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segunda-feira, 27 de junho de 2011

quando os Doutores se elogiam - in Dom Quixote

"- Saberão vossas mercês que num lugar que fica a 4 léguas e meia desta venda, sucedeu que a um regedor da terra, por indústria e engano de uma criada sua lhe faltou um burro. E ainda que o tal regedor tivesse feito todo o possível por encontrá-lo, não o conseguiu. Quinzes dias seriam passados, segundo é pública voz e fama, que o burro faltava, outro regedor do mesmo lugar lhe disse:
«- Dai-me alvíssaras, compadre, que o vosso jumento apareceu.
«- Eu vo-las darei, compadre, mas saibamos onde apareceu.
«- No monte – respondeu o achador. – Vi-o esta manhã sem albarda e sem aparelho algum, e tão fraco que até dava dó olhá-lo. Quis enxotá-lo diante de mim para vo-lo trazer; mas está tão montês e tão intratável que quando me aproximei ele desatou a fugir e entrou no mais recôndito do monte. Se quereis que voltemos os dois a procurá-lo, deixai-me pôr esta burrica em minha casa, que volto já.
«- Grande favor me fareis – disse o jumento – e procurarei pagar-vos na mesma moeda.
«Com estes pormenores todos e da mesma maneira que o vou contando, contam-no todos os que estão inteirados da verdade deste caso. Em suma, os dois regedores a pé e lado a lado partiram para o monte, e chegando ao lugar e sítio onde pensaram encontrar o burro, não o acharam, nem apareceu por todas aquelas redondezas, por mais que o procurassem. Vendo, pois, que não aparecia, disse o regedor que o tinha visto para o outro:
«- Olhai, compadre: ocorreu-me ao pensamento uma traça com a qual sem qualquer dúvida poderemos descobrir esse animal ainda que esteja metido nas entranhas da terra e não apenas neste monte; e é que eu sei zurrar maravilhosamente, e se vós souberdes nem que seja um pouco, dai o caso por concluído.
«- Nem que seja um pouco, dizeis vós, compadre? - retorquiu o outro. – Por Deus que nisso ninguém me leva a palma, nem sequer os próprios burros.
«- Agora o veremos – respondeu o segundo regedor. – Porque a minha ideia é irdes vós por um lado do monte e eu pelo outro, de modo que o rodeemos e percorramos todo, e de espaço em espaço zurrareis vós, e zurrarei eu, e o burro não poderá deixar de ouvir-nos e de responder-nos se estiver no monte.
« Ao que respondeu o dono do jumento:
«-Digo, compadre, a traça é excelente e digna do vosso grande engenho.
«E separando-se os dois, segundo o combinado, sucedeu que zurraram quase ao mesmo tempo, e cada um, enganado pelo zurro do outro, correu a procurar-se, pensando que o jumento já tinha aparecido: e ao verem-se, disse o que perdera o burro:
«- Acha possível, compadre, que não tenha sido o meu asno que zurrou?
«- Não, fui eu que zurrei – respondeu o outro.
«- Agora digo – tornou o dono – que entre vós e um asno, compadre, não há diferença nenhuma no zurrar, em minha vida nunca vi nem ouvi coisa mais igual.
«- Esses louvores e encarecimentos – replicou o da traça – melhor vos ficam e tocam a vós que a mim, compadre; que pelo Deus que me criou, que podeis dar dois zurros de vantagem ao mais perito zurrador do mundo; porque o som que tendes é alto; o sustenido do coice a seu tempo e compassado, as modulações muitas e encadeadas; e, em suma, dou-me por vencido, rendo-vos a palma e dou-vos a bandeira desta rara habilidade.
«- Agora – respondeu o dono do burro – digo que doravante me terei em maior conta e pensarei que sou alguma coisa, pois tenho algum valor. Que embora eu pensasse que zurrasse bem, nunca imaginei que chegasse ao extremo que dizeis.
«- Também direi agora que há raras habilidades perdidas no mundo e que são mal empregadas naqueles que não sabem aproveitar-se delas.
«- As nossas – respondeu o dono -, a não ser em casos semelhantes ao que temos entre mãos, não nos podem servir em outros; e mesmo neste, praza a Deus que nos sejam de proveito.
«Dito isto voltaram aos seus zurros, e a cada passo se enganavam e voltavam a juntar-se, até que combinaram, para saberem que eram eles e não o asno, que zurrariam duas vezes, uma atrás a outra. Com isto, dobrando a cada passo os zurros, rodearam todo o monte sem que o perdido jumento respondesse nem por sombras. Mas como havia de responder o pobre e malogrado animal se o foram encontrar meio comido pelos lobos?
«Ao vê-lo disse o dono:
«- Já me admirava que não respondesse, pois a não estar morto, responderia se nos ouvisse, ou não fosse asno; mas em troca de vos ter ouvido zurrar com tanta graça, compadre, dou por bem empregado o trabalho que tive em procurá-lo, embora o encontrasse morto. (…)”
by Cervantes, in Dom Quixote.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

