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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Tennesse Williams - Desire

"- PAPÁ POLLITT: Comprámos esse relógio no Verão em que fomos à Europa, eu e a tua mãe naquele maldito circuito turístico. Foram os piores dias da minha vida, digo-te, filho, aqueles estrangeiros depenaram-nos à grande nos seus hotéis de luxo. E a tua mãe comprou mais coisas do que se podiam enfiar em dois vagões bagageiros, es­tou a falar a sério. Andámos num corropio de um lado para o outro, e onde quer que parássemos era só comprar, comprar, comprar. Metade da tralha que comprou ainda está armazenada na cave, ficou debaixo de água na Primavera passada! (Ri-se.) A Europa não é mais do que um enorme leilão, é isso que é, com todos aqueles lugares antiquados. É um grande armazém de saldos ao desbarato, raios partam, e a tua mãe perdeu a cabeça, era impossível pará-la, nem com os arreios de uma mula! Comprou, comprou, comprou! ... A sorte dela é que eu sou um homem rico, é a sorte dela, e metade dessa tralha está a apodrecer de humidade na cave. Que sorte ser um homem rico, é mesmo uma sorte, sim senhor, sou um homem rico, Brick, sou um homem muitís­simo rico. (Os seus olhos iluminam-se por um momento.)
Sabes quanto dinheiro tenho? Adivinha, Brick! Adivinha quanto tenho! (Brick sorri com um ar vago por cima da bebida.) Perto de dez milhões em dinheiro vivo e em acções, fora, atenção, os cento e tre­ze hectares da terra mais fértil deste lado do vale do Nilo! (…)Mas um homem não consegue comprar a vida com dinheiro, não con­segue comprar uma nova vida quando a sua está no fim. Essa é da­quelas coisas que não se compra por tuta e meia na Europa nem nas lojas americanas nem em loja nenhuma do mundo. Não se pode comprar uma nova vida, não se pode comprar uma nova vida quando a nossa acabou ... É um pensamento que nos põe sóbrios, muito sóbrios, andou às voltas na minha cabeça, continuamente - até hoje ... Estou mais sábio e mais triste, Brick, com esta experiência por que acabei de passar. Só há mais uma coisa de que me lembro da Europa.
BRICK - O quê, Papá?
PAPÁ POLLITT - Dos montes em redor de Barcelona, em Espanha, e das crianças que corriam nuas por aqueles montes nus, crianças nuas a pedir esmola como cães esfomeados, uivando e ganindo. E de como os padres nas ruas de Barcelona são gordos, tantos e tão gordos e tão simpáticos, ah! ah! ... Sabes que eu podia alimentar toda aquela re­gião? Tenho dinheiro que chegue para alimentar aquela maldita re­gião, mas o animal humano é uma besta egoísta e calculo que o di­nheiro que dei àquelas crianças aos uivos nos montes em redor de Barcelona fosse apenas o equivalente ao necessário para forrar uma das cadeiras deste quarto, para pagar um novo forro para esta cadeira.
Diabos, atirei-lhes dinheiro como quem atira milho às galinhas, atirei-lhes dinheiro só para me ver livre delas o tempo suficiente para poder entrar de novo no carro ... e ir embora ...
