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terça-feira, 17 de junho de 2014

o começo da amizade de Sólon com Anacarsis

...desde tenra idade os outros sempre me despertaram extrema curiosidade.
 não sentia qualquer dificuldade em tocar nas pessoas, em falar-lhes, em perguntar-lhes qualquer coisa. Eu não precisava de conhecê-las para as conhecer; eu ia ter com elas, e elas diziam-me bubu, e bibi e eu percebia-as. E mesmo sem saber falar eu falava-lhes, e elas começavam a ficar felizes... 
Mas hoje se vou ter com alguém que não conheça já ninguém me diz bubu nem baba e olham para mim como se eu já não fosse criança; eu sei que mudei muito, mas eu não mudei nada; e se por acaso me aproximo das pessoas que não conheço elas olham-me agora com uma cara de espanto, como se eu não devesse estar ali; e, infelizmente, da expressão dos seus rostos transparece de imediato a falta de uma explicação.
E não poderia ser de outra maneira.

A exigência de explicações para actos inusitados são tão antigas quanto o homem; o homem há muito que está desacostumado que se abeirem dele, por isso pede explicações a quem o faz. 
Plutarco diz-nos que uma vez um dos sete sábios da Grécia, Anacarsis, tendo visitado Atenas, foi a casa de Sólon, legislador de Atenas. Este depois de Anacarsis ter batido à porta quis uma explicação. Anacarsis anunciou-se como um estrangeiro que ia unir-se a ele pelos laços da amizade e da hospitalidade. A explicação de Anacarsis não agradou Sólon, que lhe respondeu:
 «Mais vale procurar amigos em sua própria casa que procurá-los fora.» 
Retrucou-lhe Anacarsis:
 «Pois bem! visto que estais em vossa casa, fazei então de mim vosso amigo e hóspede.»
Se o espírito de Anacarsis quis manifestar-se pela vivacidade da sua pronta resposta, o de Sólon também não se deixou de manifestar - pela pronta hospitalidade concedida. Se não fora a beleza de Anacarsis razão para que Sólon anui-se ao convite de amizade, que outra poderia ter sido senão a beleza das palavras, reflexo da do espírito? 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Marcel Proust 2, por Alexnietzsche

"(...)Quando Françoise, à noite, se mostrava gentil comigo, e me pedia licença para se sentar no meu quarto, parecia-me que seu rosto se tornava transparente e que nela eu lia a bondade e a franqueza. Mas Jupien, (...) revelou-me posteriormente que ela dizia que eu não valia a corda para me enforcar e que procurara lhe fazer todo o mal possível. Estas palavras de Jupien mostraram-me logo (...) que não é só o mundo físico que difere do aspecto sob o qual o vemos; (...) fiquei aterrorizado. E, só se tratava de Françoise, a criada, com quem pouco me preocupava. Seria assim em todas as relações sociais? E até que desespero poderia isso levar-me um dia, se o mesmo ocorresse no amor? Por enquanto apenas se tratava de Françoise. (...) O fato é que percebi a impossibilidade de saber de modo direto e seguro se Françoise me amava ou detestava. E assim, foi ela a primeira a me dar a ideia de que uma pessoa não é, como o acreditara, nítida e imóvel diante de nós com suas qualidades, seus defeitos, seus projetos, suas intenções para connosco (...) e sim uma sombra onde jamais podemos penetrar, para a qual não existe conhecimento direto, a respeito de quem formamos numerosas crenças com o auxílio de palavras e até mesmo de ações, umas e outras nos dando apenas informações insuficientes e, aliás, contraditórias, uma sombra onde podemos alternadamente imaginar, com a mesma verosimilhança, o ódio e o amor."
Marcel Proust, in O Caminho de Guermantes

... e porquê falar agora de Münster?, porque foi a cidade onde li e sublinhei esta página, saudades de Proust e de Münster invadem-me não raro o coração!!!

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Marcel Proust, por Alexnietzsche

amigos leitores se houvesse oportunidade para uma conversa alusiva a uma página de O Caminho de Swan, abriria o livro e haveria de pedir-vos atenção para ouvirdes este parágrafo:
"(...) uma coisa veio mudar uma vez mais, e bruscamente, o modo como se apresentava todas as tardes, pelas duas horas, o problema do meu amor. Descobrira o Sr. Swann a carta que eu havia escrito a sua filha Gilberta?, ou ela não fazia mais que confessar-me, (...) um estado de coisas já antigo? Como eu lhe dissesse quanto admirava os seus pais, tomou aquele ar vago, cheio de reticências e de segredo, de quando lhe falavam no que tinha para fazer em seus passeios e visitas, e acabou por dizer: «Pois não sabes? Eles não podem tragar-te» (...)

