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quarta-feira, 30 de maio de 2012

posso jogar?


… outro dia cruzei-me com um garoto de etnia cigana, olhou-me fixamente durante longos segundos e quiçá por pressentir que não lhe faria mal ou, ao invés, que poderia constituir uma ameaça à sua integridade física, súbito, ouvi-o alvejar-me com uma palavra.
- Careca!!
… eu pensei «olha a ousadia do miúdo! não teme chamar um nome a um estranho com uma estatura que faz o dobro da dele»… e então para que ele sentisse o quanto me elogiava decidi dar-lhe o devido troco…
- Gordinho!
… chamei-o assim decerto devido à minha educação de fundo literário que até quando tenta ofender não consegue deixar de ser simpática – algumas pessoas a quem contei este episódio disseram-me que fui muito brando… que o que se impunha chamar-lhe era gorduxo ou até mesmo gordo.
     O ciganito voltou à carga!
     - O que é que disseste CARECA?
     - Que és GORDINHO!
… percebendo ele a ofensa e sentindo-se escudado no seu território pela relativa proximidade da sua mãe, que a um grito seu ocorreria à janela, vociferou sem medo:
     - Vai-te foder!
     Ouvi e ignorei; continuei no caminho querendo mostrar total indiferença, mas a verdade é que continuava a ouvir as palavras do gorduxo!, e pensei «o miúdo a continuar assim arrisca um tabefe de um adulto…»
     Com o passar dos dias já deveria ter esquecido o episódio com o ciganito gordo não fosse tê-lo visto segunda vez…
     Foi a um Domingo. Estava o meu filho a sofrer a última meia hora o jogo do final da Taça, por o Sporting Clube estar a perder com a Académica de Coimbra, e disse-lhe:
     - Andrew, não vale a pena apoiares nem sofreres por causa do futebol, olha o pai, que adora jogar futebol, nunca sofreu por nenhum clube! – e, para ele ver mais razão no que lhe dizia, perguntei-lhe:
     - O Sporting por acaso dá-te alguma coisa para te importares e sofreres assim?
     Ele ficou uns segundos a pensar, olhou para a televisão, e depois virou os olhos para os meus e respondeu num tom de voz alegre que revelava a plena satisfação de ter descoberto a resposta certa.
     - Dá-me vitórias!
     O meio-irmão riu-se e disse-lhe…
     -Vê-se! a perder com a Académica!!
     - Não acredito! Já vai acabar – disse bufando para o ar e levando a mão à testa em desespero.
O árbitro soprou no apito e fez parar o cronómetro de pulso. Depois, assim que o comentador disse “A Taça de Portugal voltou para a Académica 73 anos depois” e o meu filho repentinamente mudou de humor
- 73 anos depois, ahahaha que vergonha! 73 anos!!!, mano.

