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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

obedecer ou não obedecer eis a questão


Sem regras – dizem - Sem regras não passamos de selvagens; mas urge avisar: Cuidado!, a obediência às regras não nos isentará de responsabilidades - podemos em consequência da "boa obediência" virmos a ser punidos por havermos praticado actos de selvajaria!... Quantos povos, quantas pessoas não massacraram barbaramente o próximo, o seu semelhante, no cumprimento das regras?, que nos difere dos Nazis, e dos russos Estalinistas quando no cumprimento cego das regras prejudicamos seriamente alguém? – para nos inocentarmos, passamos a responsabilidade para a hierárquico superior, e dizemos: estávamos a cumprir ordens! – querendo com isso desresponsabilizar-mo-nos, mas deveríamos antes querer legitimar que todos os nossos actos nos responsabilizam, todos, quer os voluntários quer os ordenados pela hierarquia!, em síntese, somos igualmente selvagens quando, virando as costas à ética, aceitamos a selvajaria dissimulada sobre a fachada das regras e, sem quaisquer escrúpulos, nos tornamos os seus agentes.

A selvajaria pode ser maior ou menor, conforme o gravidade do mal que causa; o mais pequeno dos males que alguém causa a alguém, é, será sempre, um acto de selvajaria!

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A mandioca, o Carnaval e os anjos celestiais!!

      A professora pedira aos meninos para ler em casa um texto alusivo ao Carnaval e, para incentivá-los ao cumprimento desse dever, o da leitura, dissera-lhes que quem lesse o texto até ao fim acharia nele uma recompensa; ficaram por isso os meninos intrigados sobre qual seria.
- Srª Professora diga-nos. Qual é a recompensa?
- Ai isso é que não vos digo!, se vos digo perde a graça e vocês já não leriam!
- Leríamos sim!
- Meus queridos, saberão todos que ler já por si é uma recompensa, na medida em que é um exercício racional, mas quanto a este texto garanto-vos que vão ter uma outra acrescida! Entenderam?
- Um dos meninos - o Luis - disse que sim, mas um outro disse:
- Não.
- O Luís entendeu, e vai fazer o favor de te explicar por outras palavras…
 (Luís virado para o Pedro)
- Pedro, ler faz-nos bem como jogar à bola! É um exercício! A outra recompensa deve ser marcar um golo! (riu-se)
- É mais ou menos isso! Quem ler tudo até ao fim vai achar a outra recompensa. Agora não me perguntem qual?...
Os catraios (os guris) estavam verdadeiramente intrigados a olhar para as duas folhas A4 cheias de palavras; eu mesmo também fiquei intrigado… mas, quando cheguei a casa, atirei a mala para cima da cama e nunca mais me lembrei do dever escolar… 
Aconteceu  que no dia seguinte, em consequência do meu completo esquecimento, ser um dos poucos a não saber nada sobre a recompensa! Ouvia os meus colegas falarem uns com os outros referindo-se à recompensa, rindo-se…
- Leram o texto?
- Lemos sim! – gritaram os meus colegas no meio de muitas risadas
- Quem é que não leu?
Eu levantei o braço!...
- Quem mais não leu?
Levantaram o braço mais uns tantos!...
 - Vamos então ler em voz alta, para todos ouvirem. João retire a mão da cara, olhe a postura! Sente-se direito. Faça-nos o favor de ler. Em voz alta. Leia o título também.
O João não lia mal; tinha o costume de pigarrear a voz antes de ler ...
QRQRQRRRRR QRQRQRRRR
« O DISFARCE!
O professor havia pedido aos seus alunos disfarces de Carnaval, e ficara combinado deixarem-nos dentro de uma caixa de papelão; por isso o barulho e a azáfama em volta da caixa era grande; queriam ser os primeiros a deixar na caixa o seu disfarce e a ver os dos outros.
- Vá chega!, Vão sentar-se! – ordenou o professor, incomodado pela gritaria infantil!
De imediato todos procuraram o lugar para se sentar. Todos menos Edú Nassim, o guineense; ele aproveitara a confusão para informar o professor sem ser ouvido pelos outros…
- Esqueci-me de trazer a fantasia de Carnaval
- Não faz mal Edú. Vai para o teu lugar!
  O esquecimento de Edú tinha uma razão. Os pais tinham vindo da Guiné Bissau, e passavam por algumas dificuldades… Um kilo de farinha de mandioca para os pais de Édu tinha prioridade sobre qualquer disfarce…»