Os seus pais, o Sr. e a Srª Swann, não pediam a Gilberta que deixasse de brincar comigo, mas prefeririam que aquilo não tivesse começado. Não encaravam bem as minhas relações com ela, não me atribuíam grande moralidade e imaginavam que eu só poderia exercer má influência em sua filha. Essa espécie de rapazes pouco escrupulosos com quem Swann me julgava parecido, imaginava-os eu como sujeitos que detestam os pais da moça a quem amam, adulam-nos quando estão presentes, mas zombam deles com ela, induzem-na a desobedecer-lhes, e, uma vez conquistada a filha chegam até a impedir-lhes que a vejam." A esses desprezíveis e imaginados traços uns outros reais havia em meu coração, que me defenderiam de tais enganos quanto à nobreza do meu carácter; eu tinha para com o Sr. Swann um coração animado de sentimentos tão sinceros e apaixonados que, se ele os suspeitasse, ter-se-ia arrependido do seu julgamento a meu respeito."Tudo quanto sentia por ele, ousei dizer-lhe numa longa carta que dei a Gilberta, pedindo-lhe que lha entregasse. Ela consentiu dar-lha. Ai de mim! Ele considerava-me muito mais impostor do que eu supunha; aqueles sentimentos que eu julgara ter descrito com tanta fidelidade, em 16 páginas, pusera-os ele em dúvida; a carta que lhe escrevi tão ardente e tão sincera, não obtivera maior êxito. No dia seguinte, Gilberta, contou-me que, ao ler a carta seu pai erguera os ombros, dizendo: "Isto tudo não tem significação alguma." E eu, que conhecia a pureza das minhas intenções e a bondade da minha alma, indignei-me de que as minhas palavras não houvessem causado a mais leve mossa no absurdo engano do Sr. Swann. Tinha a sensação de haver descrito tão exactamente os meus sentimentos de generosidade que, se depois disso ele não os havia sabido reconstituir e ao ponto de ver que deveria pedir-me perdão, confessando que se havia enganado, era porque nunca sentira esses nobres sentimentos - o que devia incapacitá-lo para os compreender nos outros."
Marcel Proust, in Em Busca do Tempo Perdido.

terça-feira, 11 de março de 2014

Os melhoradores da Humanidade, por Nietzsche

"(...)
Em todos os tempos se quis «melhorar» os homens: a isto sobretudo foi a que se deu o nome de moral. Porém sob a própria palavra escondem-se as tendências mais díspares. Tanto a domesticação da besta homem como a criação de uma determinada espéçie de homem foram chamadas «melhoramentos»: só estes termini zoológicos expressam realidades, - realidades, certamente, das quais o «melhorador» típico, o sacerdote, nada sabe - nada quer saber.. Chamar à domesticação de um animal o seu «melhoramento» é algo que a nossos ouvidos nos soa como uma ironia. Quem sabe o que acontece nos circos de feras põe em dúvida que neles a besta seja «melhorada». É debilitada, é feita menos perigosa, é convertida, mediante o efeito depressivo do medo, mediante a dor, mediante as feridas, mediante a fome numa besta enfermiça. - O mesmo acontece com o homem domado que o sacerdote «melhorou». Na Alta Idade Média, quando de facto a Igreja era sobretudo um circo de feras, dava-se caça em todas as partes aos mais belos exemplares da «besta loura» - «Melhoraram-se», por exemplo, os aristocráticos germanos. Porém, que aspecto oferecia logo esse germano «melhorado», levado enganosamente para o mosteiro? O de uma caricatura de homem, o de um aborto: havia sido convertido num «pecador», estava metido na jaula, havia sido encerrado entre conceitos todos eles terríveis... Ali jazia agora, enfermo, murcho, odiando-se a si mesmo; cheio de ódio contra os impulsos que incitam a viver, cheio de suspeitas contra tudo o que continuava a ser forte e feliz. Em suma, um «cristão»... Dito fisiologicamente: na luta com a besta o pô-la enferma pode ser o único meio de debilitá-la. A Igreja entendeu isto: deitou a perder o homem, debilitou-o - porém pretendeu tê-lo «melhorado»...

