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terça-feira, 24 de julho de 2012

O cão ladra, Deus consente!


É acertado afirmar que os homens que combatem a fé em Deus, o fazem por acreditarem que é insustentável poder-se esperar alguma coisa de coisa alguma; nas suas mentes Deus não passa do fruto da imaginação do homem, nas suas mentes Deus é coisa que não existe senão como ideia. Assim eles não combatem Deus – é difícil combater o que não existe – mas a ideia de Deus. Na Religião Católica recebemos da Bíblia uma aproximação "ideal" da definição de Deus; é aceite que Ele, Deus é omnipotente, omnisciente e omnipresente. Ora, pergunto, quem provar a impossibilidade de ser Deus omnipotente, não provará a inexistência dessa ideia de Deus? Sim, assim creio. E como então provaremos tal inexistência? Ora, poucos católicos negarão que o poder existente num ser confere-lhe a faculdade de poder intervir, de alterar algo; e manifesta-se quando na verdade altera. Assim, de que modo podemos nós homens compreender a omnipotência e a omnisciência de um Deus que aceita ser testemunha das dores mais agudas dos homens sem ousar manifestar-se? Os ateus compreendem-no assim: não existe omnipotência, não existe omnisciência, não existe Deus - é que para estes não há saber nenhum no Universo que legitime a não ajuda, pois tal é um crime[1]. - Os religiosos defendem-se, e dizem «Só a omnisciência ininteligível de Deus legitima a sua não intervenção». Contrapõe ali um ateu: «Até o Fox Terrier dos vizinho quando vê os donos guerrearem-se lhes ladra...» interrompe-o, um intelectual  «É o que o teu cão tem indubitavelmente mais ciência que a omnisciência de coisa alguma».
Sim, deverá ser isso, querem os religiosos fazer crer a ateus que quanto à omnisciência de Deus não lhes é dado suficiente inteligência para entendê-la. Respondem os ateus «Ficai vocês com ela. Não queremos ser abonados com uma inteligência que não presta ajuda a quem dela urgentemente precisa. Envergonhar-nos-ia até ao tutano.»
A inexistência da omnipotência de Deus é provada por uma só omnisciência legitimar a sua não intervenção: a omnisciência de coisa alguma. Acrescente-se que tal omnisciência não cabe, nem poderá nunca caber na mente de ateus humanistas. Vale.

Arthur Schopenhaeur legou-nos - acerca do panteísmo – este genial trabalho:
“A minha principal objecção ao panteísmo é que não tem significado. Chamar ao mundo Deus não é explicá-lo, mas apenas enriquecer a linguagem com um sinónimo supérfluo para a palavra mundo. O efeito é o mesmo se se disser «o mundo é Deus» ou «o mundo é o mundo». Se partirmos de Deus como aquilo que é dado e se pretende explicar, dizemos «Deus é o mundo»; depois, por certo, daríamos uma explicação, na medida em que isso seria remontar o ignotus ao notius, embora continuasse a não ser mais que uma explicação da palavra. Mas se partirmos daquilo que é realmente dado, o mundo, e dissermos «o mundo é Deus», então torna-se claro como o dia que isso nada diz, ou, no máximo, explica o ignotium pelo ignotus.
Daí que o panteísmo pressuponha a pré-existência do teísmo: pois apenas partindo de um Deus, ou seja, tendo já um e conhecendo-o, é possível vir a identificá-lo com o mundo, na verdade para o pôr delicadamente de lado. Não se parte, sem preconceitos, do mundo como aquilo que vai ser explicado; parte-se de Deus como aquilo que é dado, mas em breve, não sabendo o que fazer com ele, deixa-se o mundo tomar o seu papel. É essa a origem do panteísmo. Pois nunca ocorreria a pessoa alguma com uma visão isenta de preconceitos do mundo considerá-lo como Deus. Teria, sem dúvida, de trajar-se de um Deus muito mal-avisado, que não soubesse fazer melhor do que transformar-se num mundo como este.
O grande avanço que se supõe que o panteísmo representa sobre o teísmo é, se for tomado seriamente e não como uma simples negação disfarçada, uma transição do improvado e dificilmente concebível para o decididamente absurdo. Porque, por muito obscuro, vago e confuso que possa ser o conceito que está aliado à palavra Deus, dois predicados são, não obstante, inseparáveis dele: supremo poder e suprema sabedoria. Mas que um ser provido desses dois predicados se transferisse para uma situação como a que este mundo representa é, francamente, uma ideia absurda: porque a nossa situação no mundo é obviamente de tal ordem que nenhum ser inteligente, para não dizer omnisciente iria transplantar-se para ela.”


