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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

JUDEUS o povo perseguido

Com ou sem grandes conhecimentos Históricos dá para concluir que o povo judeu tem sido ao longo da sua História culpabilizado, escorraçado, perseguido, aprisionado e mais macabro ainda, executado; há poucos séculos atrás os Tribunais do Santo Ofício da Inquisição não brincavam em serviço, torturavam-os nos interrogatórios, acusavam-os de judaizarem (de praticarem em segredo a religião dos seus antepassados) e servindo-se das alianças com os Reis Católicos puniam com requintes de malvadez os judeus com a pena de morte... imagine os carrascos a garrotarem o seu pescoço apertando um pouquinho mais a cada meia volta... ou então imagine-se acobardado a assistir a tudo conjuntamente no meio do povo, sentindo asco de si mesmo e da multidão cúmplice... Mas para quê ir tão atrás no tempo, ainda bem mais recente houve o horror indescritível documentado e fotografado do Holocausto... Como conseguiram fazer isto ao Povo judeu? eu respondo-vos - por ser fácil - já não seria fácil se o povo judeu se valesse do direito de entrar em guerra! Ora nem se podiam valer, precisariam, para isso, de um exército! acontece que agora presentemente o povo judeu já o tem!!!, e ainda bem! Tardava!! já não era sem tempo! Vã glória terem precisado da ajuda de quem lhe fez um caminho por entre as águas salgadas.. eram mesmo uns sonsos, uns sem sal... ahahha hoje canta outro galo!! hoje eles devolvem cada pedrada... e quem nao gosta que não lhes atire pedras!! Muito bonzinhos são os israelitas, porque se fosse o nosso 1º rei Dom Afonso Henriques e em vez de espadas e mocas tivesse os recursos bélicos dos Israelitas,...

leio e releio António José Saraiva, INQUISIÇÃO e CRISTÃOS NOVOS

"(...)Em 1979, António José Saraiva rompeu com o regime saído do 25 de Abril. Defendia que como não se fizera a liquidação do anterior regime e o apuramento de responsabilidades, nos crimes da PIDE, nos crimes da guerra colonial, nas suspeitas de corrupção, que o regime do 25 de Abril era uma continuação, sob outras vestes, do salazarismo e marcelismo.      
Escreveu num artigo demolidor, intitulado O 25 de Abril e a História: "Em resumo, não se fez a liquidação do antigo regímen, como não se fez a descolonização. Uns homens substituíram outros, quando os homens não substituíram os mesmos; a um regímen monopartidário substituiu-se um regímen pluripartidário. Mas não se estabeleceu uma fronteira entre o passado e o presente.
Os nossos homens públicos contentaram-se com uma figura de retórica: "a longa noite fascista". Com estes começos e fundamentos, falta ao regime que nasceu do 25 de Abril um mínimo de credibilidade moral. A cobardia, a traição, a irresponsabilidade, a confusão, foram as taras que presidiram ao seu parto e, com esses fundamentos, nada é possível edificar.
O actual estado de coisas, em Portugal, nasceu podre nas suas raízes. Herdou todos os podres da anterior; mais a vergonha da deserção. E com este começo tudo foi possível depois, como num exército em debandada: vieram as passagens administrativas, sob capa de democratização do ensino; vieram "saneamentos" oportunistas e iníquos, a substituir o julgamento das responsabilidades; vieram os bandos militares, resultado da traição do comando, no campo das operações; vieram os contrabandistas e os falsificadores de moeda em lugares de confiança política ou administrativa; veio o compadrio quase declarado, nos partidos e no Governo; veio o controlo da Imprensa e da Radiotelevisão, pelo Governo e pêlos partidos, depois de se ter declarado a abolição da censura; veio a impossibilidade de se distinguir o interesse geral dos interesses dos grupos de pressão, chamados partidos, a impossibilidade de esclarecer um critério que joeirasse os patriotas e os oportunistas, a verdade e a mentira; veio o considerar-se o endividamento como um meio honesto de viver. Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma Primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco." Um texto actualíssimo, como se vê.(...)"
by Paulo Gaião, In Expresso, 27 de Julho de 2012

sábado, 27 de setembro de 2014

CARTA DE AMOR 1 com Prólogo

 Introdução - explicação ao leitor.