Depois desejando eu passar mais algum tempo com ele convidei-o para um desafio de futebol. Alegrou-se com a ideia e foi procurar a bola debaixo da cama…
- Ó mano viste a Jabulani?
- Está debaixo da cama!
- Já a vi! Viste os meus ténis Adidas?
Saímos para a rua e fomos jogar para um pequeno pátio de chão calcetado com tijoleiras, exactamente no mesmo local onde me havia cruzado com o ciganito gordo.
Com os 4 vasos de plástico que trouxera debaixo do braço fiz os postes das duas balizas, a minha um pouco maior para respeitar a lei da proporcionalidade. Quando começamos o jogo não havia ninguém por perto, mas passado um quarto de hora apareceram do nada 3 miúdos ciganos, dois muito magros e mal vestidos. O mais alto e gordo deles era da altura do meu filho Andrew... 
Pensei «Será que vai ousar chamar-me de novo careca?»
Se ousasse tal, muita retórica teria de usar para lhe fazer entender que chamar nomes para vexar e envergonhar alguém é um sinal claro de incivilidade e de escassez de inteligência…
Continuei a jogar com o meu herdeiro; pelo canto do olho notava o olhar do ciganito a observar-me, e pela atitude cautelosa e apreensiva influi que se lembrava muito bem da nossa altercação… Continuou a olhar-me… depois apercebendo-se que não iria molestá-lo, aproximou-se e pediu-me se podia jogar connosco.
- Espera um pouco. – Disse-lhe
Passados 10 minutos voltou a pedir-me.
- Espera mais um pouco…
- Pai, deixa ele jogar. – pediu-me o Andrew.
E eu pensei quem sai aos seus não degenera…
E por que propósito pensei eu isto?
… no intuito de responder peço ao leitor desculpas por cortar o curso da acção para afixar aqui no papel umas considerações afeitas às reacções humanas face à manifestação voluntária da vontade do próximo…
… aquele quadro rectangular que tantas vezes contemplei quer fora quer dentro, de 10 ou mais indivíduos divididos em dois grupos rivais a disputar a posse de uma bola, inspirava-me a escrever sobre a ética!, preferencialmente quando alguém – um potencial jogador desconhecido – lhes pergunta «Posso jogar convosco?»
As reacções individuais a esta pergunta por tê-las tantas vezes testemunhado posso afirmar-vos são distintas, e reveladoras do carácter de cada indivíduo.
A reacção mais comum é a mais imediata, fingem que não ouvem, revelando indiferença, esperando que o jogador que lhes pede para jogar desista da ideia. Se ele insiste e interpela directamente alguém, é comum responderem-lhe «Não sei, não sou eu que mando.»… ou então «Já somos 10!»… (continua)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

… para deixar de beber diga alto: Chega de ser pisado pelo Jegue!

... algures no interior da Bahia, um homem corpulento saía do trabalho direto à taberna para beber com os “amigos” copos de cachaça e, algumas rodadas depois, com o efeito da alcoolização, perdia o equilíbrio necessário para andar direito; tropeçava e agarrava-se a quem o ajudava até sair da taberna, num estado cambaleante, em direção ao jumento. A filha, a rondar a felicidade dos 30 anos, contava, rindo-se: 
– Quem levava o meu pai para casa era o jegue! Um pequeno burro. Era um jegue muito inteligente – conseguia trazer o meu pai! Cheio de nódoas negras no corpo, nos braços e até nas pernas, porque nos caminhos mais inclinados caía de cima do jegue. Inevitavelmente, quando caía para a frente, era calcado pelos cascos do jumento. Foi assim durante dois anos, até que um dia o meu pai disse bem alto: 
- Chega de ser pisado pelo jegue! - Depois desse dia, o meu pai nunca mais bebeu.

domingo, 29 de janeiro de 2012

citações, boas tiradas e respostas espirituosas

… ao passar perto escutei um homem a conversar com uma mulher
- Acho que a tua amiga teve sempre um fraquinho por mim! – 
- Ela sempre foi forte a ter fraquinhos... por homens! - Apercebendo-se da graça riu baixinho!

 na mesma toada, de frases com sentido, um amigo quis dizer-me uma frase que lera, de uma autora; fez um esforço para se lembrar e segundos depois citou-ma – “O tempo não cura, apenas afasta o incurável do centro das nossas atenções!” – ambos achámos a frase interessante e digna de ser citada!, e foi por isso que no dia seguinte a almoçar com um outro colega mais velho quis dizer-lha; escute. Um amigo disse-me esta frase, “ o tempo não cura, apenas afasta o incurável do centro das nossas atenções!” que acha? perguntei contanto que ia receber uma ovação!, mas o seu sentido critico surpreendeu-me.
- Errado, o tempo arquiva e depois como acontece com os processos, prescreve!, esse seu amigo se acredita nisso, que o tempo não cura é um homem que está com problemas!...

 ainda na mesma toada, este sábado almocei com um casal de velhotes jovens meus conhecidos – uma senhora de cabelos brancos que não se contem nunca de fazer um comentário critico afiado a ninguém e muito menos ao marido, do género (em tom severo, de repreensão) - Artur!! Não estejas a oferecer pão ao Alexandre, se ele o quiser tira-o!, agora é que estás a oferecer queijo ao Alexandre, agora depois de ele comer a fruta?!!!!
O marido nem reagiu, estava mais que habituado, e eu, para o animar, disse-lhe:
- Você tem uma mulher de ouro! Faz-lhe o almoço!
 A mulher, a Dona Judite riu-se, do que ouvira e do que ela mesmo ia dizer:
- Pois tem,  mas ele não sabe!
E respondeu-lhe ele
- Pois mas ela também não sabe que tem um marido de diamante!
Riram-se ambos e ela retorquiu
- Ah de diamante! Onde está o marido de diamante??? O Alexandre, vê algum?
- O Sr, Artur!
- Esse? É é de pechisbeque! de fantasia!
 Ele levantou um pouco a cabeça olhou-me e riu-se!

