deseja saber!
… vou esperar que haja luar para tornar a revelação mais romântica…» … pensasse ou não que pudesse daqueles actos nada retirar, a verdade é que sentia-se melhor e regressava a casa mais animado…
…durante a caminhada que era de 5kms sentiu fome pelo que decidiu fazer uma paragem para se alimentar de pão quente. A porta da padaria estava encostada e vinha de lá de dentro uma luz amarela e um cheiro apetitoso a pão. Empurrou com cuidado a porta como um gato a entrar a medo em casa alheia… e apercebendo-se que não havia ninguém gritou:
- Ó da casa!, posso entrar?
- Entre! Passe o balcão. Estamos aqui…
- Boa noite.
- Boa noite.
- Luís não me arranjas pão quente?
- Está para sair a primeira fornada. É mais 5 minutos… há muito que não te via… Vieste de casa até aqui? para comprar pão?
- Sim! Estava com insónias! Quem é que consegue dormir de barriga vazia?
- Mas não tinhas em casa nada para comer?
- Tinha claro. Mas apeteceu-me pão… Parece que é a primeira vez…
- Não é a primeira vez, mas como há tanto tempo não aparecias…
- Agora vou começar a aparecer… Quero 4. Quanto é?
- Deixa lá… Pagas para a próxima…
- Obrigado.

…em redor da mesa da cozinha da família da noiva o pai olhava para a filha com atenção, como se quisesse ler-lhe o pensamento.
- Pareces mais feliz hoje… é da aproximação da data do casamento?
- Não pai! O casamento ainda vem longe. É só para Janeiro do próximo ano.
- Já me esquecia que para os jovens o tempo passa mais devagar. Ontem à noite não ouviram uns barulhos? Ia jurar… arremessaram alguma pedra contra a frente da nossa casa…
- Eu não ouvi nada. – Disse a noiva!
- E tu Maria?
- Também não ouvi nada.
- Estive mesmo para me levantar…
A noiva engasgou-se a beber a caneca de leite!
O pai olhou-a com incisão, pressentindo haver por ali qualquer coisa…
- Macacos me mordam se aqui não há gato…
Havia. Era o Tareco. Acabara de assomar-se à porta e entrar.
As filhas e a mulher riram-se.
- bichuuuu bichuuuu (era assim que chamavam o Tareco quando lhe queriam dar qualquer coisa de comer) A cauda espetada no ar percorria o curto trajecto da entrada da casa até à mao dos donos...