E depois, em Marrocos, aqueles árabes, bem, a prostituição começa aos quatro ou cinco anos, não estou a exagerar. Olha, lembro-me de um dia em Marraquexe, aquela velha cidade árabe muralhada. Sentei-me nas ruí­nas de uma parede para fumar um charuto, estava imenso calor e uma mu­lher árabe pôs-se na estrada a olhar para mim até eu me sentir incomoda­do, estava ali em pé, imóvel, no meio daquela estrada poeirenta e escaldante, a olhar para mim até eu me sentir incomodado. Mas ouve is­to. Ela tinha uma criança ao colo, uma menina nua ao colo, que ainda mal sabia andar e passado um bocado põe a criança no chão, sussurra-lhe al­guma coisa e empurra-a. Esta criança caminhou na minha direcção, mal sabia andar, veio ter comigo e ...
Meu Deus, lembrar-me disto até me põe doente! Levantou as mãos e tentou desabotoar-me as calças!
Aquela criança não devia ter ainda cinco anos! Acreditas ou pensas que estou a inventar isto? Regressei ao hotel e disse à Mamã, faz as malas! Vamos embora deste país ...
BRICK - Papá, hoje está falador.
PAPÁ POLLITT (ignorando o comentário) - Sim, senhor, é assim que as coisas são, o animal humano é mortal, mas o facto de morrer não faz com que tenha piedade dos outros, não senhor, (...)
BRICK - Sente-se melhor, Papá?
PAPÁ POLLITT - Melhor? Caramba! Posso respirar! ... Passei a vida to­da de punhos cerrados ... (Serve-se de uma bebida.) A bater, a esma­gar, a mandar! Agora vou abrir estas mãos e tocar nas coisas com cal­ma ... (Estende as mãos como se afagasse o ar.) Sabes em que estou a pensar?
BRICK - Não. Em que está a pensar?
PAPÁ POLLITT - Ah! Ah!. .. No prazer! No prazer com mulheres! Sim, rapaz. Vou dizer-te uma coisa que talvez não saibas. Ainda sinto desejo pelas mu­lheres e faço hoje sessenta e cinco anos.
BRICK - Isso é notável, Papá.
PAPÁ POLLITT - Notável?
BRICK - Admirável, Papá.
PAPÁ POLLITT - Podes crer que é notável e admirável. Percebo agora que nunca tive que chegasse. Deixei passar muitas oportunidades por causa dos escrúpulos. Escrúpulos, convenções - porra ... é tudo tre­ta, treta, treta! ... Foi preciso sentir a sombra da morte para ver isso. Agora que essa sombra desapareceu, vou libertar-me e, como se diz?, divertir-me à brava!
BRICK - À brava, hum?
PAPÁ POLLITT - É verdade, à brava, à brava! Raios partam! Dormi com a tua mãe até, deixa cá ver, há cinco anos atrás, até eu ter sessenta e ela cinquenta e oito, e nem sequer gostava dela, nunca gostei! (...)
Quando a tua mãe sai da minha frente, não me consigo lembrar da cara dela, mas quando ela regressa, rapaz, então vejo como é a sua cara, e digo-te preferia não ver! (...) Tudo o que peço a esta mulher é que me deixe em paz.
Mas ela não consegue aceitar que me provoca náuseas. Foi de ter tido que dormir com ela demasiados anos. Devia ter parado mais cedo, mas o raio da velha nunca se fartava ... E eu era bom na cama ... Nun­ca devia ter desperdiçado tanto com ela ... Dizem que temos apenas uma quantidade limitada e que cada uma está numerada. Bem, ainda me sobram umas quantas, umas quantas, e vou escolher uma jeitosa para as gastar com ela! Vou escolher uma de primeira qualidade, não me interessa quanto me vai custar, vou abafá-la em casacos de pele de ... marta! Ah! Ah! Vou despi-la toda e abafá-la em casacos de mar­ta e sufocá-la com diamantes! Ah! Ah! Vou despi-la toda, sufocá-la com ouro e diamantes e abafá-la em casacos de peles e pôr-me nela todo o dia e noite!! AH! AH! AH! AH! (...)"