 Os alunos atentos à história riram-se; perguntaram depois o que era uma mandioca, e dois houve que por estarem distraídos perguntaram ao colega do lado sobre o quê que riam…

O professor explicou que uma mandioca era uma raiz muito maior que uma cenoura com uma casca castanha escura e toda branca por dentro. Depois, elogiou a dicção do pequeno leitor e pediu a um outro aluno para ler a parte que faltava… (continua…)

«A mãe de Edú pensara comprar-lhe uma coroa de rei para fazer jus ao nome Nassim, mas não passou dai, do pensamento…

O professor poderia aproveitar-se da desculpa de Edu para dar uma lição de moral sobre o esquecimento, mas não o fez, seria imoral, não acham?
Com 3 grandes passos chegou-se perto da caixa e enfiou os braços que desapareceram no meio dos disfarces; agarrou em todos de um vez e pô-los sobre duas mesas. Havia disfarces e máscaras para todos os gostos. Havia um alusiva ao livro do Alexandre Dumas, Os três Mosqueteiros, outra ao famoso cavaleiro da Triste Figura, uma com uma mascarilha e uma capa negra era a do Zorro, havia a dum coelho – o da Alice no pais das Maravilhas – havia a do pirata da barba Azul, e a do Capitão Ahab, mas de todas, a mais cobiçada pelos rapazes foi a do Homem Aranha… todos estavam muito animado, menos Edú, ele continuava sentado, sem querer participar na distribuição das fantasias…
 Vendo-o cabisbaixo, o professor chamou-o.
- Vem cá Édu.
O Édu levantou-se relutante, como se fosse pedir sopa uma segunda vez!»

- Sopa?? – questionou um aluno
- É referente ao Oliver Twist, não é professor?
- Sim é. Alude a uma das passagens mais famosas do Oliver Twist. (virando-se para o leitor) Continua!
«Queria escapulir-se, receava o pior!, estava naquela escola fazia pouco tempo e ainda não se habituara a estar no meio dos branco.
 A máscara a capa e o chapéu do Zorro está fora de questão, pensou o professor, perder-se-ia o efeito do contraste.
 - Quem quer ser o Zorro?
 - Eu não me importo de fazer de Zorra! – disse a Carminda; ela sabia aproveitar as deixas…
    Com o olhar na caixa, antes que as fantasias fossem todas distribuídas e o Édu ficasse sem uma, o professor, retirou umas asinhas acinzentadas, de penas ganso, procurou ainda a aljava e a flecha mas delas nem a sombra. A ideia era que Edu se tornasse um orgulhoso cupido guineense!, mas gorada essa hipótese esperava que com as asinhas o vissem anjo, disfarçado de anjo!!   Vestiu-lhes as asas!! e perguntou à turma:
- Digam-me o que é que o Édu vos faz lembrar, não vos parece mesmo um… digam, digam!
  Edu chateado achou por bem mover os braços, as asas mexeram-se por isso um pouco!
 Carminda viu e disparou!
-  Um morcego!!!
Toda a turma riu!
- Ahhhah ahahaha Edú parece mesmo um morcego!!
- Bate as asas Edú, sais pela janela!!»

Eu conjuntamente com os meus colegas, rimos, depois, fez-se me luz, ah agora sei, era esta a recompensa!