3.
Tomemos o outro caso da chamada moral, o caso da criação de uma determinada raça e espécie. O mais grandioso exemplo disto oferece-no-lo a moral hindu, sancionada como religião no «Código de Manu» . A tarefa aí exposta consiste em criar ao mesmo tempo nada menos que quatro raças: uma sacerdotal, outra guerreira, uma de comerciantes e agricultores, e finalmente uma raça de servidores, os sudras. É evidente que aqui não nos encontramos já entre domadores de animais: uma espécie cem vezes mais suave e racional de homens é o pressuposto para conceber sequer o plano de tal criação. Vindo do ar cristão, um ar de enfermos e de cárcere, respira-se aliviado ao entrar neste mundo mais são, mais elevado, mais amplo. Que miserável é o «Novo Testamento», comparado com Manu, que mal que cheira! - Porém também esta organização tinha necessidade de ser terrível, - desta vez não na luta com a besta, mas sim com o seu conceito antitético, com o homem-não-de-criação, o homem-mestiço, o chandala. E, de novo, essa organização não tinha nenhum outro meio para fazê-lo inócuo, para torná-lo débil, que pô-lo enfermo, - pois era a luta com a «maioria». Talvez nada choque mais a nossa sensibilidade que estas medidas preventivas da moral hindu. O terceiro edicto, por exemplo (Avadana-Sastra I), o de «os legumes impuros», prescreve que o único alimento permitido aos chandalas sejam os alhos e as cebolas, em atenção a que a Escritura Sagrada proíbe dar-lhes grão ou frutos que tenham grãos, dar-lhes água ou fogo. Esse mesmo edicto estabelece que a água de que necessitem não a tomarão nem dos rios nem das fontes nem dos tanques, mas unicamente dos acessos aos charcos e dos buracos feitos pelas pisadas dos animais no chão. Do mesmo modo se lhes proíbe lavarem as suas roupas e lavarem-se a si mesmos, posto que a água que generosamente se lhes concede só é lícito utilizarem-na para aplacar a sede. Finalmente, proíbe-se às mulheres sudras assistirem no parto às mulheres chandalas, e ainda se proíbe a estas últimas assistirem-se mutuamente em tais circunstâncias... - O êxito de tal política sanitária não tardou a fazer-se sentir: epidemias mortíferas, doenças sexuais terríveis, e, em consequência disso, de novo, «a lei do cutelo», que prescreve a castração para os rapazinhos, a amputação dos lábios menores da vulva para as meninas. O próprio Manu disse: «os chandalas são fruto do adultério, incesto e crime (- esta é a consequência necessária do conceito de criação). Como vestidos terão só os trapos dos cadáveres, como vasilha, potes rachados, como adorno, ferro-velho, como culto, só os espíritos malignos; vaguearão sem descanso de terra em terra. É-lhes proibido escrever da esquerda para a direita e servir-se da mão direita para escrever: o emprego da mão direita e da escrita da esquerda para a direita está reservado aos virtuosos, às pessoas de raça».

A moral da criação e a moral da domesticação são completamente dignas uma da outra nos meios para se imporem: é-nos lícito assentar como tese suprema que, para fazer moral, é preciso ter a intenção firme do contrário. Este é o grande problema, o inquietante problema atrás do qual eu andei durante mais longo tempo: a psicologia dos melhoradores da humanidade. Um facto pequeno e, no fundo, modesto, o da chamada pia fraus proporcionou-me o primeiro acesso a este problema: a pia fraus, património de todos os filósofos a sacerdotes que «melhoraram» a humanidade. Nem Manu, nem Platão, nem Confúcio, nem os mestres judeus duvidaram jamais do seu direito à mentira. Não duvidaram dos seus direitos completamente diferentes… Expressando-o numa fórmula seria lícito dizer: todos os meios com que pretendeu até agora tornar moral a humanidade foram radicalmente imorais. "
 Nietzsche, in CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS

segunda-feira, 3 de março de 2014

Os Russos que amo e desprezo!