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

... Nexus Plexus e Sexus uma trilogia à portuguesa...

… nenhum homem passava despercebido às cabeleireiras do salão de beleza.
- Não usa aliança mas é casado, não é?
- Casou há 7 anos. Tem dois filhos, um com 8 anos e o outro com 5.
- A noiva já ia de 4 meses…
- Deve ser fresco deve…
- Porque dizes isso? Olha que já é nosso vizinho há mais de 10 anos e nunca vi nada…
- Pois, pois…
- Fala, o que é que sabes?…
- Ontem voltei ao salão, esqueci-me do computador… já passava das 11 da noite… e vi-o sair com uma loira…
- E não seria a mulher? Ela pintou o cabelo…
- Não conheço a mulher, mas pareciam-me muito divertidos para um casal com 8 anos de vida em comum… e iam até de mão dada…

comentavam as duas cabeleireiras sobre o homem, o dono da loja de comércio de peças para automovel, situada do outro lado da rua. Soubessem elas tanto como o autor desta história e não teriam assunto para conversar, pelo menos acerca da suposta vida dupla da personagem principal… A loira que levantara suspeitas era na verdade a sua esposa!...
- Há casais e casais. Nem todos se dão mal!
- Mas que fazia ali àquela hora?
- deve ter-se esquecido e ligar o alarme…
- Pode ser que me engane, mas santo é que ele não é!
- Se fosse estava no altar!
- Ele é um devasso!, Já o apanhei a olhar para nós com aquele olhar porco…
- Com olhos de quem nos quer comer…
- Um homem casado!!! Tenho-o debaixo de olho…
… elas continuavam a comentar sobre a vida do homem, e continuariam não fosse o autor achar por bem cortar-lhes a palavra. Se o não fizesse a conversa poderia descer ainda mais de nível!
falavam agora sobre um homem que havia sido pai pela terceira vez... ainda não eram 15 horas quando recebeu a noticia... uma hora depois entrava no Hospital para visitar a esposa... enquanto ensinava o guarda a escrever o seu nome na lista das visitas... estranhou ver na mesma o nome de alguém que lhe era familiar... o do padre da paróquia... soube primeiro que eu??, estranho muito estranho!!!! a suspeita não era infundada. Três relatórios de exame de DNA depois soube o pobre do homem que pai só havia sido uma; os últimos dois filhos que tinha como seus, o DNA garantia a 99,9999% eram do padre. Isto há coisas! Depois daqueles relatórios de exame o homem empalidecera, e via-se pelo seu semblante que ali morava a tristeza. Dizia-lhe o amigo
- Felisberto, a alegria é coisa mais séria da vida! O teu é o primogénito! Se não aguentas a desonra, arranja outra mulher, homem… Olha agarra em algum dinheiro, e faz uma viagem! Vai ao Brasil,e vens de lá curado! Sabes como te livras desse grande problema?? Arranjando outros!
- Odeio padres! Puta que os pariu!...
… interrompe aqui e agora o autor porque não é sobre padres esta história, mas sim sobre um vendedor de peças de automóvel, que não atendia senhoras mas sim mecânicos.
- Queria uma embraiagem para o GOLF 4, um filtro de oleo e outro de gasoleo,e uma correia… é para o meu carro, não queiras saber Manel, ia a caminho de Évora para me encontrar com a outra e o carro despistou-se na estrada, tive que ligar para a minha mulher, que tem carta, a outra não tem!, e ela veio logo muito preocupada comigo … já não fui capaz de lhe pedir que me levasse a Évora… e ela queria-me levar, mas não fui capaz…
- Deixa lá, da próxima vez não te despistas! É isto não é? Tudo somado e já com o desconto são 169 euros…
- e tu, da tua vida? Nunca tens nada para contar?
- Só me aparecem mecânicos, e eu também nunca saio daqui. Devia vender era roupa para senhora…
…quer crer o autor desta história que alguma entidade mágica, um mago, um encantador ou um bruxo deva ter escutado o desabafo do vendedor, pois ainda não eram dois minutos passados que o mecânico saíra quando entrou pela mesma porta uma mulher deveras atraente…
- Diga, o que deseja.
-Boa tarde, era um filtro de ar para um BMW 320D…
- É um bom carro, não é.
- Não me diz nada. É do meu marido. Eu tenho um Smart.
- Esse é pequenino.
- Sim, e mais económico!
- Mas desculpe a pergunta, o seu marido manda-a a si… geralmente mandam os mecânicos!
- Ele em mim não manda. Pediu-me que lhe comprasse somente…
- Ah percebe de carros…
- Sei um pouco de tudo, sou professora…
- Professora de?
- Filosofia!
- Olhe e dá explicações?
- Dou
- É que tenho um primo que ainda tem a disciplina de filosofia para fazer…
- Aqui tem, dê-lhe o meu cartão…
- Obrigado.
(continua)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

silêncio total - o forcado fala (1ª Parte)