  Depois enquanto levantava a mesa, com pressa incontida para que mais ninguém atacasse no queijo de cabra, contou-nos que nesse manhã ouviu o filho da vizinha da porta ao lado, a criticar a mãe por andar a namorar um homem 15 anos mais novo; e imitou-os, ao filho e a mãe, nestes termos:
- A mãe namora o Antoninho para quê?, diga-me, para quê?
- Por que eu gosto dele e ele gosta de mim!
- Pois, mas a mãe devia namorar era um homem velho e rico!
- Ah ah, queres um homem rico na família?! pois, então pede à tua namorada que arranje um!
....
 rimo-nos todos de novo...
 e depois Dona Judite, conte, o que é que a filha lhe retorquiu...???
- Nada. Calou-se! toda a manhã!

domingo, 15 de janeiro de 2012

considerações sobre a cópula

...o sexo e a morte sempre intrinsecamente ligados - sendo a prática sexual um dos maiores prazeres da vida, é a oposição à morte! O sexo honra a vida! celebra-a! - e quando com paixão é feito invade-nos uma sensação de poder - plena de prazer! - o sexo é uma junção de vontades! - afasta-nos de sentir a ideia da nossa finitude!...
podemos afirmar: - quem faz sexo não está morto! goza a vida!
... uma senhora viúva na terceira idade sentada no banco de espera de um hospital dizia para quem a ouvia: - No dia em que o meu marido morreu despediu-se de TUDO!

sábado, 10 de dezembro de 2011

o discurso do V for Vendetta

....recomendo a leitura atenta do discurso do V de Vendetta no canal da televisão estatal.

"É claro que há quem não queira que conversemos por esta via. Suspeito que neste instante estão a ser gritadas ordens pelos telefones, e homens com armas vêm já a caminho. Porquê? Porque embora o cassetete seja usado em vez do diálogo as palavras reterão sempre a sua força. As palavras oferecem formas de significado e para os que as escutam: o enunciado da verdade. E a verdade é que há algo terrivelmente errado com este país, não há? Desigualdade e injustiça, intolerância e opressão. E quando dantes tínheis a liberdade de objectar, de pensar e de falar como vos aprouvesse, tendes agora censores e sistemas de vigilância, coagindo-vos à conformidade, solicitando-vos a submissão. Como aconteceu isto? Quem é o culpado? Certamente que há uns mais responsáveis que outros e esses terão de prestar contas, mas mais uma vez, verdade seja dita, se procuram um culpado só têm de olhar para o espelho. Eu sei porque o fizestes. Sei que tendes medo. Quem não teria? Guerra, terror, doença. Miríades de problemas conspiraram para vos corromper a razão, e vos roubar o bom senso. O medo tirou-vos o melhor de vocês. E no vosso pânico viraram-se para um consentimento silencioso e obediente. Haja quem queira pôr fim a esse silêncio. Haja quem queira lembrar ao mundo que a correcção, a justiça e a liberdade são mais do que palavras. São perspectivas."

"Remember, remember, the 5th of November
The gunpowder, treason and plot;
I know of no reason, why the gunpowder treason
Should ever be forgot."