... só aqui estou eu, sentado, a escrever, para si...
... o que me trouxe foram as cartas de amor; senti, ao lê-las, não ter nunca lido nenhumas mais inspiradas... as minhas ouso dizer são as mais belas cartas de amor da língua portuguesa... quem não acredite que mo prove... semanalmente comprometo-me a editar um ou duas... tenho a certeza que nunca haveis lido cartas de amor mais belas ... publicarei aqui as ditas sem qualquer ordem cronológica... faço-o por considerá-las dignas de vós... apreciadores de arte!

"Ler pode tornar o Homem perigosamente humano."
Guiomar de Grammon


... é bem diferente ler o que eu escrevi para o mundo e ler o que eu escrevo para si - o que é para o mundo é para todos, o que é para si é para ser seu !, porque as palavras devem voltar ao ser de onde partiram!
A S., sem querer, fê-las nascer pelo gesto simples de me olhar e cumprimentar!... então de imediato tudo o que foi emoção - os seus olhos a olhar nos meus - num vislumbre lento - a sua expressão cândida e alegre - contrastante  com a sua fisionomia de normal mais séria - tudo, toda a emoção - tudo!, se quis em palavras!, eu dizia depois de nos vermos «vou escrever-lhe!»... 
Sem dúvida estas palavras vieram-me inspiradas de si!, é normal então voltarem para si!... 
 minutos depois passava segunda vez pela mesma entrada do edifício onde nos cruzamos- como o carteiro que toca sempre duas vezes - mas já lá não estavas!, foi bom na mesma, porque passei pelo mesmo sitio onde a vira!... depois em silêncio revivi a imagem que retive de si quando nos olhámos! mais que as suas roupas de cor preta, os seus sapatos pretos e a sua mala preta, eu vi os seus olhos! Se eu fosse pintor ou mesmo não fosse, mas soubesse pintar, eu poderia pintá-los para poder voltar a vê-los - numa tela!, mas como não sou nem sei quando, ou mesmo se, voltarei a vê-los, recorro-me do fraco talento para a escrita, de modo a que estas palavras sempre mos possam lembrar...



quarta-feira, 10 de setembro de 2014

se não chegar uma página, tome 1/4 de livro...

Há estados de alma doentes de melancolia; nota-mo-la nos outros e em nós, e não raro aconselhamos ou aconselham-nos: - Vá! Sai dessa apatia, vai dar um passeio!... – porém, não obstante concordarmos com o conselho, quantas vezes não nos deixamos estar presos, dias, semanas, à cómoda inactividade física?... às vezes anos… parados!!… um dia é porque chove!  no outro é por que faz frio. Pois bem, peço-vos, deixai-vos de desculpas. Sabei! até no Inverno deverias preferirdes salpicar-vos de chuva a estardes debaixo das nuvens negras da melancolia. E quando o estado do tempo se agrava?, e a caminhada se torne lamacenta, impraticável, perigosa? Bem, jamais desejaria que corresses perigo de vida - prescrevo-vos então a outra caminhada… Qual? A que podereis fazer pelas páginas dos livros, frase após frase, num passo de leitura ora vagaroso, ora ritmado; para não vos demorardes demais nas paisagens salutares da arte, das ideias, dos valores nobres. No caminho das páginas havereis de ver, de parágrafo em parágrafo, enseadas com muito vento, planícies imensas a perder de vista; tereis a impressão de terdes subido a miradouros e a verdes mais longe!, - e enquanto pelo objecto da leitura caminhardes lereis muitas coisas. Descobrireis até frases terapêuticas com princípios activos mais benfazejos para a alma que os dos fármacos. Poderia citar-vos algumas!, mas melhor não, Curar-vos-ia de toda a melancolia, e isso eu não quero! Onde depois iria eu achar leitores melancólicos? Se vos apraz, sabei que Aristóteles afirmou que por regra os homens inteligentes são melancólicos! Eu fui-o muito! Sou-o ainda. Sei por conhecimento próprio o quanto aborrece ao próprio a melancolia! Hoje conheço-a mais e por isso convivo com ela melhor!, e às vezes, concluo, sou Melancólico, logo existo!,
Ler é bom remédio! As leituras, em semelhança com os passeatas a pé, por havermos despendido velhas energias e adquirido novas, fazem sentirmo-nos vivificados!...

Seria pedir muito à vossa melancolia, agarrar em livros dos mais variados autores, socorrer-se da sua companhia, e calcorrear o salutar caminho das palavras?