[1] Art. 200º
(Omissão de auxilio)
1. Quem, em caso de grave necessidade, nomeadamente provocada por desastre, acidente, calamidade pública ou situação de perigo comum, que ponha em perigo a vida, a integridade física ou a liberdade de outra pessoa, deixar de lhe prestar o auxílio necessário ao afastamento do perigo, seja por acção pessoal, seja promovendo o socorro, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias.
2. Se a situação referida no número anterior tiver sido criada por aquele que omite o auxílio devido, o omitente é punido com pena de prisão até 2 anos ou com pena de multa até 240 dias.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Alfredo Marceneiro, revisitado

... a andar pelas ruas de Lisboa, desde a Rua do Carmo até à estátua do Pessoa, notei o que já não sentia há anos, o prazer de olhar para a diversidade das pessoas e dos seus rostos… subia num passo lento e vagaroso quem sabe para ver com mais atenção quem por ali andava, quando oiço alguém em lugar discreto a cantar baixinho ali perto… olhei para a direita e ouvi uma sexagenária encostada a uma parede a cantar um fado… apesar da idade a voz era límpida!, e disse-lhe – canta muito bem! – continuei a andar para não lhe incomodar o canto…… um minuto depois vinda de trás diz-me ela em voz alegre ao passar - obrigado, pelo seu elogio!-Olho-a com atenção e penso, “esta mulher tem muito para dizer - vou falar com ela!” –  alcanço-a em poucas passadas e ela vendo-me dispara a falar: - Olhe foi muito bom saber que gostou de me ouvir. Sabe, cantar é o meu destino, mas cantar não foi o meu destino, e se eu lhe dissesse que aos 24 anos cantei no Coliseu, fiquei em 6º lugar pela Moraria!, mas naquele tempo custava-me tanto cantar em público, tinha tanta vergonha!, Ainda pensei voltar a cantar, depois de ter o meu filho! Mas já trabalhava! Fui administrativa! Os meus irmãos tantas vezes me pediam – Vai cantar!! Ai tinha tanta vergonha. Como eu mudei! Agora não tenho! Canto na rua! Não me importo que pensem que sou louca, quem pensa que sou é que é louco! Eu venho para aqui mesmo porque gosto de cantar! Quando canto vivo o momento! Depois puxou-me por um braço para uma rua menos iluminada e disse-me:- tenho 68 anos mas a minha voz não o diz!, não lhe parece que tenho uma voz mais nova? - parece sim!- sabe porquê? por três coisas! Não fumo! Não bebo e não faço noitadas. Escute. Veja se conhece este fado do Alfredo Marceneiro.- depois voltando a agarrar-me o braço encetou a cantar estes desconhecidos versos...


Fui de viela em viela
Numa delas dei com ela
E quedei-me enfeitiçado
Sob a luz dum candeeiro
Estava ali o Fado inteiro
Pois toda ela era fado

Arvorei um ar gingão
Um certo ar fadistão
Que qualquer homem assume
Pois confesso que aguardei,
Quando por ela passei,
O convite do costume

Em vez disso, no entanto,
No seu rosto só vi pranto
Só vi desgosto e descrença
Fui-me embora amargurado
Era fado, mas o fado
Não é sempre o que se pensa

Ainda recordo agora
A visão que ao ir-me embora
Guardei da mulher perdida
A pena que me desgarra
Só me lembra uma guitarra
A chorar penas da vida

assim que acabou de cantar passou a explicar-mo a canção - e referindo-se à letra disse - ela que ele encontrou era uma mulher da vida... " aguardei...  O convite do costume"... já entendeu? - e continuou explicando-me com um entusiasmo raro cada verso da letra - versos que nunca ouvira - mas como haverei de vos dizer, a arte mais cedo ou mais tarde vem ter com os artistas...
 
 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

posso jogar?