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

...um anjo da Guarda Nacional Republicana

… um grupo de portugueses subiu a terras espanholas; e já bem dentro da vizinha Espanha sentaram-se a uma mesa de uma taberna e pediram dois pires de tremoços e quatro cervejas... conversavam uns com os outros um bom bocado e depois já cansados de ali estarem chegaram-se ao balcão para pagar...
- Já não precisam pagar, já está pago. - disse-lhes um dos empregados.
- Já? Mas quem é que pagou?
- Ele! (apontou para um senhor sentado noutra mesa.)
o pequeno grupo aproximou-se da mesa e indagaram o espanhol
- Diga-nos porque nos pagou a despesa?
- São portugueses, não são?
- sim, somos.
- Pois, por isso, por serem portugueses...
- Não compreendemos.
- Mas vão compreender. Se hoje estou aqui a um português o devo. Salvou-me a vida há muito tempo , nem sei se ainda será vivo. Eu nunca lhe pude agradecer...
- Salvou-lhe a vida?
- Sim, há muitos anos; decorria a guerra civil espanhola - levavam os prisioneiros políticos acorrentados para as praças de touros para... Vocês sabem!!, sim, sob o pretexto de nos considerarem perigosos por não sermos Franquistas... Era nas praças de touros. Há fotografias de fuzilamentos, autênticos genocídios... Sabia-se. Mas todos se calavam... Um dia os que me procuravam avistaram-me. Perseguiam-me! Eu corri pelos montes para a fronteira…Descia e subia encosta... e tentava distanciar-me o mais possível… Já em solo português, subi um morro; sempre a olhar para trás para ver se via os meus perseguidores e, quando olho para diante, vejo um soldado da Guarda Nacional Republicana armado. Donde ele estava observara certamente tudo; sabia que me perseguiam, mas, porque era um homem bom, só fez assim (levou o dedo indicador na vertical aos lábios) para que não falasse e apontou-me a direcção a tomar. Não hesitei um segundo, lancei-me numa corrida desenfreada por um caminho de cabras ladeado de arbustos altos, giestas e silvas...tinha a morte atrás… quando senti que não podia ser avistado procurei um sítio onde pudesse ver sem ser visto... espreitei e vi os meus perseguidores; falavam com o guarda, pouco depois vi-o apontar com o braço para o lado oposto ao que me indicara... vi-os com grande alivio tomar esse caminho... Assim que os deixei de ver corri para bem longe da fronteira... Andei fugido por terras portuguesas durante muitos meses. Eu não tinha dinheiro; andava de povoado em povoado, de casa em casa… nenhum me denunciou! Esconderam-me e mataram-me a fome, foram portugueses.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

... comer por obrigação

Quem não compra, não transporta e não cozinha os alimentos vive muito menos tempo na presença dos mesmos. Para ganharmos a real consciência de que eles existem nada como sair de casa para os comprarmos, nada como os transportarmos, (quanto mais pesado for o saco mais consciência), nada como os prepararmos e cozinharmos.
É o que me acontece agora, sou eu que os compro, transporto, preparo e cozinho. Ainda anteontem, comprei uma perna de peru. Trouxe-a para casa; firmei-a contra o tampo da mesa e servindo-me de uma faca e dos dedos comecei a descarnar o osso. A faca não cortava por ai além; eu debatia-me por conseguir separar a carne do osso. O frio dos músculos da carne da perna de peru refrigerada vencia aos poucos o calor do sangue das minhas mãos; passado algum tempo o frio já não era os músculos da perna do peru, era dentro das minhas mãos, dentro dos meus dedos, nos ossos e na carne.
Talvez esse frio cortante haja contribuído para que eu me relembrasse do que já muitas vezes pensara do indesejável na vida do homem: esta necessidade premente de comer.
Então, na altura em que descarnava o osso, como se estivesse a ver-me - de fora - dependente daquele alimento - pensei, senti, a angústia de não ser eu diferente, mesmo o horror por estar submetido, para viver, à condição: tens que comer! O que eu não daria, os séculos que não desejaria transpor de um salto, para não estar submetido à atroz sentença: tens que comer! Ah! poder um dia não comer! viver finalmente livre dessa premente condição imposta pela natureza. Ah! poder um dia, em vez de a vida me dizer incessantemente: Come! Vai comer!, dizer: Outrora comia porque tu querias, agora como, apenas, se quero, Ó Vida; agora como apenas e só por capricho! Por capricho!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