quinta-feira, 19 de junho de 2014

À memória do meu amigo Ribas


O Ribas e os pais moravam numa modesta casa térrea com uma porta no meio de duas janelas viradas para a rua. Havia lá estado uma vez num dia quente de Verão a ajudá-los a transportar coisas antigas do sótão para o quintal, situado nas traseiras da casa. Só me voltei a lembrar desse dia passados que foram 3 anos quando lhe ouvi dizer «o meu falecido pai felicitou-me por teres ido lá a casa, gostou dos teus modos e de saber que eras meu amigo»
A satisfação cobria-lhe o rosto mais por ter alegrado o pai que por ter recebido a sua aprovação. Além do meu comportamento solicito e educado houve um outro factor: o tabaco, ou melhor a aversão ao tabaco; quando ma ouviu manifestar, passou literalmente a ver-me fora dos grupos das más companhias do filho e dos amigos de John Barleycorn, essa informação surtiu o efeito de um bálsamo naquele velho pai sofrido...  
As cortinas brancas não deixavam ver para dentro do quarto, mas a janela, aberta por causa do calor das noites quentes de Agosto, permitia-me ouvi-lo. Cantava alto. Enfiei a cabeça para dentro da janela afastando as cortinas com a mão e ele nem notou. Deitado na cama, de tronco de barriga para cima, olhos postos no infinito do tecto, cantava Zeca Afonso.
“E se um dia houver uma praça de gente madura
E um estátua de febre a arder… "
Deixei-o acabar a canção e chamei-o.
- Ribas!
- Olá... Já vou. Deixa-me só vestir uma camisa...
O rumo era em direcção à casa do nosso amigo comum, o Sr. Bastos onde à noite nos reuníamos para cumprir com imenso agrado o hábito habitual de ouvirmos o Ribas a tocar guitarra e a cantar...  Só depois da actuação, aceitávamos  iniciar as partidas de Xadrez. 
Por vezes o Ribas perguntava-me:
- Não me queres encomendar uma serenata? Só tens que me dizer onde ela mora e escolher a canção, o resto deixa comigo!!
Caminhava lançando as pernas para a frente, dentro de umas calças largas, baloiçando a barriga… 
- Sabes o que eu descobri? ontem à noite?
- Diz.
- Descobri. O Universo está afinado em Lá menor!
-???????????? (o meu espanto era ainda maior que o universo)
- Como ??????
- Estava a cantar. Deitado. A certa altura da canção a cama vibrou debaixo das minhas costas. Eram as molas do colchão, ressoavam. Voltei a cantar e notei que o colchão ressoava sempre na mesma nota. Lá menor.
- Lá menor?
- Sim. O colchão. A cama! As paredes da casa. Alexandre, o Universo está afinado em lá menor. Tudo o que vês. A claridade da lua, o brilho das estrelas... tudo o que está parado e tudo o que se move!

O Ribas de todas as pessoas para quem eu tinha declamado um ou dois versos da minha autoria havia sido o único que me pedia que o declamasse de novo para fruir com verdadeiro prazer da mensagem e das rimas!!
"Gente gentalha que em Deus acreditaste
E o tornaste à vossa imagem, podre e oca  
Com ódios e guerras santas vos elevaste
Mas para com a verdade não abriste a boca (...)

quanto ao resto do poema... esse será só para os meus verdadeiros leitores!! para aqueles que me procuram para ler mais!!


terça-feira, 17 de junho de 2014

o começo da amizade de Sólon com Anacarsis

...desde tenra idade os outros sempre me despertaram extrema curiosidade.
 não sentia qualquer dificuldade em tocar nas pessoas, em falar-lhes, em perguntar-lhes qualquer coisa. Eu não precisava de conhecê-las para as conhecer; eu ia ter com elas, e elas diziam-me bubu, e bibi e eu percebia-as. E mesmo sem saber falar eu falava-lhes, e elas começavam a ficar felizes... 
Mas hoje se vou ter com alguém que não conheça já ninguém me diz bubu nem baba e olham para mim como se eu já não fosse criança; eu sei que mudei muito, mas eu não mudei nada; e se por acaso me aproximo das pessoas que não conheço elas olham-me agora com uma cara de espanto, como se eu não devesse estar ali; e, infelizmente, da expressão dos seus rostos transparece de imediato a falta de uma explicação.
E não poderia ser de outra maneira.

A exigência de explicações para actos inusitados são tão antigas quanto o homem; o homem há muito que está desacostumado que se abeirem dele, por isso pede explicações a quem o faz. 
Plutarco diz-nos que uma vez um dos sete sábios da Grécia, Anacarsis, tendo visitado Atenas, foi a casa de Sólon, legislador de Atenas. Este depois de Anacarsis ter batido à porta quis uma explicação. Anacarsis anunciou-se como um estrangeiro que ia unir-se a ele pelos laços da amizade e da hospitalidade. A explicação de Anacarsis não agradou Sólon, que lhe respondeu:
 «Mais vale procurar amigos em sua própria casa que procurá-los fora.» 
Retrucou-lhe Anacarsis:
 «Pois bem! visto que estais em vossa casa, fazei então de mim vosso amigo e hóspede.»
Se o espírito de Anacarsis quis manifestar-se pela vivacidade da sua pronta resposta, o de Sólon também não se deixou de manifestar - pela pronta hospitalidade concedida. Se não fora a beleza de Anacarsis razão para que Sólon anui-se ao convite de amizade, que outra poderia ter sido senão a beleza das palavras, reflexo da do espírito? 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Marcel Proust 2, por Alexnietzsche