- donkey - burro e cenouras

… o meu pai quando me viu com a mão no volante e a outra no travão de mão a conduzir com destreza repreendeu-me «agora conduzes à Fangio” eu nunca ouvira falar de Fangio; descobri–o depois no Google como um dos melhores pilotos de Formula 1, autor da frase "Fui apenas um corredor de automóveis. Não fiz nada para o bem da humanidade". Sem querer a sua censura congratulara-me com um elogio! percebi de imediato que a minha destreza ao volante o enervava e reduzi a velocidade…
Acontecia também reduzir a velocidade por outros motivos. Uma mulher esbelta a andar no passeio; foram e ainda são tantas que nem vale a pena perder-me a relembrá-las!, lembro-vos sim o motivo da ultima travagem, foi ter visto ameixas numa ameixoeira. A árvore estava num canto dum pequeno quintal de uma casa pequena e desabitada. Um pequeno muro branco separava-a da estrada de alcatrão – reparo com pena numa grande ramada que certamente quebrara com o peso do fruto, inúmeras ameixas verdes e amarelas que tocavam agora a relva não muito alta. Eu que na infância vira ameixoeiras do tamanho de carvalhos vergadas pelo peso dos frutos e em redor delas centenas de abelhas, que entravam literalmente dentro das ameixas, achei aquela árvore pequena e as ameixas igualmente pequenas. Colhi algumas tendo o cuidado de preferir as de cor doce em detrimento das verdes ainda amargas. Depois de desfrutar o prazer de ter encontrado uma árvore de fruto com ameixas maduras, dirigia-me para o carro quando reparei num burro a pastar. Estava numa área vedada com uma rede de arame fino; ele ao ver-me aproximou-se e eu dele. Ocorreu-me pensar que pudesse gostar de ameixas, e com cuidado dei-lhe uma, ele tirou-ma dos dedos prensando-a com os beiços do focinho - vi-o e ouviu-o a comer– com aquele som característico – de um burro a mascar favas – como ouvia a minha avó dizer a quem fizesse muito barulho com a boca – dei-lhe a seguir outra ameixa – entretanto vejo um carro, pára e de dentro dele sai um homem sexagenário de barba grisalha com um saco transparente na mão meio cheio. São cenouras. Cumprimenta-me o turista em inglês, noto-lhe a alegria, certamente por voltar a ver o seu amigo e lhe ir dar cenouras. Ensino-lhe que donkey se diz burro em português, e digo-lhe que gosta de mais de ameixas do que de cenouras. Olhamos um para o outro.
- It likes to eat Maria Cooks, não o entendo à primeira, ele repete Cook's Maria
- ah bolachas Maria!, eu também!!
(rimo-nos.)
Pergunto-lhe, depois da quarta cenoura, se é um he ou uma she. Ao que ele me responde - virando as palmas da mão uma para a outra separadas um metro – is a he, it´s a big boy . (…)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Hirsutismo Masculino

bem verdade perguntam a meu respeito se estou morto - de tão habituados estarem às graças do meu espírito espantam-se agora da minha mudez - ora se se conhecessem melhor não se admirariam - não saberão que só devemos falar para quem merece ouvir? - e quem mais que os meus leitores? ninguém. Assim calo este silêncio de morte - sem palavras - para vos contar um episódio de vida - como ela é. Aconteceu que uma vez, enquanto me rodo-transportava dentro de um autocarro da Carris olhei para algo que nunca vira – certamente por não haver mulheres, olhei para um velho distinto dos demais. A sua alta e grossa compleição física diferenciava-o, mas não tanto como o que exibia em redor das suas duas orelhas, um tufo de pêlos. De facto de dentro delas saiam um molho de pêlos que pendiam a meio para baixo... confesso que por vê-lo ostentar tão graciosa pilosidade veio-me a vontade de rir – contive-me um tanto - abomino envergonhar alguém. Disto tudo me lembrei a propósito de me ter cruzado com um amigo, um cinquentão bonacheirão de cara sorridente – questionava-me ele como fazer o registo no Badoo quando a minha atenção já não o ouvia por olhar curiosamente para uns pêlos crescidos sobre a pele superior do seu nariz – uns pêlos compridos pretos e outros brancos no total de um dezena - mas em número mais assustador contavam-se os que saiam dos orifícios dos seus dois pavilhões auriculares – vai dai disse-lhe:
- Olha antes de colocares uma foto no Badoo corta os pêlos do nariz e os tufos das orelhas...
- Tens razão
- Pois tenho, sabes, as mulheres reparam nessas coisas…
- Elas são muito mais que nós... a cuidarem-se…
- Sim são mais atentas aos pormenores…
- Se são! Olha que hoje no autocarro umas gaiatas teenagers vinham atrás de mim a rirem-se muito, eu não sabia de que é que elas se estavam a rir, então senti que me estavam a tocar nos pêlos das orelhas com os dedos, e confirmei porque deixei-me estar quieto, como se não sentisse, enquanto as via através da vidro da janela do autocarro
– muito elas se riam! dos meus tufos e da ousadia da amiga! menos mal, deu para divertir as garotas... até fiquei contente de vê-las a rir...