… outro dia cruzei-me com um garoto de etnia cigana, olhou-me fixamente durante longos segundos e quiçá por pressentir que não lhe faria mal ou, ao invés, que poderia constituir uma ameaça à sua integridade física, súbito, ouvi-o alvejar-me com uma palavra.
- Careca!!
… eu pensei «olha a ousadia do miúdo! não teme chamar um nome a um estranho com uma estatura que faz o dobro da dele»… e então para que ele sentisse o quanto me elogiava decidi dar-lhe o devido troco…
- Gordinho!
… chamei-o assim decerto devido à minha educação de fundo literário que até quando tenta ofender não consegue deixar de ser simpática – algumas pessoas a quem contei este episódio disseram-me que fui muito brando… que o que se impunha chamar-lhe era gorduxo ou até mesmo gordo.
     O ciganito voltou à carga!
     - O que é que disseste CARECA?
     - Que és GORDINHO!
… percebendo ele a ofensa e sentindo-se escudado no seu território pela relativa proximidade da sua mãe, que a um grito seu ocorreria à janela, vociferou sem medo:
     - Vai-te foder!
     Ouvi e ignorei; continuei no caminho querendo mostrar total indiferença, mas a verdade é que continuava a ouvir as palavras do gorduxo!, e pensei «o miúdo a continuar assim arrisca um tabefe de um adulto…»
     Com o passar dos dias já deveria ter esquecido o episódio com o ciganito gordo não fosse tê-lo visto segunda vez…
     Foi a um Domingo. Estava o meu filho a sofrer a última meia hora o jogo do final da Taça, por o Sporting Clube estar a perder com a Académica de Coimbra, e disse-lhe:
     - Andrew, não vale a pena apoiares nem sofreres por causa do futebol, olha o pai, que adora jogar futebol, nunca sofreu por nenhum clube! – e, para ele ver mais razão no que lhe dizia, perguntei-lhe:
     - O Sporting por acaso dá-te alguma coisa para te importares e sofreres assim?
     Ele ficou uns segundos a pensar, olhou para a televisão, e depois virou os olhos para os meus e respondeu num tom de voz alegre que revelava a plena satisfação de ter descoberto a resposta certa.
     - Dá-me vitórias!
     O meio-irmão riu-se e disse-lhe…
     -Vê-se! a perder com a Académica!!
     - Não acredito! Já vai acabar – disse bufando para o ar e levando a mão à testa em desespero.
O árbitro soprou no apito e fez parar o cronómetro de pulso. Depois, assim que o comentador disse “A Taça de Portugal voltou para a Académica 73 anos depois” e o meu filho repentinamente mudou de humor
- 73 anos depois, ahahaha que vergonha! 73 anos!!!, mano.

Depois desejando eu passar mais algum tempo com ele convidei-o para um desafio de futebol. Alegrou-se com a ideia e foi procurar a bola debaixo da cama…
- Ó mano viste a Jabulani?
- Está debaixo da cama!
- Já a vi! Viste os meus ténis Adidas?
Saímos para a rua e fomos jogar para um pequeno pátio de chão calcetado com tijoleiras, exactamente no mesmo local onde me havia cruzado com o ciganito gordo.
Com os 4 vasos de plástico que trouxera debaixo do braço fiz os postes das duas balizas, a minha um pouco maior para respeitar a lei da proporcionalidade. Quando começamos o jogo não havia ninguém por perto, mas passado um quarto de hora apareceram do nada 3 miúdos ciganos, dois muito magros e mal vestidos. O mais alto e gordo deles era da altura do meu filho Andrew... 
Pensei «Será que vai ousar chamar-me de novo careca?»
Se ousasse tal, muita retórica teria de usar para lhe fazer entender que chamar nomes para vexar e envergonhar alguém é um sinal claro de incivilidade e de escassez de inteligência…
Continuei a jogar com o meu herdeiro; pelo canto do olho notava o olhar do ciganito a observar-me, e pela atitude cautelosa e apreensiva influi que se lembrava muito bem da nossa altercação… Continuou a olhar-me… depois apercebendo-se que não iria molestá-lo, aproximou-se e pediu-me se podia jogar connosco.
- Espera um pouco. – Disse-lhe
Passados 10 minutos voltou a pedir-me.
- Espera mais um pouco…
- Pai, deixa ele jogar. – pediu-me o Andrew.
E eu pensei quem sai aos seus não degenera…
E por que propósito pensei eu isto?
… no intuito de responder peço ao leitor desculpas por cortar o curso da acção para afixar aqui no papel umas considerações afeitas às reacções humanas face à manifestação voluntária da vontade do próximo…
… aquele quadro rectangular que tantas vezes contemplei quer fora quer dentro, de 10 ou mais indivíduos divididos em dois grupos rivais a disputar a posse de uma bola, inspirava-me a escrever sobre a ética!, preferencialmente quando alguém – um potencial jogador desconhecido – lhes pergunta «Posso jogar convosco?»
As reacções individuais a esta pergunta por tê-las tantas vezes testemunhado posso afirmar-vos são distintas, e reveladoras do carácter de cada indivíduo.
A reacção mais comum é a mais imediata, fingem que não ouvem, revelando indiferença, esperando que o jogador que lhes pede para jogar desista da ideia. Se ele insiste e interpela directamente alguém, é comum responderem-lhe «Não sei, não sou eu que mando.»… ou então «Já somos 10!»… (continua)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