"(...)Quando Françoise, à noite, se mostrava gentil comigo, e me pedia licença para se sentar no meu quarto, parecia-me que seu rosto se tornava transparente e que nela eu lia a bondade e a franqueza. Mas Jupien, (...) revelou-me posteriormente que ela dizia que eu não valia a corda para me enforcar e que procurara lhe fazer todo o mal possível. Estas palavras de Jupien mostraram-me logo (...) que não é só o mundo físico que difere do aspecto sob o qual o vemos; (...) fiquei aterrorizado. E, só se tratava de Françoise, a criada, com quem pouco me preocupava. Seria assim em todas as relações sociais? E até que desespero poderia isso levar-me um dia, se o mesmo ocorresse no amor? Por enquanto apenas se tratava de Françoise. (...) O fato é que percebi a impossibilidade de saber de modo direto e seguro se Françoise me amava ou detestava. E assim, foi ela a primeira a me dar a ideia de que uma pessoa não é, como o acreditara, nítida e imóvel diante de nós com suas qualidades, seus defeitos, seus projetos, suas intenções para connosco (...) e sim uma sombra onde jamais podemos penetrar, para a qual não existe conhecimento direto, a respeito de quem formamos numerosas crenças com o auxílio de palavras e até mesmo de ações, umas e outras nos dando apenas informações insuficientes e, aliás, contraditórias, uma sombra onde podemos alternadamente imaginar, com a mesma verosimilhança, o ódio e o amor."
Marcel Proust, in O Caminho de Guermantes

... e porquê falar agora de Münster?, porque foi a cidade onde li e sublinhei esta página, saudades de Proust e de Münster invadem-me não raro o coração!!!

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Marcel Proust, por Alexnietzsche

amigos leitores se houvesse oportunidade para uma conversa alusiva a uma página de O Caminho de Swan, abriria o livro e haveria de pedir-vos atenção para ouvirdes este parágrafo:
"(...) uma coisa veio mudar uma vez mais, e bruscamente, o modo como se apresentava todas as tardes, pelas duas horas, o problema do meu amor. Descobrira o Sr. Swann a carta que eu havia escrito a sua filha Gilberta?, ou ela não fazia mais que confessar-me, (...) um estado de coisas já antigo? Como eu lhe dissesse quanto admirava os seus pais, tomou aquele ar vago, cheio de reticências e de segredo, de quando lhe falavam no que tinha para fazer em seus passeios e visitas, e acabou por dizer: «Pois não sabes? Eles não podem tragar-te» (...)

Os seus pais, o Sr. e a Srª Swann, não pediam a Gilberta que deixasse de brincar comigo, mas prefeririam que aquilo não tivesse começado. Não encaravam bem as minhas relações com ela, não me atribuíam grande moralidade e imaginavam que eu só poderia exercer má influência em sua filha. Essa espécie de rapazes pouco escrupulosos com quem Swann me julgava parecido, imaginava-os eu como sujeitos que detestam os pais da moça a quem amam, adulam-nos quando estão presentes, mas zombam deles com ela, induzem-na a desobedecer-lhes, e, uma vez conquistada a filha chegam até a impedir-lhes que a vejam." A esses desprezíveis e imaginados traços uns outros reais havia em meu coração, que me defenderiam de tais enganos quanto à nobreza do meu carácter; eu tinha para com o Sr. Swann um coração animado de sentimentos tão sinceros e apaixonados que, se ele os suspeitasse, ter-se-ia arrependido do seu julgamento a meu respeito."Tudo quanto sentia por ele, ousei dizer-lhe numa longa carta que dei a Gilberta, pedindo-lhe que lha entregasse. Ela consentiu dar-lha. Ai de mim! Ele considerava-me muito mais impostor do que eu supunha; aqueles sentimentos que eu julgara ter descrito com tanta fidelidade, em 16 páginas, pusera-os ele em dúvida; a carta que lhe escrevi tão ardente e tão sincera, não obtivera maior êxito. No dia seguinte, Gilberta, contou-me que, ao ler a carta seu pai erguera os ombros, dizendo: "Isto tudo não tem significação alguma." E eu, que conhecia a pureza das minhas intenções e a bondade da minha alma, indignei-me de que as minhas palavras não houvessem causado a mais leve mossa no absurdo engano do Sr. Swann. Tinha a sensação de haver descrito tão exactamente os meus sentimentos de generosidade que, se depois disso ele não os havia sabido reconstituir e ao ponto de ver que deveria pedir-me perdão, confessando que se havia enganado, era porque nunca sentira esses nobres sentimentos - o que devia incapacitá-lo para os compreender nos outros."
Marcel Proust, in Em Busca do Tempo Perdido.