A luta pelo poder retratou a luta pela vida, sem qualquer critério ético ou moral, sem qualquer valor pela vida do outro. Mas entre os homens civilizados ela não tem mais lugar!... e será perseguida pela lei!! jamais a desumanidade para com o próximo ilibará líder politico algum dos seus crimes!...  Acreditemos em futuros julgamentos como os houve em Nuremberg... façamos por eles!!
A minha admiração pelos Russos começou com Gogol e Dostoievski, o meu desprezo com Estaline e todos os seus seguidores!!...
Quanto mais se avança no relógio da História maior deveria ser o avanço ético moral no que concerne à vida do outro, o bem supremo, o bem comum!, por isso mais custa perdoar os algozes de hoje que os do passado! - a Justiça tarda!!

domingo, 16 de fevereiro de 2014

...os dias felizes em Münster...

  num dia de Outubro, cedo, pouco depois do nascer do sol, caminhava pela Hammerstr quando fui surpreendido e alegrado por um esquilo que, ágil e apressado, descia pelo tronco de uma majestosa árvore; o fruto, havia antes caído e foi rápido em linha recta que ele a ele se dirigiu. Apanhou-o com as patinhas pequenitas, levou-o aos dentes, olhou em várias direcções, depois, acto contínuo, correu para o tronco de outra árvore e subiu-o veloz. Via-o sobre um ramo com o fruto na boca meio encoberto pela ramagem. Ficou ali como que se esperasse que lhe tirassem uma fotografia, depois rápido escondeu-se. Eu perscrutava-o entre aquele emaranhado de ramos e folhas, na esperança de vê-lo. Mas nada, nem sombra.
Sem esquilo, o desalento fez-me decidir a não ficar ali especado a olhar para um esquilo que não via; depois, pensei «se continuar o meu passeio haverei de observar outros noutras árvores»; de facto as árvores eram todas grandes o suficiente para albergar muitos esquilos iguais àquele que eu tanto desejara continuar a ver... Na verdade Münster estava ornamentada de coisas que continuar a vê-las não cansava - as árvores, as aves, os esquilos, as cores das ruas...

  Apresento-vos agora, Marckus Woestmann, o estudante de Filosofia de cabelo ruivo vermelho.
 Eu tocara à campainha do edifício residência de estudantes Universitários dos mais variados países; procurava portugueses. E enquanto esperava que me viessem abrir a porta esta abriu-se e Marckus apareceu. Reconheci de imediato nos traços da sua fisionomia o nobre carácter, a simpatia. Falávamos um com o outro pela primeira vez, mas o modo como falávamos traduzia uma amizade de anos. Alguém que nos visse pensaria: dois velhos amigos. Disse-lhe ser português e filho da mãe Literatura. A esta confissão mostrou-se muito surpreso; perguntou «Mas porque gostas de Literatura?» para melhor lhe responder reformulei a pergunta «O que há de interessante na Literatura digna do nosso tempo?» A resposta exigia que lhe lesse todos os livros que havia lido, ou que discorresse acerca do bem dessas variadas emoções que só a leitura me proporcionara.
 - A Literatura - disse-lhe - é rir, é chorar, é olhar as árvores, é descobrir, é...  - Inteligente como só os raros, influiu que ia dizer… é espírito.
 Perguntou-me se eu não queria dar um passeio com ele; aceitei. Fomos pelos caminhos castanhos que circundavam o lago. De vez em quando éramos ultrapassados por quem na altura concedia ao corpo o supremo bem que advém de correr.
- Correr é nobre, não achas? - perguntei.
- Sim, denota manifestamente uma preocupação com o corpo e com a mente. (...)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

a alteração de humor em consequência de uma rajada de vento

A palavra vento traz-me à memória a ultima noite de Verão do ano de 1998. Fazia uma passeata perto da Bahnhof de Münster, quando, surgindo do nada, vi um indivíduo muito mal trajado vir ao meu encontro. Nessa altura eu já havia perdido os complexos de falar com os vagabundos e as prostitutas; aos primeiros, caso me pedissem algo, oferecia-lhes um pão embrulhado em  palavras fraternas, às últimas falava-lhes sem vergonha alguma de ser visto na sua companhia; era ele um sem-abrigo que outrora viajara por toda a Europa. O que ele me pedira eu não tinha, mas o que eu pensava que não tinha para ele, tinha-o de facto, tempo, afecto até. Ouvia-o e falava-lhe, quando, bem perto, passou, por nós, um homem muito bem vestido - era um Sr. de negócios com a sua malinha na mão. Aproveitando a proximidade, ele pediu-lhe uma esmola, mas em em má hora o fez - O Sr. executivo nem sequer se dignou olhá-lo; foi horrível!
Apercebi-me depois, com o decorrer da conversa, o vagabundo ser pessoa sensível e inteligente; lembro-me vestiamos Tshirts de manga curta quando súbito soprou uma rajada de vento frio que me gelou os braços -  senti pela expressão do vagabundo uma alteração de humor no seu estado de espírito - ficou mais apreensivo! e apercebendo-se ele que eu notara tal, explicou-se:
Há anos atrás  - contou-me - num dia de Outubro, diante das águas calmas do lago senti uma rajada de vento destas levar-me a alma!...
ah pensei, «a rajada de vento frio anunciou-lhe o término definitivo do Verão.»
  (...)Senti fome e voltei a casa, entrei pelas traseiras. Na cave da casa de Frau Baak havia por cima das prateleiras de muitos armários, víveres, frascos de compotas, latas de conserva, muitas das quais com mais de 20 anos, cujos prazos de validade haviam há muito expirado. Sim, já me haviam dito que Frau Baak, a septuagenária, enchera a cave de víveres com medo da fome, mas ouvir tal não me causara grande impressão; foi preciso ver, tocar naqueles frascos frios cobertos de pó...