… um dos objectivos estava alcançado, há mais de um mês que confessara a um dos amantes a existência do outro. Faltava agora informar o “desconfiado”, e contar ao agora soubera que ainda não dissera a verdade ao outro; não seria fácil mas ainda considerava útil contar-lhe …
- sabes tenho uma coisa para te falar… sobre a minha relação…
- Qual?... Tu tens duas…
- A relação com ele. Sabes, é uma relação aberta de uma omissão, ainda não lhe disse que andamos…
- ???? ah não?!, e quando é que lhe vais dizer…?
- ???
- Sim, quando?
- porque és assim mau? Porque me pressionas? Careço de meios materiais… Se soubesses o quanto sofro… pensas que é fácil, pensas?…

… faltava pois, para se sentir mais segura, e não perder os mimos dos amantes por um mal entendido, dizer ao João - em abono da verdade o João chegara primeiro à sua vida e tinha por isso ganho o estatuto do primeiríssimo!
… enquanto assim pensava tocou no telemóvel polifónico a fuga de Bach…
- Não atendes a chamada?
- É ele, o João! Por favor, cala-te agora ! Vou atender…
- Esta? Está? sim sou eu, quem querias que fosse?
- Não te estava a ouvir…
- Nem eu. É da ligação, está péssima… Porque ligaste?
- Para saber se estás bem?
- Estou bem, estou muito bem. (rindo-se para o outro)
- Pois ainda bem!,
- Olha podes ligar mais tarde, estou-te a ouvir mal…
- Está bem! Vem cedo para casa, olha que hoje é o dia da Tourada no Campo Pequeno!
Já adquiri os bilhetes…

O João fora-lhe apresentado dois anos atrás por uma das suas melhores amigas. depois da conhecer não parara mais de lhe enviar smss, tentara até por mais que uma vez roubar-lhe um beijo!, dizia dele - é persistente! o maior chato que conheci! e ainda por cima é forcado!...
- e que mal tem em ser forcado? Ora, se ele gosta de ti…
- Não. Ele diz que gosta mas o que ele quer é ter um caso…
-e tu não queres?
- Eu a ter um caso prefiro uma casa.
- pois filha homens a viver sozinhos com casa desocupadas são muito raros… Ainda vive com os pais?
- Já não vive. Ele tem casa. Mas só a tem para ter casos… canso-me de lhe dizer que me esqueça!,… mas ele insiste!
- como é que ele arranjou o teu número?
- Fui eu que lho dei, maldita a hora…

(...) / ( em elaboração - nota do autor)
Nesse dia em vez de se ligarem por telemovel combinaram encontrar-se, e quando o forcado lhes apareceu à frente, a que o conhecia apresentou-o à amiga!
- É ele? É o João?
- É!

Sentados à mesa, o forcado, a heroína desta história e a amiga, conversavam sobre não sei o quê… onde estavam, do outro lado da esplanada tendo como fundo o palácio Galveias e alguns pavões, não dava para os escutar, mas li-lhes os pensamentos:
Os da heroína: ele não tira é os olhos de cima de mim!
Os do forcado: vai me calhar em sorte!, (ria-se).
Os da amiga: Os homens são todos iguais! Não pára de olhar para ela…
… 4 meses depois… aconteceu! Aqueles que haviam sido apresentados, apareceram-lhe à frente de mão dada.
- Foste tu que nos apresentaste… Lembras-te?
- Lembro-me…
- Estamos muito felizes! (fim da 1ª Parte)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