terça-feira, 11 de março de 2014

Os melhoradores da Humanidade, por Nietzsche

"(...)
Em todos os tempos se quis «melhorar» os homens: a isto sobretudo foi a que se deu o nome de moral. Porém sob a própria palavra escondem-se as tendências mais díspares. Tanto a domesticação da besta homem como a criação de uma determinada espéçie de homem foram chamadas «melhoramentos»: só estes termini zoológicos expressam realidades, - realidades, certamente, das quais o «melhorador» típico, o sacerdote, nada sabe - nada quer saber.. Chamar à domesticação de um animal o seu «melhoramento» é algo que a nossos ouvidos nos soa como uma ironia. Quem sabe o que acontece nos circos de feras põe em dúvida que neles a besta seja «melhorada». É debilitada, é feita menos perigosa, é convertida, mediante o efeito depressivo do medo, mediante a dor, mediante as feridas, mediante a fome numa besta enfermiça. - O mesmo acontece com o homem domado que o sacerdote «melhorou». Na Alta Idade Média, quando de facto a Igreja era sobretudo um circo de feras, dava-se caça em todas as partes aos mais belos exemplares da «besta loura» - «Melhoraram-se», por exemplo, os aristocráticos germanos. Porém, que aspecto oferecia logo esse germano «melhorado», levado enganosamente para o mosteiro? O de uma caricatura de homem, o de um aborto: havia sido convertido num «pecador», estava metido na jaula, havia sido encerrado entre conceitos todos eles terríveis... Ali jazia agora, enfermo, murcho, odiando-se a si mesmo; cheio de ódio contra os impulsos que incitam a viver, cheio de suspeitas contra tudo o que continuava a ser forte e feliz. Em suma, um «cristão»... Dito fisiologicamente: na luta com a besta o pô-la enferma pode ser o único meio de debilitá-la. A Igreja entendeu isto: deitou a perder o homem, debilitou-o - porém pretendeu tê-lo «melhorado»...