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Antónia Gato

… cada dia que passa sem te ver pesa-me como uma tonelada, esmaga-me como a um insecto e digo-te não mereço isto, a mais que sou uma joaninha, mesmo que uma mosca fosse não o merecia. Preferia ser levada no bico de um pardal dos beirais.... Mas não sou uma mosca, digo-te. Agrada-me antes o perfil vermelho e redondinho das joaninhas salpicado de pontinhos pretos. Já tiveste uma joaninha a passear na tua mão? É inesquecível. Ainda me lembro no campo da minha infância minha avó me ensinar, Joaninha avoa avoa que o teu amor está em Lisboa. Ora nem a propósito Antónia...

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A arte Xávega na Vieira de Leiria e a poesia

...por mais que vos torneis insensíveis às opiniões abjectas do vulgo a respeito da arte criativa , ainda assim lembrai-vos que o respeito com o passado é um compromisso pelo futuro. Assim, surpreso de ouvir duma mulher a confissão franca e esclarecedora «Nunca gostei de poesia...» senti enorme e aliciante a responsabilidade...
Ouvia-a dizer «Nunca gostei, não gosto de poesia!»
«Não gostas?» perguntei-lhe...
Via a rir-se acenando afirmativamente.
Aconteceu então lembrar-me de:
Sempre que contava duas histórias a alguém, a determinado momento da narração eu revia as mesmas reacções. Eu não sei se ao ouvir-se uma história a emoção se manifesta por um calor no rosto, o súbito erguer dos olhos abertos, revelando-se neles o tremeluzente brilho de contidas lágrimas, não sei; mas eram essas as reacções de quem as escutava… Ora haveria d’as querer testemunhar novamente...
Retorqui-lhe «Não gostas de poesia!? mas isso é impossível!»
Precisava prová-lo. Astuto, simulei que esquecera a enfermidade e encetei uma história aparentemente sem qualquer relação com a cura...
E então falei-lhe de modo, onde não havia mar nem pescadores houvesse. Contei-lhe ter presenciado no Verão nas praias da Vieira e da Nazaré, o esforço conjunto dos pescadores para fazer deslizar os seus barcos de madeira sobre a areia através do uso de rolos que eram postos sobre outros rolos na areia fina, debaixo do casco do barco. Os pescadores empurravam o barco sobre os rolos vencendo assim a inércia pesada do barco sobre a areia. O mar parecia estar distante; mas depressa passado por cima dos rolos o barco atingia a areia molhada; a tarefa tornava-se mais fácil com o contacto com a água. Intuía pela força que os homens faziam para mover o barco o quanto era pesado mas, assim que este era batido pela primeira onda, admirava-me que a pequena camada de água que o mar lançava por debaixo do barco o erguesse da areia. Maravilhava ver o que sentira tão pesado e inamovível, súbito baloiçar sobre uma fina quantidade de água. Logo depois, por o plano ser inclinado, sorvida pela gravidade, a água desaparecia deixando o barco novamente preso na areia. Mas logo lhe batia outra onda; depois outra vinha por cima da quantidade da água da primeira; o barco absorvia-lhes parte da força e soltando-se da gravidade, empinava-se como se com vida; então os pescadores aligeiravam-se a empurrá-lo para o mar e vencidos uns metros saltavam a bordo, apressados em pegar nos remos; se o não fizessem não sairiam da zona de rebentamento das ondas; os remos erguiam-se um pouco no ar deslizando rente à água, para logo desaparecerem e aparecerem; as primeiras remadas faziam o barco saltar para a frente...
Enquanto isso as esposas e as mães dos pescadores, receosas do mar, de pé descalças sobre a areia da praia, maldiziam a sorte...
- Para quê senhores?? com o mar tão bravo!? Não vão trazer nada. Os outros também não trouxeram. Mas como os outros foram… Só vão ao mar para lhes provar que também não tem medo. Nem é a ganância do peixe...
...nos barcos de madeira eles não as ouvem gritar, remam exasperados por passar a zona de rebentação, enquanto o povo composto de veraneantes e de alguns turistas olham atentos admirando-lhes a coragem e a perícia...
Isto lhe descrevia verbalmente. Ela ouvia-me aparentemente atenta.
Aproximava-me do ponto da história em que, conforme a minha amiga reagisse, lhe provaria ter em si a faculdade de gostar de poesia.