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

obedecer ou não obedecer eis a questão


Sem regras – dizem - Sem regras não passamos de selvagens; mas urge avisar: Cuidado!, a obediência às regras não nos isentará de responsabilidades - podemos em consequência da "boa obediência" virmos a ser punidos por havermos praticado actos de selvajaria!... Quantos povos, quantas pessoas não massacraram barbaramente o próximo, o seu semelhante, no cumprimento das regras?, que nos difere dos Nazis, e dos russos Estalinistas quando no cumprimento cego das regras prejudicamos seriamente alguém? – para nos inocentarmos, passamos a responsabilidade para a hierárquico superior, e dizemos: estávamos a cumprir ordens! – querendo com isso desresponsabilizar-mo-nos, mas deveríamos antes querer legitimar que todos os nossos actos nos responsabilizam, todos, quer os voluntários quer os ordenados pela hierarquia!, em síntese, somos igualmente selvagens quando, virando as costas à ética, aceitamos a selvajaria dissimulada sobre a fachada das regras e, sem quaisquer escrúpulos, nos tornamos os seus agentes.

A selvajaria pode ser maior ou menor, conforme o gravidade do mal que causa; o mais pequeno dos males que alguém causa a alguém, é, será sempre, um acto de selvajaria!

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A mandioca, o Carnaval e os anjos celestiais!!

      A professora pedira aos meninos para ler em casa um texto alusivo ao Carnaval e, para incentivá-los ao cumprimento desse dever, o da leitura, dissera-lhes que quem lesse o texto até ao fim acharia nele uma recompensa; ficaram por isso os meninos intrigados sobre qual seria.
- Srª Professora diga-nos. Qual é a recompensa?
- Ai isso é que não vos digo!, se vos digo perde a graça e vocês já não leriam!
- Leríamos sim!
- Meus queridos, saberão todos que ler já por si é uma recompensa, na medida em que é um exercício racional, mas quanto a este texto garanto-vos que vão ter uma outra acrescida! Entenderam?
- Um dos meninos - o Luis - disse que sim, mas um outro disse:
- Não.
- O Luís entendeu, e vai fazer o favor de te explicar por outras palavras…
 (Luís virado para o Pedro)
- Pedro, ler faz-nos bem como jogar à bola! É um exercício! A outra recompensa deve ser marcar um golo! (riu-se)
- É mais ou menos isso! Quem ler tudo até ao fim vai achar a outra recompensa. Agora não me perguntem qual?...
Os catraios (os guris) estavam verdadeiramente intrigados a olhar para as duas folhas A4 cheias de palavras; eu mesmo também fiquei intrigado… mas, quando cheguei a casa, atirei a mala para cima da cama e nunca mais me lembrei do dever escolar… 
Aconteceu  que no dia seguinte, em consequência do meu completo esquecimento, ser um dos poucos a não saber nada sobre a recompensa! Ouvia os meus colegas falarem uns com os outros referindo-se à recompensa, rindo-se…
- Leram o texto?
- Lemos sim! – gritaram os meus colegas no meio de muitas risadas
- Quem é que não leu?
Eu levantei o braço!...
- Quem mais não leu?
Levantaram o braço mais uns tantos!...
 - Vamos então ler em voz alta, para todos ouvirem. João retire a mão da cara, olhe a postura! Sente-se direito. Faça-nos o favor de ler. Em voz alta. Leia o título também.
O João não lia mal; tinha o costume de pigarrear a voz antes de ler ...
QRQRQRRRRR QRQRQRRRR
« O DISFARCE!
O professor havia pedido aos seus alunos disfarces de Carnaval, e ficara combinado deixarem-nos dentro de uma caixa de papelão; por isso o barulho e a azáfama em volta da caixa era grande; queriam ser os primeiros a deixar na caixa o seu disfarce e a ver os dos outros.
- Vá chega!, Vão sentar-se! – ordenou o professor, incomodado pela gritaria infantil!
De imediato todos procuraram o lugar para se sentar. Todos menos Edú Nassim, o guineense; ele aproveitara a confusão para informar o professor sem ser ouvido pelos outros…
- Esqueci-me de trazer a fantasia de Carnaval
- Não faz mal Edú. Vai para o teu lugar!
  O esquecimento de Edú tinha uma razão. Os pais tinham vindo da Guiné Bissau, e passavam por algumas dificuldades… Um kilo de farinha de mandioca para os pais de Édu tinha prioridade sobre qualquer disfarce…»

 Os alunos atentos à história riram-se; perguntaram depois o que era uma mandioca, e dois houve que por estarem distraídos perguntaram ao colega do lado sobre o quê que riam…