carta a todos os leitores de Henrik Ibsen

Como acontecia nesse tempo, quando um livro dum Autor me inspirava a lê-lo - logo da obra, e acerca da, procurava ler absolutamente tudo. Aconteceu com Cervantes, Shakespeare, Dostoievski, Becket, Kafka, Homero, Proust, Ibsen, Nietzsche, Shopenhaeur, George Orwel, Nicolau Gogol, entre outros... Os esforços para encontrar as obras completas soçobravam diante da realidade editorial.. De Ibsen descobria apenas publicado em português a peça O PATO SELVAGEM e A CASA DE BONECAS. Procurava por tudo o quanto era livraria biblioteca alfarrabista e nada! Lembro-me bem. Fiquei tão triste e angustiado de não poder ter como ler mais Ibsen (quando tanto o desejava) que era como ver a mais linda das virgens nua e nada! não era pior, porque ver já é verdadeiramente alguma coisa... Entendem?... Era mais que carnal! Desejava aqueles livros - trocava-os por um orgasmo com a Ava Gardner! Estava agarrado a eles pela vontade, pelo ideal! Queria aprender a escrever melhor e doia-me imenso não ler o verdadeiramente bem escrito; tornara-me exigente. Depois de Cervantes e de muitos outros clássicos, já quase não arranjava mais para ler por achar quase tudo mal escrito! - sem estilo.
... a boa notícia veio no Século XXI, a fome de 20 anos deu em fartura; finalmente uma editora de Portugal fez obra! traduziu e publicou quase toda a dramaturgia de Ibsen. Assim que desse feito fui notificado: pensei comprar e ler todos os livros, porém por saber que eles estavam acessíveis (assegurados) fui adiando a compra. As peças estão ai! e são sublimes!, não vos conselho nenhuma peça, aconselho todas!
Ibsen chegou a ser o escritor mais conhecido da Europa a seguir a Leon Tolstoi! o autor do clássico Guerra e Paz e do injustamente menos conhecido "A Morte de Ivan Ilicht".

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

a surpresa o drama a tragedia o horror

… ao oitavo ano da presente década havia um homem que só tinha uma hora para almoçar. Ao meio dia desceria as escadas sem pressa e chegado à rua pensaria a qual restaurante ir, se não se houvesse dado em sua vida uma alteração comportamental: Em vez de almoçar corria para a estação de Metro mais próxima, para sair na seguinte. Atravessava depois a rua e estacava perto da porta principal do edifício do Banco, de onde àquela hora haveria de ver dezenas de pessoas sair. De todas, uma havia que o fazia estar ali… A ideia era falar-lhe, porém mal a viu sentiu-se incapaz da interpelar.
Quando o vi ali parado olhando as pessoas a sair do edifício, pensei que esperasse alguém; pareceu-me um tanto magro e era visível a mesma agitação interior dos tempos da escola...
-Que fazes por aqui amigo?
- Eu? (Surpreso...)
-Sim tu!, Que fazes por aqui?
-Aproveito a minha hora de almoço para ver quem gosto…
-E sobra-te tempo para almoçar?
-10 minutos.
-Isso é amor? Ou Loucura?
-Antes fosse loucura!
-Quem é ela?
- Se eu soubesse…
- Um dia declaras-te.
- Como amigo? Como?
- Subtilmente!
- Eu queria ser o mais explicito possível…
- Não! Fá-lo subtilmente! Sem tu próprio dares por isso…
(...)
...Ora as probabilidades de se declarar sem que ele próprio se apercebesse eram escassas! mas não impossíveis. Sabia que teria apenas de aparecer no Banco e consultar o saldo da sua conta bancária, e quiçá o futuro não lhe reservasse dizer subtilmente o que não sabia como...
E do mesmo modo que as pessoas sonham a dormir com as pessoas que há muito desejam acordados, involuntariamente, inspirado pelo contacto de vê-la e de ouvi-la, lhe saiu súbito quer das mãos quer dos lábios os actos e as palavras a declaração sublimar - subentendida - que estava a bem dizer em nota de rodapé em letrinha minúscula, mas ainda assim legível.
Uma dessas vezes, sentado, diante dela, em consequência do como a via manusear o mouse, agarrou-lho, virou-o de modo a abri-lo e limpou-o da sujidade acumulada nas rodas com esmerado cuidado. Lembrou-me o relojoeiro da vila onde cresci, que aproveitava a profissão para tocar no pulso das senhoras. Ao vê-lo limpar o mouse, ela ficou perplexa. Era a primeira vez que alguém tivera esse cuidado. Sem saber o que dizer, levantou-se da cadeira e desapareceu dali. Veio 2 minutos depois com duas folhas de papel de limpeza. Estendeu-las depois, agradecendo-lhe!
Uma outra vez, aconteceu no mesmo lugar e na mesma cadeira, de há um ano atrás, quando, lhe falou por acaso de um casaco que ela por há muito não vestir já quase esquecera…