«sabes o Verão era a praia, e o meu almoço era passado na companhia da cozinheira, neta, filha, mulher e mãe de pescadores; sempre que as suas conversas se aproximavam da elegância e beleza que a sua silhueta de velha deixava adivinhar da de há anos eu deixava-me ficar sentado a escutá-la. Era alta, magra, e vestia de luto...
«…e ela dizia-me, apontando os barcos de madeira assentes sobre os troncos, lembrando-se de outros tempos ...»
«Antigamente os barcos eram muito maiores dos de agora. Não iam neles só quatro homens ou cinco, não! Poderiam ir 10 ou mais! Uma vez, estava o tempo como o de hoje, não havia uma nuvem, o mar muito calmo. Todos os barcos estavam no mar, eu era uma gaiata, mas lembro-me como se fosse hoje, começou a levantar-se um vento, o céu toldou-se de nuvens negras e o tempo fez-se enorme, assustador. Começaram-se a ajuntar pessoas na praia; as mulheres e os familiares dos pescadores, a olhar para o mar, receando o pior… Todas com o coração nas mãos... mas Deus não deixou que lhes acontecesse nada... Vimos os barcos passar a zona da rebentação um a um… uma grande alegria… um grande alívio...
Até a este momento, o seu rosto como a superfície parada de um lago.
«Mas eu nunca me esqueço que uma vez, um desses barcos grandes quando ia a entrar no mar, virou com uma onda e ficaram debaixo dele doze homens. Só dois conseguiram salvar-se, os outros morreram todos. Eu era uma miúda, mas lembro-me como se fosse hoje. O dia seguinte foi o dia mais triste da aldeia. No cortejo fúnebre estava toda a aldeia... um funeral de dez homens de dez caixões que juntou toda a aldeia…
.. via-se na superfície do lago a ondas varridas pela emoção animarem-lhe o rosto, e o seu olhar mais direccionado.
«Se a cozinheira se calava, eu, sabia como pô-la a falar…
«E as mulheres? Você nunca foi nos barcos? - Vi alegrar-se-lhe o rosto...
«Fui. Quando era nova. E quando o mar deixava. Era um dia de festa para nós. Os homens nos remos e nós mulheres juntas sentadas na popa, a vê-los remar. Dava gosto vê-los alegres a remar com força, por nós ali estarmos. Então nós cantávamos para eles».
Olhei para ela, ela olhou também; foi visível, transpareceu. Ela sentira a emoção das palavras da velha cozinheira... ora que tem assim de tão diferente a poesia?
Também havia por lá um pescador, sempre com escamas de peixe agarradas à roupa e ao cabelo; era o que assava as sardinhas, os chocos e as lulas. Orgulhava-se de ter sido o melhor nadador da aldeia e o mais afoito a enfrentar o mar, indo onde os outros não ousavam ir. Contava para que o acreditássemos uma história comovente de um malogrado salvamento. Uma tarde, contou-me ele, eu e os que estavam comigo, pescadores da minha idade, avistámos uma pessoa a afogar-se, num local perigoso do mar, perto das rochas. Todos bons nadadores, filhos de pescadores, ninguém quis atirar-se; não pensei duas vezes, despi a camisa e lancei-me; nadei com toda a força que tinha; quando me aproximei reparei que era uma mulher jovem; o cabelo muito comprido parecia um manto negro sobre a água; pensei que estivesse morta porque não se mexia; mas quando lhe agarrei o braço ela estremeceu, soergueu a cabeça e olhou-me nos olhos; era muito bela, tinha uns olhos negros; agarrei-a e trouxe-a para terra mas... – o olhar dele perdera-se lá longe tremeluzente e depois disse-me - já passaram mais de trinta anos mas os olhos dela nunca os vou esquecer, vão morrer comigo.»
Acabadas as histórias e testemunhando o modo como ela a elas reagira, disse-lhe que ao invés do que pensava tinha a faculdade de gostar de poesia; lembrei-lhe que a determinados pontos da narração reagira desta e daquela maneira, prova evidente da sua capacidade de sentir através de meras palavras a vida; por senti-la nas minhas histórias provava poder também senti-la na poesia; se isso não acontecera na escola quando aluna fora porque nenhum verso ou poema leu ou ouviu no âmago do seu coração. Certamente já vira e ouvira do povo poesia que a fizera sentir viva, mas porque não associara às palavras a poesia dizia que era incapaz de a fruir. Para ela, poesia eram as estrofes dos Lusíadas e outros sonetos complexos que os professores lhe deram para estudar e que acreditava em tudo semelhantes a todos os outros; não sabia que a poesia era lágrima riso sofrimento e alegria…
Por fim disse-lhe:
- Sabes, quando o riso te subiu aos olhos, quando elas cantavam no barco para eles, olhaste-me mais vivamente como para partilhar a emoção, foi mais que prova do gostar de poesia…

Quanto à universal faculdade do ser humano para a fruição da poesia vós me direis como reagistes a estas duas histórias, se a determinado momento se não se manifestou em vós um calor no rosto?, súbito uma inspiração mais profunda, uma pausa, ou até mesmo um sorriso...

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

escrever para quem?