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

aos meus leitores da Califórnia a New Jersey sem esquecer nenhum

… no sonho de haver entre vós alguns mui ilustres seguidores de tudo o que já escrevi e possa vir a escrever escrevo-vos e escrever-vos-ei de novo. Que melhor sonho poderia acalentar? haver no mundo quem me preze pelas palavras? Sabei, se assim fordes, de meu verbo seguidores, um pouco também do meu ser sereis! Quantas vezes eu em idade jovem ao descobrir um autor que de sua obra gostasse me propus procurá-la a fim da lê-la completa?… foi assim com Dostoievsky com Nietzsche com Cervantes com Proust com Henry Ibsen …
    Soube hoje. Tenho leitores na Califórnia e muitos outros espalhados pelo globo,  - vieram dar-me essa noticia -  um dia sem que tu peças  serás traduzido - a arte das tuas palavras haverá de chegar a quem a aprecie - e melhor que isso, quiçá um dia algumas das tuas construções frásicas transponham a gravidade terrestre e façam luz a um novo homem, envolto pela escuridão do espaço interplanetário!
Já me alegraria ter a prova que as minhas palavras voam de avião… julgo isso possível!, imprimam na Califórnia em New Jersey em São Paulo e venham com elas para Lisboa caros estrangeiros caros conterrâneos.
Inevitável; escrevi estrangeiros e logo a lembrança viajou para "O Estrangeiro" de Albert Camus… Que lição ele nos dá logo no inicio do livro! Permita-me que possa partilhá-la convosco leitor, leitora, são só umas frases, poucas:
 “Hoje, a mãe morreu. (…) Pedi dois dias de folga ao meu patrão e, com uma razão destas, ele não mos podia recusar. Mas não estava com um ar lá muito satisfeito. Cheguei mesmo a dizer-lhe: «A culpa não é minha.»

Interessante! ocorreu-me agora ao pensamento por associação ao livro o Estrangeiro - esta memória - pelo passeio subia uma rua sempre a descer para quem comigo se cruzava, e súbito, uma montra cheia de livros -  e lembrei-me do demónio que segredou ao ouvido de Nietzsche para entrar!… então de tão cativado ser por livros transpus a porta ... lá dentro, em frente das estantes cheias de livros e livros, alguns de autores desconhecidos li na lombada O Estrangeiro e um outro O Assim Falou Zaratustra… capas grossas!... e imaginem a preços módicos… comprei-os, claro! Quando, já em casa os colocava ao lado dos meus outros, questionei-me  «Ficais agora comigo por quantos anos?, depois que morrer onde ireis parar? Irão os meus filhos vender a minha biblioteca, o meu maior património, ao desbarato?,e pior que isso, deitá-los ao lixo… oh deusa Minerva não permitíeis tal afronta!...