Ele: - Lembro-me que a via muitas vezes com um casaco cinzento claroo…
- (pausa) quando ela do casaco se lembrou. Ela: – ah sim tenho sim, já está guardado a algum tempo no armário. Sim dessa cor.
Ele: - pois eu não invento!

Uma outra vez, ao passar em frente do seu Guiché para se sentar no sofá da sala de espera olhou para o local onde habitualmente ela trabalhava mas não a vira lá. Pensou "Será que hoje não veio? Não, ausentou-se por momentos..." então enquanto lia um artigo de uma revista que por ali estava, ouviu sobre os diversos sons que provinham de todo o lado uma voz que lhe soou familiar. Era a voz dela, imaterial. Ao reconhecer-lhe a voz logo soube em si a qualidade da reconhecer.

Nesse tempo ele amava-a pelo pouco que via e reconhecia nela. Das suas mãos e dedos que não tinham nem anéis nem aliança, a independência! Do modo atencioso como o tratava como cliente, a simpatia! Do seu modo de andar, a graça a feminilidade.
Mas nem sempre vê-la lhe trouxe a felicidade sonhada! Aconteceu uma vez num desses períodos de almoço adiados, a visão de algo que se pudesse teria evitado testemunhar!, à hora do almoço passou pelo Campo Pequeno e viu-a acompanhada por um homem de fato. Seria um amigo? seria se não fosse ter testemunhado enquanto subiam na passadeira rolante de acesso à entrada do Centro Comercial um beijo demorado!... o que profundamente, a pontos de se dar na sua vida uma nova alteração comportamental. Durante o tempo que se saberá agora, que foi de meio ano, não procurou voltar a vê-la.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Walt Whitman - 32

32
“Julgo que poderia mudar e viver com os animais, são tão plácidos e tão independentes,
Fico a olhar para eles um tempo infinito.
Não se cansam nem se lastimam com a sua situação
Não ficam acordados na escuridão, nem choram os seus pecados,
Não me enfadam com as suas discussões sobre os deveres para com Deus,
Nenhum se sente insatisfeito ou enlouquece com a obsessão de tudo possuir,
Nenhum se ajoelha perante outro, nem perante a sua espécie que viveu há milhares de anos,
Nenhum é respeitável ou infeliz à face da terra.
Assim mostram a relação comigo e eu aceito-os
Trazem-me testemunhos de mim mesmo, mostram claramente que deles são os possuidores.
Pergunto a mim próprio onde obtêm esses testemunhos,
Terei passado por ali em tempos remotos e tê-los-ei perdido por negligência?(…)”

domingo, 26 de setembro de 2010

Walt Whitman - Louisiana

“Vi em Louisiana um carvalho a crescer
Estava isolado e o musgo pendia dos seus ramos,
Sem um companheiro, ali crescia soltando folhas jubilosas verdes escuras…
E o seu aspecto rude, firme e vigoroso fez-me pensar em mim.
E interroguei-me como ele conseguia soltar folhas jubilosas estando ali só, sem o seu amigo, pois eu sabia que não o conseguiria.
(…) e embora o carvalho cintile lá em Louisiana solitário numa vasta planície,
Soltando jubilosas folhas toda a sua vida, sem um amigo, um amante próximo,
Sei muito bem que eu não o conseguiria.”

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

nao consigo conceber...