… lembro a antiga convicção tantas vezes proferida, a do dever de redigir preferencialmente para quem não lê, para quem confessa não gostar de ler e profere nunca ter lido um livro do principio ao fim! Ora acontecia por essa altura em terras de Trás-os-Montes privava com um ilustre professor filósofo, e uma vez ouvindo-me ele proferir tal opção, discordando de que assim pensasse, olhando-me fixamente, disse: - Pois não deveria! para quê baixar a fasquia se a pode saltar mais alto?
Entendi o seu receio, o de sacrificar a qualidade. Ele alertava-me para o perigo do facilitismo - de escrever simples para ser lido e entendido pelos simples!
Mas pergunto, será que todos os que não lêem um livro o devem à estupidez?, não! Quantas pessoas não haverá que não são estúpidas e não lêem livros? talvez o motivo esteja do outro lado!, nos livros! e nos escritores!
O que não falta no mundo são livros escritos por ilustres sapateiros!, e aproveitando o vocábulo que aqui retrata o homem muitas vezes idoso coxo de uma perna, sentado na sua cadeira, num espaço exíguo a cheirar a cola, que com o seu alicate desprende as solas gastas, eu usaria a metáfora - os livros são como os sapatos! Há os que se ajustam ao formato do nosso pé e outros não!, acontece com os livros o mesmo, nem todos se ajustam ao tamanho do nosso espírito!,Quando encontramos um que nos fala não lhe somos indiferente!, pelo contrário levamo-lo connosco e falamos dele! Ainda assim creio ser raro este encontro ajustado entre um livro e um homem, mesmo quando eles se vendem aos milhares e os homens se contem em biliões! Há-os em mil tamanhos e para todos os gostos, a dificuldade é encontrarem-se o homem e o seu livro!, ora se me parece apropriado a quem quer ouvir falar de sapatos escutar a opinião de um sapateiro, não me parece menos que me escuteis se é sobre livros que quereis agora ouvir falar.
… eles têm sido a minha vida; deles em geral e de alguns em particular eu aprendi para acerca deles saber escrever!, escutei muitas vezes pessoas dizerem de livros consagrados inscritos na história da literatura universal, falo dos clássicos, o pior que se possa imaginar, como se tais livros fossem chatos pesados ilegíveis!, e afirmam-no! - Oh Esses livros não! - e por mais que sobre eles lhes dissesse maravilhas, demasiadas vezes senti a impressão que me ouviam como se lhes tentasse vender a banha da cobra! O erro era menos por querer dar pérolas a porcos, mas mais muito mais por não lhes saber transmitir de um modo verosímil a verdade…
… custa-me não saber defender o prestígio de um clássico!, mas hoje diria, o máximo a que um homem leitor, na literatura, pode aspirar é ao prazer de ler o Dom Quixote. Já no domínio da música não há como a música clássica, e dentro da musica clássica não há como Beethoven! Ora, e porquê Beethoven?, porque a sua genialidade me parece ser a mais difícil de refutar! Podem dizer das suas sinfonias: são demasiado pesadas, não as suportamos, com convicção até, mas creiam-me, mesmo até quem das suas composições mais não escutou do que o trecho do hino da alegria, achará que falais sem saber!, e só não se rirão de vós por respeito. Não é preciso ser-me muito inteligente para desacreditar da opinião negativa de um leviano sobre a música escrita por Beethoven, principalmente quando essa mesma opinião choca directamente com a fama ímpar da sua genialidade! Se há loucura que poderia medir-se neste mundo era a de se afirmar que Beethoven são sabia compor, Cervantes escrever e Caravagio pintar…
Escrever para os simples de um modo não simples e ainda assim conseguir captar-lhes a atenção não me parece processo fácil. Muitos dos simples sobre os quais podereis pensar que o são por confessarem não ler, na verdade, não enfermam de qualquer simplicidade; somente, não se excitam por qualquer coisa "insignificante" por dá cá aquela palha; mais que os letrados talvez queiram ouvir só quem lhes fala de facto! Quando isso acontece eles lêem. O fenómeno de granjear a leitura dos simples – concluíra - não se alcança baixando a fasquia, como receara o meu professor!,