O professor explicou que uma mandioca era uma raiz muito maior que uma cenoura com uma casca castanha escura e toda branca por dentro. Depois, elogiou a dicção do pequeno leitor e pediu a um outro aluno para ler a parte que faltava… (continua…)

«A mãe de Edú pensara comprar-lhe uma coroa de rei para fazer jus ao nome Nassim, mas não passou dai, do pensamento…

O professor poderia aproveitar-se da desculpa de Edu para dar uma lição de moral sobre o esquecimento, mas não o fez, seria imoral, não acham?
Com 3 grandes passos chegou-se perto da caixa e enfiou os braços que desapareceram no meio dos disfarces; agarrou em todos de um vez e pô-los sobre duas mesas. Havia disfarces e máscaras para todos os gostos. Havia um alusiva ao livro do Alexandre Dumas, Os três Mosqueteiros, outra ao famoso cavaleiro da Triste Figura, uma com uma mascarilha e uma capa negra era a do Zorro, havia a dum coelho – o da Alice no pais das Maravilhas – havia a do pirata da barba Azul, e a do Capitão Ahab, mas de todas, a mais cobiçada pelos rapazes foi a do Homem Aranha… todos estavam muito animado, menos Edú, ele continuava sentado, sem querer participar na distribuição das fantasias…
 Vendo-o cabisbaixo, o professor chamou-o.
- Vem cá Édu.
O Édu levantou-se relutante, como se fosse pedir sopa uma segunda vez!»

- Sopa?? – questionou um aluno
- É referente ao Oliver Twist, não é professor?
- Sim é. Alude a uma das passagens mais famosas do Oliver Twist. (virando-se para o leitor) Continua!
«Queria escapulir-se, receava o pior!, estava naquela escola fazia pouco tempo e ainda não se habituara a estar no meio dos branco.
 A máscara a capa e o chapéu do Zorro está fora de questão, pensou o professor, perder-se-ia o efeito do contraste.
 - Quem quer ser o Zorro?
 - Eu não me importo de fazer de Zorra! – disse a Carminda; ela sabia aproveitar as deixas…
    Com o olhar na caixa, antes que as fantasias fossem todas distribuídas e o Édu ficasse sem uma, o professor, retirou umas asinhas acinzentadas, de penas ganso, procurou ainda a aljava e a flecha mas delas nem a sombra. A ideia era que Edu se tornasse um orgulhoso cupido guineense!, mas gorada essa hipótese esperava que com as asinhas o vissem anjo, disfarçado de anjo!!   Vestiu-lhes as asas!! e perguntou à turma:
- Digam-me o que é que o Édu vos faz lembrar, não vos parece mesmo um… digam, digam!
  Edu chateado achou por bem mover os braços, as asas mexeram-se por isso um pouco!
 Carminda viu e disparou!
-  Um morcego!!!
Toda a turma riu!
- Ahhhah ahahaha Edú parece mesmo um morcego!!
- Bate as asas Edú, sais pela janela!!»

Eu conjuntamente com os meus colegas, rimos, depois, fez-se me luz, ah agora sei, era esta a recompensa!