o símbolo do ânimo invencível foi El Sr Dom Quixote

Miguel de Cervantes escreveu o Dom Quixote em contraste aos cavaleiros heróis da altura- na verdade nos livros de aventuras escritos na época eles sempre saiam ganhadores em todas as batalhas, enquanto o nosso amado Dom Quixote saia delas sempre moído e sovado! Mas caso esmorecia? ou perdia o ânimo? - ou chorava? - Não. Até mesmo quando perdeu os dentes e dá em pedir ao Sancho que lhe meta os dedos na boca para que os apalpe e lhe diga com quantos ficou. Dom Quixote não chorava, Sancho sim; uma vez foi de felicidade - quando voltou a encontrar o burro, porque andara dele afastado semanas.
A grande lição do Dom Quixote é a constância na luta, no pelejar pelo ideal de endireitar o mundo, sempre de espírito animado e idealista! - Por isso gostamos dele - Está sempre a ser derrotado mas nunca desiste! e não se culpa pelas suas derrotas, culpa os magos que não lhe querem dar o prazer de sair vencedor! É um louco! mas é um louco feliz!, enquanto os sãos de espírito, como o é Sancho, andam sempre a queixar-se e a dizer mal da vida!
No Diário de Dostoiewski releio que a melhor resposta que poderíamos dar a quem desconhecesse o que é o Homem, era oferecer-lhe o Dom Quixote a ler!...
Aproveito o ensejo para contar-vos uma das muitas piadas que colhi da leitura de Dom Quixote; referia haver um pintor de Aveleda tão bom a na arte de pintar que, para despistar dúvidas, sempre que pintava um galo escrevia por baixo - Isto é um galo!

domingo, 13 de novembro de 2011

amor / desamor

Somos todos muito parecidos no que concerne ao valor que damos a nós próprios - pouco - quase sempre racionalizando segundo a apreciação dos outros; temos a grande virtude, ou defeito de não sabermos quem somos, quero dizer de perdermos as nossas referências mais íntimas, quando o nosso coração nos lembra constantemente alguém; deixamos simplesmente de procurarmos o que antes procurávamos, as nossas predilecções, coisas, pessoas; na verdade esquecemo-nos de nós. É certo que o tempo, através dos lancinantes golpes das desilusões, ou da satisfação advinda da realização dos nossos desejos, nos faz retomar ao equilíbrio emocional – então, voltamos a ser outra vez nós, acompanhados ou sós.

a dor de corno, um insulto à vida

…ele acordava muitas horas antes da hora costumada. A avó comentava para os pais: o meu neto anda triste!
… a razão da sua tristeza chegara-lhe por telefone pela voz da namorada… uma notícia, um acontecimento de todo indesejável!... um acto leviano perpetrado pela própria com o ex dela…
… sem anticorpos para aquela visão – o prazer dela com outro – sofreu para burro! – nos primeiros dias e nos seguintes - sem saber como se livrar da angústia…
… depois do acumular de algumas noites de mau sono, a angústia começara a notar-se mais; ainda assim preferia caminhar pelas calçadas moendo e remoendo a dor do seu enorme desgosto a deixar-se ficar em casa…
… no decurso de um desses passeios solitários avistou um artista conhecido. O cantor ribatejano Pedro Barroso. Estava sentado a uma mesa na esplanada dum restaurante com a sua cara-metade, a comer ostras. Dirigiu-se-lhe, cumprimentou-o. Mas sem conseguir esconder o seu estado de espírito, começou a lamentar-se, confessando-lhe a razão da sua enorme tristeza…
Vendo-o tão triste e pesaroso! o cantor disse-lhe num tom de reprovação…
- O seu comportamento, assim, é um insulto à vida!

Ouvir-lhe dizer aquelas palavras fizera-lhe bem, mas não o curaram; a dor de corno perturbava-lhe o sono como uma dor de dentes – o corno estava cariado e doía fundo na raiz. O abcesso deformara-lhe o espírito - tornar-se alguém que não conhecia, um estranho para si mesmo. Sofria! Chegou mesmo a cogitar num acto de vingança, que não seguiu por o associar a feitos vergonhosos de gente insana e fraca de espírito; apesar de sentir-se como um demente não se considerava um.