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Tennesse Williams - Desire

"- PAPÁ POLLITT: Comprámos esse relógio no Verão em que fomos à Europa, eu e a tua mãe naquele maldito circuito turístico. Foram os piores dias da minha vida, digo-te, filho, aqueles estrangeiros depenaram-nos à grande nos seus hotéis de luxo. E a tua mãe comprou mais coisas do que se podiam enfiar em dois vagões bagageiros, es­tou a falar a sério. Andámos num corropio de um lado para o outro, e onde quer que parássemos era só comprar, comprar, comprar. Metade da tralha que comprou ainda está armazenada na cave, ficou debaixo de água na Primavera passada! (Ri-se.) A Europa não é mais do que um enorme leilão, é isso que é, com todos aqueles lugares antiquados. É um grande armazém de saldos ao desbarato, raios partam, e a tua mãe perdeu a cabeça, era impossível pará-la, nem com os arreios de uma mula! Comprou, comprou, comprou! ... A sorte dela é que eu sou um homem rico, é a sorte dela, e metade dessa tralha está a apodrecer de humidade na cave. Que sorte ser um homem rico, é mesmo uma sorte, sim senhor, sou um homem rico, Brick, sou um homem muitís­simo rico. (Os seus olhos iluminam-se por um momento.)
Sabes quanto dinheiro tenho? Adivinha, Brick! Adivinha quanto tenho! (Brick sorri com um ar vago por cima da bebida.) Perto de dez milhões em dinheiro vivo e em acções, fora, atenção, os cento e tre­ze hectares da terra mais fértil deste lado do vale do Nilo! (…)Mas um homem não consegue comprar a vida com dinheiro, não con­segue comprar uma nova vida quando a sua está no fim. Essa é da­quelas coisas que não se compra por tuta e meia na Europa nem nas lojas americanas nem em loja nenhuma do mundo. Não se pode comprar uma nova vida, não se pode comprar uma nova vida quando a nossa acabou ... É um pensamento que nos põe sóbrios, muito sóbrios, andou às voltas na minha cabeça, continuamente - até hoje ... Estou mais sábio e mais triste, Brick, com esta experiência por que acabei de passar. Só há mais uma coisa de que me lembro da Europa.
BRICK - O quê, Papá?
PAPÁ POLLITT - Dos montes em redor de Barcelona, em Espanha, e das crianças que corriam nuas por aqueles montes nus, crianças nuas a pedir esmola como cães esfomeados, uivando e ganindo. E de como os padres nas ruas de Barcelona são gordos, tantos e tão gordos e tão simpáticos, ah! ah! ... Sabes que eu podia alimentar toda aquela re­gião? Tenho dinheiro que chegue para alimentar aquela maldita re­gião, mas o animal humano é uma besta egoísta e calculo que o di­nheiro que dei àquelas crianças aos uivos nos montes em redor de Barcelona fosse apenas o equivalente ao necessário para forrar uma das cadeiras deste quarto, para pagar um novo forro para esta cadeira.
Diabos, atirei-lhes dinheiro como quem atira milho às galinhas, atirei-lhes dinheiro só para me ver livre delas o tempo suficiente para poder entrar de novo no carro ... e ir embora ...
E depois, em Marrocos, aqueles árabes, bem, a prostituição começa aos quatro ou cinco anos, não estou a exagerar. Olha, lembro-me de um dia em Marraquexe, aquela velha cidade árabe muralhada. Sentei-me nas ruí­nas de uma parede para fumar um charuto, estava imenso calor e uma mu­lher árabe pôs-se na estrada a olhar para mim até eu me sentir incomoda­do, estava ali em pé, imóvel, no meio daquela estrada poeirenta e escaldante, a olhar para mim até eu me sentir incomodado. Mas ouve is­to. Ela tinha uma criança ao colo, uma menina nua ao colo, que ainda mal sabia andar e passado um bocado põe a criança no chão, sussurra-lhe al­guma coisa e empurra-a. Esta criança caminhou na minha direcção, mal sabia andar, veio ter comigo e ...
Meu Deus, lembrar-me disto até me põe doente! Levantou as mãos e tentou desabotoar-me as calças!
Aquela criança não devia ter ainda cinco anos! Acreditas ou pensas que estou a inventar isto? Regressei ao hotel e disse à Mamã, faz as malas! Vamos embora deste país ...
BRICK - Papá, hoje está falador.
PAPÁ POLLITT (ignorando o comentário) - Sim, senhor, é assim que as coisas são, o animal humano é mortal, mas o facto de morrer não faz com que tenha piedade dos outros, não senhor, (...)
BRICK - Sente-se melhor, Papá?
PAPÁ POLLITT - Melhor? Caramba! Posso respirar! ... Passei a vida to­da de punhos cerrados ... (Serve-se de uma bebida.) A bater, a esma­gar, a mandar! Agora vou abrir estas mãos e tocar nas coisas com cal­ma ... (Estende as mãos como se afagasse o ar.) Sabes em que estou a pensar?
BRICK - Não. Em que está a pensar?
PAPÁ POLLITT - Ah! Ah!. .. No prazer! No prazer com mulheres! Sim, rapaz. Vou dizer-te uma coisa que talvez não saibas. Ainda sinto desejo pelas mu­lheres e faço hoje sessenta e cinco anos.
BRICK - Isso é notável, Papá.
PAPÁ POLLITT - Notável?
BRICK - Admirável, Papá.
PAPÁ POLLITT - Podes crer que é notável e admirável. Percebo agora que nunca tive que chegasse. Deixei passar muitas oportunidades por causa dos escrúpulos. Escrúpulos, convenções - porra ... é tudo tre­ta, treta, treta! ... Foi preciso sentir a sombra da morte para ver isso. Agora que essa sombra desapareceu, vou libertar-me e, como se diz?, divertir-me à brava!
BRICK - À brava, hum?
PAPÁ POLLITT - É verdade, à brava, à brava! Raios partam! Dormi com a tua mãe até, deixa cá ver, há cinco anos atrás, até eu ter sessenta e ela cinquenta e oito, e nem sequer gostava dela, nunca gostei! (...)
Quando a tua mãe sai da minha frente, não me consigo lembrar da cara dela, mas quando ela regressa, rapaz, então vejo como é a sua cara, e digo-te preferia não ver! (...) Tudo o que peço a esta mulher é que me deixe em paz.
Mas ela não consegue aceitar que me provoca náuseas. Foi de ter tido que dormir com ela demasiados anos. Devia ter parado mais cedo, mas o raio da velha nunca se fartava ... E eu era bom na cama ... Nun­ca devia ter desperdiçado tanto com ela ... Dizem que temos apenas uma quantidade limitada e que cada uma está numerada. Bem, ainda me sobram umas quantas, umas quantas, e vou escolher uma jeitosa para as gastar com ela! Vou escolher uma de primeira qualidade, não me interessa quanto me vai custar, vou abafá-la em casacos de pele de ... marta! Ah! Ah! Vou despi-la toda e abafá-la em casacos de mar­ta e sufocá-la com diamantes! Ah! Ah! Vou despi-la toda, sufocá-la com ouro e diamantes e abafá-la em casacos de peles e pôr-me nela todo o dia e noite!! AH! AH! AH! AH! (...)"