3.
Tomemos o outro caso da chamada moral, o caso da criação de uma determinada raça e espécie. O mais grandioso exemplo disto oferece-no-lo a moral hindu, sancionada como religião no «Código de Manu» . A tarefa aí exposta consiste em criar ao mesmo tempo nada menos que quatro raças: uma sacerdotal, outra guerreira, uma de comerciantes e agricultores, e finalmente uma raça de servidores, os sudras. É evidente que aqui não nos encontramos já entre domadores de animais: uma espécie cem vezes mais suave e racional de homens é o pressuposto para conceber sequer o plano de tal criação. Vindo do ar cristão, um ar de enfermos e de cárcere, respira-se aliviado ao entrar neste mundo mais são, mais elevado, mais amplo. Que miserável é o «Novo Testamento», comparado com Manu, que mal que cheira! - Porém também esta organização tinha necessidade de ser terrível, - desta vez não na luta com a besta, mas sim com o seu conceito antitético, com o homem-não-de-criação, o homem-mestiço, o chandala. E, de novo, essa organização não tinha nenhum outro meio para fazê-lo inócuo, para torná-lo débil, que pô-lo enfermo, - pois era a luta com a «maioria». Talvez nada choque mais a nossa sensibilidade que estas medidas preventivas da moral hindu. O terceiro edicto, por exemplo (Avadana-Sastra I), o de «os legumes impuros», prescreve que o único alimento permitido aos chandalas sejam os alhos e as cebolas, em atenção a que a Escritura Sagrada proíbe dar-lhes grão ou frutos que tenham grãos, dar-lhes água ou fogo. Esse mesmo edicto estabelece que a água de que necessitem não a tomarão nem dos rios nem das fontes nem dos tanques, mas unicamente dos acessos aos charcos e dos buracos feitos pelas pisadas dos animais no chão. Do mesmo modo se lhes proíbe lavarem as suas roupas e lavarem-se a si mesmos, posto que a água que generosamente se lhes concede só é lícito utilizarem-na para aplacar a sede. Finalmente, proíbe-se às mulheres sudras assistirem no parto às mulheres chandalas, e ainda se proíbe a estas últimas assistirem-se mutuamente em tais circunstâncias... - O êxito de tal política sanitária não tardou a fazer-se sentir: epidemias mortíferas, doenças sexuais terríveis, e, em consequência disso, de novo, «a lei do cutelo», que prescreve a castração para os rapazinhos, a amputação dos lábios menores da vulva para as meninas. O próprio Manu disse: «os chandalas são fruto do adultério, incesto e crime (- esta é a consequência necessária do conceito de criação). Como vestidos terão só os trapos dos cadáveres, como vasilha, potes rachados, como adorno, ferro-velho, como culto, só os espíritos malignos; vaguearão sem descanso de terra em terra. É-lhes proibido escrever da esquerda para a direita e servir-se da mão direita para escrever: o emprego da mão direita e da escrita da esquerda para a direita está reservado aos virtuosos, às pessoas de raça».

A moral da criação e a moral da domesticação são completamente dignas uma da outra nos meios para se imporem: é-nos lícito assentar como tese suprema que, para fazer moral, é preciso ter a intenção firme do contrário. Este é o grande problema, o inquietante problema atrás do qual eu andei durante mais longo tempo: a psicologia dos melhoradores da humanidade. Um facto pequeno e, no fundo, modesto, o da chamada pia fraus proporcionou-me o primeiro acesso a este problema: a pia fraus, património de todos os filósofos a sacerdotes que «melhoraram» a humanidade. Nem Manu, nem Platão, nem Confúcio, nem os mestres judeus duvidaram jamais do seu direito à mentira. Não duvidaram dos seus direitos completamente diferentes… Expressando-o numa fórmula seria lícito dizer: todos os meios com que pretendeu até agora tornar moral a humanidade foram radicalmente imorais. "
 Nietzsche, in CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS

segunda-feira, 3 de março de 2014

Os Russos que amo e desprezo!

A luta pelo poder retratou a luta pela vida, sem qualquer critério ético ou moral, sem qualquer valor pela vida do outro. Mas entre os homens civilizados ela não tem mais lugar!... e será perseguida pela lei!! jamais a desumanidade para com o próximo ilibará líder politico algum dos seus crimes!...  Acreditemos em futuros julgamentos como os houve em Nuremberg... façamos por eles!!
A minha admiração pelos Russos começou com Gogol e Dostoievski, o meu desprezo com Estaline e todos os seus seguidores!!...
Quanto mais se avança no relógio da História maior deveria ser o avanço ético moral no que concerne à vida do outro, o bem supremo, o bem comum!, por isso mais custa perdoar os algozes de hoje que os do passado! - a Justiça tarda!!

domingo, 16 de fevereiro de 2014

...os dias felizes em Münster...

  num dia de Outubro, cedo, pouco depois do nascer do sol, caminhava pela Hammerstr quando fui surpreendido e alegrado por um esquilo que, ágil e apressado, descia pelo tronco de uma majestosa árvore; o fruto, havia antes caído e foi rápido em linha recta que ele a ele se dirigiu. Apanhou-o com as patinhas pequenitas, levou-o aos dentes, olhou em várias direcções, depois, acto contínuo, correu para o tronco de outra árvore e subiu-o veloz. Via-o sobre um ramo com o fruto na boca meio encoberto pela ramagem. Ficou ali como que se esperasse que lhe tirassem uma fotografia, depois rápido escondeu-se. Eu perscrutava-o entre aquele emaranhado de ramos e folhas, na esperança de vê-lo. Mas nada, nem sombra.
Sem esquilo, o desalento fez-me decidir a não ficar ali especado a olhar para um esquilo que não via; depois, pensei «se continuar o meu passeio haverei de observar outros noutras árvores»; de facto as árvores eram todas grandes o suficiente para albergar muitos esquilos iguais àquele que eu tanto desejara continuar a ver... Na verdade Münster estava ornamentada de coisas que continuar a vê-las não cansava - as árvores, as aves, os esquilos, as cores das ruas...