...um ser angelical ter que morrer!!!
...é o derradeiro objectivo válido do homem: a imortalidade da beleza, a da vida!... não vejo outro mais árduo e difícil!... julgo que a humanidade porá toda a ciência ao serviço desse objectivo! porque não há coisa que mais enoja que a condição humana, o envelhecimento do corpo, a sua decrepitude - a carne podre!... enoja principalmente a nós os que lambemos com o pensamento a sensualidade do belo...
Nós os que nascemos condenados à morte! criámos o direito ... leis para abulir a pena de morte até para com os assassinos... e então os inocentes? porque terão que morrer...? que vergonha...
...pobres mortais que aceitais a morte (para sofrerdes menos) que até chegasteis ao cumulo de dizer bem dela! decerto porque nao amais o suficiente a vida, porque não a amais ao ponto de a desejares para sempre!... A imortalidade nao assusta os Deuses, A eternidade é o seu Paraíso!

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

confissoes de uma aficionada da tauromaquia...

… Qual a combinação de factores na vida de uma mulher até à prostituição?
...os factores que levaram a V. a prostituir-se foram: primeiro: a relação afectiva com um homem violento! Ainda não tinham celebrado o primeiro mês de namoro e já ela o ouvia ameaça-la de morte, - a amiga cabeleireira sua confidente escutava-a - com ódio nos olhos diz que me mata caso eu termine a relação! – ontem puxou o cortinado da janela e enrolou-mo no pescoço com violência! - chorei a minha desgraça e depois disse-lhe o que ele queria ouvir, prometi-lhe que o não deixaria!...
durante um mês, todos os dias, jurava que nunca o iria deixar! não bastou, a violência continuava... duas a três vezes por semana ele possuía-a e cinco e seis vezes por mês ele ameaçava-a…
Até quando?
… até que ele veio para Portugal trabalhar, deixando-a no Brasil grávida. Uma jovem mulher que conheceu um único amante não se liberta facilmente da carne… e grávida ainda menos, porque agora ele é será sempre o pai. A violência e o medo eram mais que razões para não ir atrás dele... Mas foi! e porquê? Porque a mãe disse-lhe que o filho tinha mudado! Todavia em Portugal a brasileira teve do brasileiro mais do mesmo! Porrada à quinta-feira quando não era à quarta e ameaças de morte à segunda-feira, quando não era Domingo… A saudade dos entes queridos, uma vida de guerra aprisionada pelo medo e a falta de amigos a quem recorrer minaram-lhe a saúde… foi ao fundo do abismo e para não enlouquecer subiu-lhe o suicídio à cabeça… pensou-o e fê-lo!, com comprimidos! O seu acto não teve uma desfecho trágico por uma unha negra, foi socorrida a tempo…
… dias depois, sem qualquer estratégia - enquanto trabalhava com o marido em cima dum andaime no 7º piso a lavar vitrinas – disse-lhe que o ia deixar. O homem reagiu como sempre reagia, mal – com ódio. Agarrou-a pelas costas e levou-a à força para a beira do andaime. Lá de cima fê-la olhar cá para baixo. Não fosse a pronta reacção de uma terceira pessoa e o seu corpo teria feito no trajecto da queda uma perfeita linha recta. Já tinha escapado da morte 3 vezes! do cortinado enrolado no pescoço, dos comprimidos misturados no estômago e de uma potencial queda do sétimo andar... então, um dia decidiu que estava disposta a tudo, esperou pela oportunidade de estar sozinha e saiu do lar das ameaças sem saber ao certo para onde… bateu em muitas portas blindadas... procurava uma nova casa, um novo trabalho, alguém que a acolhesse... e dias depois, a olhar-se ao espelho, temeu o frio de ser arrastada para baixo do limiar da pobreza... por isso, para manter a dignidade foi trabalhar para um bar de engate!,
… Os bares de engate que eu espreitei há anos atrás, eram escuros, com musica ambiente a meio som e tinham como clientes grupos de homens com as mais variadas profissões, desde mecânicos de automóveis a empresários da construção civil. Assim que eles se sentavam vinham duas ou três meninas perguntar se lhes pagavam algo de beber… elas explicavam-lhes que era a condição para poderem ficar a conversar com eles… se pagassem uma ou duas garrafas de champanhe permaneceriam com eles mais tempo… entre elas havia as que se prostituíam e as novas na profissão que o não faziam ainda…
… a decisão de trabalhar num desses bares de alterne foi um dos factores para a prostituição de facto… desse trabalho de empregada de bar de alterne até ao de se prostituir na rua foi um passo… disseram-lhe que ganhava mais...
... é cómica! quando o amigo lhe pergunta qual a posição que gosta mais, diz que é a sinto, a sinto muito! No quarto da pensão para onde leva os clientes, se lhe pedem para se pôr de quatro para mostrar o rabo, nega-se a fazê-lo – diz que não gosta de se sentir mulher objecto!, se lhe perguntam se engole, diz que sim mas só leite de vaca… não geme porque diz que é ridículo… e não goza porque não sente prazer com homens desconhecidos… se lhe dão palmadas no rabo vira-se para trás e diz ao cliente – pare com isso!
... tem um rosto belo de traços finos mas não deixa que lhe tirem uma foto... receia decerto... o quê não sei... diz como se fosse de admirar, que o pai do seu segundo filho com quem se juntou, era seu cliente!, - fala no filho com ternura - mostra as fotos dele que guarda da carteira às pessoas de quem gosta! revela sentido orgulho em afirmar que a irmã é uma mulher direita e bem casada!
… passado alguns anos neste trabalho que ela alcunha de tourada tem hoje menos pudor em confessar o que faz...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