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

... Nexus Plexus e Sexus uma trilogia à portuguesa...

… nenhum homem passava despercebido às cabeleireiras do salão de beleza.
- Não usa aliança mas é casado, não é?
- Casou há 7 anos. Tem dois filhos, um com 8 anos e o outro com 5.
- A noiva já ia de 4 meses…
- Deve ser fresco deve…
- Porque dizes isso? Olha que já é nosso vizinho há mais de 10 anos e nunca vi nada…
- Pois, pois…
- Fala, o que é que sabes?…
- Ontem voltei ao salão, esqueci-me do computador… já passava das 11 da noite… e vi-o sair com uma loira…
- E não seria a mulher? Ela pintou o cabelo…
- Não conheço a mulher, mas pareciam-me muito divertidos para um casal com 8 anos de vida em comum… e iam até de mão dada…

comentavam as duas cabeleireiras sobre o homem, o dono da loja de comércio de peças para automovel, situada do outro lado da rua. Soubessem elas tanto como o autor desta história e não teriam assunto para conversar, pelo menos acerca da suposta vida dupla da personagem principal… A loira que levantara suspeitas era na verdade a sua esposa!...
- Há casais e casais. Nem todos se dão mal!
- Mas que fazia ali àquela hora?
- deve ter-se esquecido e ligar o alarme…
- Pode ser que me engane, mas santo é que ele não é!
- Se fosse estava no altar!
- Ele é um devasso!, Já o apanhei a olhar para nós com aquele olhar porco…
- Com olhos de quem nos quer comer…
- Um homem casado!!! Tenho-o debaixo de olho…
… elas continuavam a comentar sobre a vida do homem, e continuariam não fosse o autor achar por bem cortar-lhes a palavra. Se o não fizesse a conversa poderia descer ainda mais de nível!
falavam agora sobre um homem que havia sido pai pela terceira vez... ainda não eram 15 horas quando recebeu a noticia... uma hora depois entrava no Hospital para visitar a esposa... enquanto ensinava o guarda a escrever o seu nome na lista das visitas... estranhou ver na mesma o nome de alguém que lhe era familiar... o do padre da paróquia... soube primeiro que eu??, estranho muito estranho!!!! a suspeita não era infundada. Três relatórios de exame de DNA depois soube o pobre do homem que pai só havia sido uma; os últimos dois filhos que tinha como seus, o DNA garantia a 99,9999% eram do padre. Isto há coisas! Depois daqueles relatórios de exame o homem empalidecera, e via-se pelo seu semblante que ali morava a tristeza. Dizia-lhe o amigo
- Felisberto, a alegria é coisa mais séria da vida! O teu é o primogénito! Se não aguentas a desonra, arranja outra mulher, homem… Olha agarra em algum dinheiro, e faz uma viagem! Vai ao Brasil,e vens de lá curado! Sabes como te livras desse grande problema?? Arranjando outros!
- Odeio padres! Puta que os pariu!...
… interrompe aqui e agora o autor porque não é sobre padres esta história, mas sim sobre um vendedor de peças de automóvel, que não atendia senhoras mas sim mecânicos.
- Queria uma embraiagem para o GOLF 4, um filtro de oleo e outro de gasoleo,e uma correia… é para o meu carro, não queiras saber Manel, ia a caminho de Évora para me encontrar com a outra e o carro despistou-se na estrada, tive que ligar para a minha mulher, que tem carta, a outra não tem!, e ela veio logo muito preocupada comigo … já não fui capaz de lhe pedir que me levasse a Évora… e ela queria-me levar, mas não fui capaz…
- Deixa lá, da próxima vez não te despistas! É isto não é? Tudo somado e já com o desconto são 169 euros…
- e tu, da tua vida? Nunca tens nada para contar?
- Só me aparecem mecânicos, e eu também nunca saio daqui. Devia vender era roupa para senhora…
…quer crer o autor desta história que alguma entidade mágica, um mago, um encantador ou um bruxo deva ter escutado o desabafo do vendedor, pois ainda não eram dois minutos passados que o mecânico saíra quando entrou pela mesma porta uma mulher deveras atraente…
- Diga, o que deseja.
-Boa tarde, era um filtro de ar para um BMW 320D…
- É um bom carro, não é.
- Não me diz nada. É do meu marido. Eu tenho um Smart.
- Esse é pequenino.
- Sim, e mais económico!
- Mas desculpe a pergunta, o seu marido manda-a a si… geralmente mandam os mecânicos!
- Ele em mim não manda. Pediu-me que lhe comprasse somente…
- Ah percebe de carros…
- Sei um pouco de tudo, sou professora…
- Professora de?
- Filosofia!
- Olhe e dá explicações?
- Dou
- É que tenho um primo que ainda tem a disciplina de filosofia para fazer…
- Aqui tem, dê-lhe o meu cartão…
- Obrigado.
(continua)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

silêncio total - o forcado fala (1ª Parte)