  Apresento-vos agora, Marckus Woestmann, o estudante de Filosofia de cabelo ruivo vermelho.
 Eu tocara à campainha do edifício residência de estudantes Universitários dos mais variados países; procurava portugueses. E enquanto esperava que me viessem abrir a porta esta abriu-se e Marckus apareceu. Reconheci de imediato nos traços da sua fisionomia o nobre carácter, a simpatia. Falávamos um com o outro pela primeira vez, mas o modo como falávamos traduzia uma amizade de anos. Alguém que nos visse pensaria: dois velhos amigos. Disse-lhe ser português e filho da mãe Literatura. A esta confissão mostrou-se muito surpreso; perguntou «Mas porque gostas de Literatura?» para melhor lhe responder reformulei a pergunta «O que há de interessante na Literatura digna do nosso tempo?» A resposta exigia que lhe lesse todos os livros que havia lido, ou que discorresse acerca do bem dessas variadas emoções que só a leitura me proporcionara.
 - A Literatura - disse-lhe - é rir, é chorar, é olhar as árvores, é descobrir, é...  - Inteligente como só os raros, influiu que ia dizer… é espírito.
 Perguntou-me se eu não queria dar um passeio com ele; aceitei. Fomos pelos caminhos castanhos que circundavam o lago. De vez em quando éramos ultrapassados por quem na altura concedia ao corpo o supremo bem que advém de correr.
- Correr é nobre, não achas? - perguntei.
- Sim, denota manifestamente uma preocupação com o corpo e com a mente. (...)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

a alteração de humor em consequência de uma rajada de vento

A palavra vento traz-me à memória a ultima noite de Verão do ano de 1998. Fazia uma passeata perto da Bahnhof de Münster, quando, surgindo do nada, vi um indivíduo muito mal trajado vir ao meu encontro. Nessa altura eu já havia perdido os complexos de falar com os vagabundos e as prostitutas; aos primeiros, caso me pedissem algo, oferecia-lhes um pão embrulhado em  palavras fraternas, às últimas falava-lhes sem vergonha alguma de ser visto na sua companhia; era ele um sem-abrigo que outrora viajara por toda a Europa. O que ele me pedira eu não tinha, mas o que eu pensava que não tinha para ele, tinha-o de facto, tempo, afecto até. Ouvia-o e falava-lhe, quando, bem perto, passou, por nós, um homem muito bem vestido - era um Sr. de negócios com a sua malinha na mão. Aproveitando a proximidade, ele pediu-lhe uma esmola, mas em em má hora o fez - O Sr. executivo nem sequer se dignou olhá-lo; foi horrível!
Apercebi-me depois, com o decorrer da conversa, o vagabundo ser pessoa sensível e inteligente; lembro-me vestiamos Tshirts de manga curta quando súbito soprou uma rajada de vento frio que me gelou os braços -  senti pela expressão do vagabundo uma alteração de humor no seu estado de espírito - ficou mais apreensivo! e apercebendo-se ele que eu notara tal, explicou-se:
Há anos atrás  - contou-me - num dia de Outubro, diante das águas calmas do lago senti uma rajada de vento destas levar-me a alma!...
ah pensei, «a rajada de vento frio anunciou-lhe o término definitivo do Verão.»
  (...)Senti fome e voltei a casa, entrei pelas traseiras. Na cave da casa de Frau Baak havia por cima das prateleiras de muitos armários, víveres, frascos de compotas, latas de conserva, muitas das quais com mais de 20 anos, cujos prazos de validade haviam há muito expirado. Sim, já me haviam dito que Frau Baak, a septuagenária, enchera a cave de víveres com medo da fome, mas ouvir tal não me causara grande impressão; foi preciso ver, tocar naqueles frascos frios cobertos de pó...