quinta-feira, 19 de junho de 2014

À memória do meu amigo Ribas


O Ribas e os pais moravam numa modesta casa térrea com uma porta no meio de duas janelas viradas para a rua. Havia lá estado uma vez num dia quente de Verão a ajudá-los a transportar coisas antigas do sótão para o quintal, situado nas traseiras da casa. Só me voltei a lembrar desse dia passados que foram 3 anos quando lhe ouvi dizer «o meu falecido pai felicitou-me por teres ido lá a casa, gostou dos teus modos e de saber que eras meu amigo»
A satisfação cobria-lhe o rosto mais por ter alegrado o pai que por ter recebido a sua aprovação. Além do meu comportamento solicito e educado houve um outro factor: o tabaco, ou melhor a aversão ao tabaco; quando ma ouviu manifestar, passou literalmente a ver-me fora dos grupos das más companhias do filho e dos amigos de John Barleycorn, essa informação surtiu o efeito de um bálsamo naquele velho pai sofrido...  
As cortinas brancas não deixavam ver para dentro do quarto, mas a janela, aberta por causa do calor das noites quentes de Agosto, permitia-me ouvi-lo. Cantava alto. Enfiei a cabeça para dentro da janela afastando as cortinas com a mão e ele nem notou. Deitado na cama, de tronco de barriga para cima, olhos postos no infinito do tecto, cantava Zeca Afonso.
“E se um dia houver uma praça de gente madura
E um estátua de febre a arder… "
Deixei-o acabar a canção e chamei-o.
- Ribas!
- Olá... Já vou. Deixa-me só vestir uma camisa...
O rumo era em direcção à casa do nosso amigo comum, o Sr. Bastos onde à noite nos reuníamos para cumprir com imenso agrado o hábito habitual de ouvirmos o Ribas a tocar guitarra e a cantar...  Só depois da actuação, aceitávamos  iniciar as partidas de Xadrez. 
Por vezes o Ribas perguntava-me:
- Não me queres encomendar uma serenata? Só tens que me dizer onde ela mora e escolher a canção, o resto deixa comigo!!
Caminhava lançando as pernas para a frente, dentro de umas calças largas, baloiçando a barriga… 
- Sabes o que eu descobri? ontem à noite?
- Diz.
- Descobri. O Universo está afinado em Lá menor!
-???????????? (o meu espanto era ainda maior que o universo)
- Como ??????
- Estava a cantar. Deitado. A certa altura da canção a cama vibrou debaixo das minhas costas. Eram as molas do colchão, ressoavam. Voltei a cantar e notei que o colchão ressoava sempre na mesma nota. Lá menor.
- Lá menor?
- Sim. O colchão. A cama! As paredes da casa. Alexandre, o Universo está afinado em lá menor. Tudo o que vês. A claridade da lua, o brilho das estrelas... tudo o que está parado e tudo o que se move!

O Ribas de todas as pessoas para quem eu tinha declamado um ou dois versos da minha autoria havia sido o único que me pedia que o declamasse de novo para fruir com verdadeiro prazer da mensagem e das rimas!!
"Gente gentalha que em Deus acreditaste
E o tornaste à vossa imagem, podre e oca  
Com ódios e guerras santas vos elevaste
Mas para com a verdade não abriste a boca (...)

quanto ao resto do poema... esse será só para os meus verdadeiros leitores!! para aqueles que me procuram para ler mais!!


terça-feira, 17 de junho de 2014

o começo da amizade de Sólon com Anacarsis

...desde tenra idade os outros sempre me despertaram extrema curiosidade.
 não sentia qualquer dificuldade em tocar nas pessoas, em falar-lhes, em perguntar-lhes qualquer coisa. Eu não precisava de conhecê-las para as conhecer; eu ia ter com elas, e elas diziam-me bubu, e bibi e eu percebia-as. E mesmo sem saber falar eu falava-lhes, e elas começavam a ficar felizes... 
Mas hoje se vou ter com alguém que não conheça já ninguém me diz bubu nem baba e olham para mim como se eu já não fosse criança; eu sei que mudei muito, mas eu não mudei nada; e se por acaso me aproximo das pessoas que não conheço elas olham-me agora com uma cara de espanto, como se eu não devesse estar ali; e, infelizmente, da expressão dos seus rostos transparece de imediato a falta de uma explicação.
E não poderia ser de outra maneira.

A exigência de explicações para actos inusitados são tão antigas quanto o homem; o homem há muito que está desacostumado que se abeirem dele, por isso pede explicações a quem o faz. 
Plutarco diz-nos que uma vez um dos sete sábios da Grécia, Anacarsis, tendo visitado Atenas, foi a casa de Sólon, legislador de Atenas. Este depois de Anacarsis ter batido à porta quis uma explicação. Anacarsis anunciou-se como um estrangeiro que ia unir-se a ele pelos laços da amizade e da hospitalidade. A explicação de Anacarsis não agradou Sólon, que lhe respondeu:
 «Mais vale procurar amigos em sua própria casa que procurá-los fora.» 
Retrucou-lhe Anacarsis:
 «Pois bem! visto que estais em vossa casa, fazei então de mim vosso amigo e hóspede.»
Se o espírito de Anacarsis quis manifestar-se pela vivacidade da sua pronta resposta, o de Sólon também não se deixou de manifestar - pela pronta hospitalidade concedida. Se não fora a beleza de Anacarsis razão para que Sólon anui-se ao convite de amizade, que outra poderia ter sido senão a beleza das palavras, reflexo da do espírito? 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Marcel Proust 2, por Alexnietzsche