… ainda sobre livros, conversava com uma jovem, e sem assunto sobre do que falar, questionei-a se gostava de ler livros, ao que ela me respondeu, “ para você ser inteligente não precisa ter muitos livros!”… eu fiquei apreensivo – até que lhe respondi «para tê-los sim, não preciso ser inteligente, mas para lê-los preciso, preciso de sê-lo!
... Hoje, a minha colega Paula falava à Élia – ontem nem movias os olhos, vinhas cá com uma moca, que droga de comprimido tomaste?!!! Mas hoje estás melhor, vê-se!!
 Disse-lhes eu (para a Élia):
- Precisas de sair da tua esfera de pensamentos, precisas de conviver, de te distrair
- O que mais me distrai é o trabalho!
– Élia, uma vez, um médico prescreveu-me ir ao cinema!, e realmente o cinema fazia-me bem, aliás ainda faz!, sabes Élia a arte tem um efeito muito benéfico, terapêutico mesmo!, preenche-nos no vazio!
- mas eu não sou como tu, não gosto dessas poesias que tu lês - (nessa altura, eu não parava de recitar o verso “A minha cabeça estremece com o todo o esquecimento, procuro dizer como tudo é outra coisa!...”
– mas ó Élia, a arte não é só a poesia. A arte é a musica a dança o teatro a pintura o cinema. Diz-me já pensaste, porque é que os ricos se fizeram sempre rodear pela Arte? Queres saber? porque senti-la lhes fazia bem!... É do que precisas, e agora ainda mais, por que confessas estar desiludida com a vida! sabes, nunca como hoje a Arte esteve tão ao alcance do cidadão comum. Ainda ontem revi os soberbos filmes de Claude Berri: Jean de Florette e Manon des Sources… Falar-te deles Élia, revelá-los, revelar-tos, é dar-te um prémio, aceita-o!...

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Nietzsche e o amor!

"As paixões se tornam más e pérfidas quando são consideradas com maldade e perfídia. Foi assim que o cristianismo chegou a fazer de sublimes forças capazes de idealidade, de Eros e de Afrodite, génios infernais e espíritos enganadores, criando na consciência dos crentes, a cada excitação sexual, remorsos – que a alguns levaram até a loucura. Não é espantoso transformar sensações necessárias e normais em fonte de miséria interior; e assim, voluntariamente, tornar a miséria interior necessária e normal em todos os homens? Além disso, essa miséria permanece secreta, mas ela não tem senão raízes mais profundas: pois, nem todos têm, como Shakespeare em seus sonetos, a coragem de confessar a tristeza provocada pelo cristianismo nesse domínio.
(...)Tem-se o direito de chamar inimigo a Eros? As sensações sexuais, da mesma forma que as sensações de piedade e de adoração, têm de particular que o homem, ao experimentá-las, faz o bem a outro por seu prazer — não se encontra muitas vezes na natureza disposições tão benfazejas! E é justamente uma delas que é caluniada e que é corrompida pela má consciência! — Mas essa demonização de Eros acabou por ter um desfecho de comédia: o “diabo” Eros se tornou aos poucos mais interessante para os homens do que os anjos e os santos, graças aos boatos e as disposições misteriosas da Igreja em todas as questões eróticas: é graças a ela que as histórias de amor se tornaram o único interesse verdadeiramente comum a todos os meios — com um exagero que pareceria incompreensível à antiguidade — e que um dia não deixará de provocar a hilaridade. (Já provoca!) Todo o nosso pensamento, do mais elevado ao mais baixo, estão marcados e mais que marcados pela importância excessiva que se confere aos comportamentos relacionado com o amor, apresentado sempre como acontecimento principal. Talvez por causa desse juízo a posteridade haverá de encontrar em toda a herança da civilização cristã alguma coisa de mesquinho e de maníaco. “
Nietzsche, in Obras Completas de Nietzsche –
Texto revisto por Alexnietzsche, no intuito de melhorar um bocadinho o português das traduções, sem desvirtuar o original.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Capitan Phillips x Robert Kennedy


 Enoja! tresanda ao cheiro da violência a "Justiça" americana de tão severa - 33 anos de cadeia para o ingénuo líder dos piratas. E mais 3 homicídios!! 3!! - O poder da força das armas sobre a pobre mediocridade - Os ilustres profissionais americanos ohh tão inteligentes são!! na pressa de matar!!! - sem direito a julgamento!!! - que piedosos! que misericordiosos! - são ainda piores que o Javert dos Miseráveis! Não se entende mesmo qual é o propósito do filme - mostrar que os Americanos matam sem escrúpulos? Já o sabíamos! - será este o modelo de justiça que Robert Kennedy desejou  para a América??? - de onde retiraram este modelo? do Antigo Testamento? - ninguém salvaria este filme da critica nem o Tom Hanks!! se há histórias baseadas em factos verídicos imerecedoras de serem passadas para o cinema, está é uma delas! enfim, lamentamos, mais um filme para esquecer, de tantos lugares comuns e de tão nacionalista!!

que contraste com este excelente filme
http://www.dailymotion.com/video/xkzf6m_kennedy-is-shot_shortfilms

e este discurso http://www.youtube.com/watch?v=GoKzCff8Zbs