o escritor tem uma história para vos contar…

não era uma vez um homem feliz, era um farrapo de um ser humano que vasculhava o lixo com profundidade, enfiando os braços e as mãos dentro dos contentores... quando acontecia vê-lo tinha o cuidado de ser discreto para lhe poupar a vergonha que pudesse sentir ao ver-me; notei depois o erro em ter para com ele esse cuidado, porque quando uma vez me viu foi como se eu não estivesse ali… Era imune a essa vergonha… aprendera a não esperar que não houvesse ninguém para o ver… A sua total indiferença remetia-me para a frase os outros sempre serão outros… e o desprezo que lhes dava (a quem o pudesse estar a ver) era bem patente ao continuar a vasculhar o lixo - como se não houvesse viva alma a observá-lo - em busca de algo que pudesse ter algum valor... Ao pensar que por causa da vergonha nos inibimos de agir, perdendo o valor da oportunidade, senti vontade de ter para com o mundo igual indiferença!
...Contou-me um amigo que uma vez não pediu o telefone a uma mulher que havia conhecido, e com quem conversara durante horas, por vergonha de o fazer num velório… Mas onde é que está escrito que não se pode pedir o número de telefone a uma mulher num velório?! foi o que eu lhe disse… agora ele espera o acaso de voltar a ver, apesar de dizer que tem quase a certeza de isso não vir mais a acontecer… perdeu a oportunidade e não terá outra!, é como ir atrás de uma mulher bonita e não entrar no mesmo metro!... é um fenómeno comum entre os homens, aproximarem-se de um desconhecida com ganas de a conhecer para depois recuarem… sem se conseguirem apresentar…
outro dia um politico qualquer apareceu na TV com um corte de cabelo desacertado, e ouvi o comentário do meu amigo sexagenário…
- há cada corte de cabelo, lá para os meus lados - referindo-se aos Punks - vejo cada galo de Barcelos…
Achei-lhe piada porque tenho bem presente a imagem de um galo de Barcelos e a crista enorme… enfim quando menos se espera ouve-se um dizer um comentário com piada…
Quando os oiço tento memorizá-los para depois deixá-los escritos!... é caso para dizer que a Arte é filha da memória…
Jantava outro dia um amigo meu com uma senhora que angaria para ela mesma clientes na rua, confessando-lhe ela que lhe doíam as nádegas porque caíra de bêbada numa discoteca…
- Como é que foi isso possível, não bebes um vinho maduro às refeições porque tem álcool e embebedas-te num sábado à noite…
- Dói-me isto tudo – tocando com a palma da mão nas nádegas – hoje não vou poder trabalhar…
- Ah pois não vais não!
Conta-me que lhe pergunta como é que ela foi parar àquela vida…
- Como é que vieste parar à prostituição? Conta-me!
(…)