"(...)Quando Françoise, à noite, se mostrava gentil comigo, e me pedia licença para se sentar no meu quarto, parecia-me que seu rosto se tornava transparente e que nela eu lia a bondade e a franqueza. Mas Jupien, (...) revelou-me posteriormente que ela dizia que eu não valia a corda para me enforcar e que procurara lhe fazer todo o mal possível. Estas palavras de Jupien mostraram-me logo (...) que não é só o mundo físico que difere do aspecto sob o qual o vemos; (...) fiquei aterrorizado. E, só se tratava de Françoise, a criada, com quem pouco me preocupava. Seria assim em todas as relações sociais? E até que desespero poderia isso levar-me um dia, se o mesmo ocorresse no amor? Por enquanto apenas se tratava de Françoise. (...) O fato é que percebi a impossibilidade de saber de modo direto e seguro se Françoise me amava ou detestava. E assim, foi ela a primeira a me dar a ideia de que uma pessoa não é, como o acreditara, nítida e imóvel diante de nós com suas qualidades, seus defeitos, seus projetos, suas intenções para connosco (...) e sim uma sombra onde jamais podemos penetrar, para a qual não existe conhecimento direto, a respeito de quem formamos numerosas crenças com o auxílio de palavras e até mesmo de ações, umas e outras nos dando apenas informações insuficientes e, aliás, contraditórias, uma sombra onde podemos alternadamente imaginar, com a mesma verosimilhança, o ódio e o amor."
Marcel Proust, in O Caminho de Guermantes

... e porquê falar agora de Münster?, porque foi a cidade onde li e sublinhei esta página, saudades de Proust e de Münster invadem-me não raro o coração!!!

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Marcel Proust, por Alexnietzsche

amigos leitores se houvesse oportunidade para uma conversa alusiva a uma página de O Caminho de Swan, abriria o livro e haveria de pedir-vos atenção para ouvirdes este parágrafo:
"(...) uma coisa veio mudar uma vez mais, e bruscamente, o modo como se apresentava todas as tardes, pelas duas horas, o problema do meu amor. Descobrira o Sr. Swann a carta que eu havia escrito a sua filha Gilberta?, ou ela não fazia mais que confessar-me, (...) um estado de coisas já antigo? Como eu lhe dissesse quanto admirava os seus pais, tomou aquele ar vago, cheio de reticências e de segredo, de quando lhe falavam no que tinha para fazer em seus passeios e visitas, e acabou por dizer: «Pois não sabes? Eles não podem tragar-te» (...)

Os seus pais, o Sr. e a Srª Swann, não pediam a Gilberta que deixasse de brincar comigo, mas prefeririam que aquilo não tivesse começado. Não encaravam bem as minhas relações com ela, não me atribuíam grande moralidade e imaginavam que eu só poderia exercer má influência em sua filha. Essa espécie de rapazes pouco escrupulosos com quem Swann me julgava parecido, imaginava-os eu como sujeitos que detestam os pais da moça a quem amam, adulam-nos quando estão presentes, mas zombam deles com ela, induzem-na a desobedecer-lhes, e, uma vez conquistada a filha chegam até a impedir-lhes que a vejam." A esses desprezíveis e imaginados traços uns outros reais havia em meu coração, que me defenderiam de tais enganos quanto à nobreza do meu carácter; eu tinha para com o Sr. Swann um coração animado de sentimentos tão sinceros e apaixonados que, se ele os suspeitasse, ter-se-ia arrependido do seu julgamento a meu respeito."Tudo quanto sentia por ele, ousei dizer-lhe numa longa carta que dei a Gilberta, pedindo-lhe que lha entregasse. Ela consentiu dar-lha. Ai de mim! Ele considerava-me muito mais impostor do que eu supunha; aqueles sentimentos que eu julgara ter descrito com tanta fidelidade, em 16 páginas, pusera-os ele em dúvida; a carta que lhe escrevi tão ardente e tão sincera, não obtivera maior êxito. No dia seguinte, Gilberta, contou-me que, ao ler a carta seu pai erguera os ombros, dizendo: "Isto tudo não tem significação alguma." E eu, que conhecia a pureza das minhas intenções e a bondade da minha alma, indignei-me de que as minhas palavras não houvessem causado a mais leve mossa no absurdo engano do Sr. Swann. Tinha a sensação de haver descrito tão exactamente os meus sentimentos de generosidade que, se depois disso ele não os havia sabido reconstituir e ao ponto de ver que deveria pedir-me perdão, confessando que se havia enganado, era porque nunca sentira esses nobres sentimentos - o que devia incapacitá-lo para os compreender nos outros."
Marcel Proust, in Em Busca do Tempo Perdido.