… um dos objectivos estava alcançado, há mais de um mês que confessara a um dos amantes a existência do outro. Faltava agora informar o “desconfiado”, e contar ao agora soubera que ainda não dissera a verdade ao outro; não seria fácil mas ainda considerava útil contar-lhe …
- sabes tenho uma coisa para te falar… sobre a minha relação…
- Qual?... Tu tens duas…
- A relação com ele. Sabes, é uma relação aberta de uma omissão, ainda não lhe disse que andamos…
- ???? ah não?!, e quando é que lhe vais dizer…?
- ???
- Sim, quando?
- porque és assim mau? Porque me pressionas? Careço de meios materiais… Se soubesses o quanto sofro… pensas que é fácil, pensas?…

… faltava pois, para se sentir mais segura, e não perder os mimos dos amantes por um mal entendido, dizer ao João - em abono da verdade o João chegara primeiro à sua vida e tinha por isso ganho o estatuto do primeiríssimo!
… enquanto assim pensava tocou no telemóvel polifónico a fuga de Bach…
- Não atendes a chamada?
- É ele, o João! Por favor, cala-te agora ! Vou atender…
- Esta? Está? sim sou eu, quem querias que fosse?
- Não te estava a ouvir…
- Nem eu. É da ligação, está péssima… Porque ligaste?
- Para saber se estás bem?
- Estou bem, estou muito bem. (rindo-se para o outro)
- Pois ainda bem!,
- Olha podes ligar mais tarde, estou-te a ouvir mal…
- Está bem! Vem cedo para casa, olha que hoje é o dia da Tourada no Campo Pequeno!
Já adquiri os bilhetes…

O João fora-lhe apresentado dois anos atrás por uma das suas melhores amigas. depois da conhecer não parara mais de lhe enviar smss, tentara até por mais que uma vez roubar-lhe um beijo!, dizia dele - é persistente! o maior chato que conheci! e ainda por cima é forcado!...
- e que mal tem em ser forcado? Ora, se ele gosta de ti…
- Não. Ele diz que gosta mas o que ele quer é ter um caso…
-e tu não queres?
- Eu a ter um caso prefiro uma casa.
- pois filha homens a viver sozinhos com casa desocupadas são muito raros… Ainda vive com os pais?
- Já não vive. Ele tem casa. Mas só a tem para ter casos… canso-me de lhe dizer que me esqueça!,… mas ele insiste!
- como é que ele arranjou o teu número?
- Fui eu que lho dei, maldita a hora…

(...) / ( em elaboração - nota do autor)
Nesse dia em vez de se ligarem por telemovel combinaram encontrar-se, e quando o forcado lhes apareceu à frente, a que o conhecia apresentou-o à amiga!
- É ele? É o João?
- É!

Sentados à mesa, o forcado, a heroína desta história e a amiga, conversavam sobre não sei o quê… onde estavam, do outro lado da esplanada tendo como fundo o palácio Galveias e alguns pavões, não dava para os escutar, mas li-lhes os pensamentos:
Os da heroína: ele não tira é os olhos de cima de mim!
Os do forcado: vai me calhar em sorte!, (ria-se).
Os da amiga: Os homens são todos iguais! Não pára de olhar para ela…
… 4 meses depois… aconteceu! Aqueles que haviam sido apresentados, apareceram-lhe à frente de mão dada.
- Foste tu que nos apresentaste… Lembras-te?
- Lembro-me…
- Estamos muito felizes! (fim da 1ª Parte)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

carta a todos os leitores de Henrik Ibsen

Como acontecia nesse tempo, quando um livro dum Autor me inspirava a lê-lo - logo da obra, e acerca da, procurava ler absolutamente tudo. Aconteceu com Cervantes, Shakespeare, Dostoievski, Becket, Kafka, Homero, Proust, Ibsen, Nietzsche, Shopenhaeur, George Orwel, Nicolau Gogol, entre outros... Os esforços para encontrar as obras completas soçobravam diante da realidade editorial.. De Ibsen descobria apenas publicado em português a peça O PATO SELVAGEM e A CASA DE BONECAS. Procurava por tudo o quanto era livraria biblioteca alfarrabista e nada! Lembro-me bem. Fiquei tão triste e angustiado de não poder ter como ler mais Ibsen (quando tanto o desejava) que era como ver a mais linda das virgens nua e nada! não era pior, porque ver já é verdadeiramente alguma coisa... Entendem?... Era mais que carnal! Desejava aqueles livros - trocava-os por um orgasmo com a Ava Gardner! Estava agarrado a eles pela vontade, pelo ideal! Queria aprender a escrever melhor e doia-me imenso não ler o verdadeiramente bem escrito; tornara-me exigente. Depois de Cervantes e de muitos outros clássicos, já quase não arranjava mais para ler por achar quase tudo mal escrito! - sem estilo.
... a boa notícia veio no Século XXI, a fome de 20 anos deu em fartura; finalmente uma editora de Portugal fez obra! traduziu e publicou quase toda a dramaturgia de Ibsen. Assim que desse feito fui notificado: pensei comprar e ler todos os livros, porém por saber que eles estavam acessíveis (assegurados) fui adiando a compra. As peças estão ai! e são sublimes!, não vos conselho nenhuma peça, aconselho todas!
Ibsen chegou a ser o escritor mais conhecido da Europa a seguir a Leon Tolstoi! o autor do clássico Guerra e Paz e do injustamente menos conhecido "A Morte de Ivan Ilicht".