… para deixar de beber diga alto: Chega de ser pisado pelo Jegue!

... algures no interior da Bahia, um homem corpulento saía do trabalho direto à taberna para beber com os “amigos” copos de cachaça e, algumas rodadas depois, com o efeito da alcoolização, perdia o equilíbrio necessário para andar direito; tropeçava e agarrava-se a quem o ajudava até sair da taberna, num estado cambaleante, em direção ao jumento. A filha, a rondar a felicidade dos 30 anos, contava, rindo-se: 
– Quem levava o meu pai para casa era o jegue! Um pequeno burro. Era um jegue muito inteligente – conseguia trazer o meu pai! Cheio de nódoas negras no corpo, nos braços e até nas pernas, porque nos caminhos mais inclinados caía de cima do jegue. Inevitavelmente, quando caía para a frente, era calcado pelos cascos do jumento. Foi assim durante dois anos, até que um dia o meu pai disse bem alto: 
- Chega de ser pisado pelo jegue! - Depois desse dia, o meu pai nunca mais bebeu.

domingo, 29 de janeiro de 2012

citações, boas tiradas e respostas espirituosas

… ao passar perto escutei um homem a conversar com uma mulher
- Acho que a tua amiga teve sempre um fraquinho por mim! – 
- Ela sempre foi forte a ter fraquinhos... por homens! - Apercebendo-se da graça riu baixinho!

 na mesma toada, de frases com sentido, um amigo quis dizer-me uma frase que lera, de uma autora; fez um esforço para se lembrar e segundos depois citou-ma – “O tempo não cura, apenas afasta o incurável do centro das nossas atenções!” – ambos achámos a frase interessante e digna de ser citada!, e foi por isso que no dia seguinte a almoçar com um outro colega mais velho quis dizer-lha; escute. Um amigo disse-me esta frase, “ o tempo não cura, apenas afasta o incurável do centro das nossas atenções!” que acha? perguntei contanto que ia receber uma ovação!, mas o seu sentido critico surpreendeu-me.
- Errado, o tempo arquiva e depois como acontece com os processos, prescreve!, esse seu amigo se acredita nisso, que o tempo não cura é um homem que está com problemas!...

 ainda na mesma toada, este sábado almocei com um casal de velhotes jovens meus conhecidos – uma senhora de cabelos brancos que não se contem nunca de fazer um comentário critico afiado a ninguém e muito menos ao marido, do género (em tom severo, de repreensão) - Artur!! Não estejas a oferecer pão ao Alexandre, se ele o quiser tira-o!, agora é que estás a oferecer queijo ao Alexandre, agora depois de ele comer a fruta?!!!!
O marido nem reagiu, estava mais que habituado, e eu, para o animar, disse-lhe:
- Você tem uma mulher de ouro! Faz-lhe o almoço!
 A mulher, a Dona Judite riu-se, do que ouvira e do que ela mesmo ia dizer:
- Pois tem,  mas ele não sabe!
E respondeu-lhe ele
- Pois mas ela também não sabe que tem um marido de diamante!
Riram-se ambos e ela retorquiu
- Ah de diamante! Onde está o marido de diamante??? O Alexandre, vê algum?
- O Sr, Artur!
- Esse? É é de pechisbeque! de fantasia!
 Ele levantou um pouco a cabeça olhou-me e riu-se!

  Depois enquanto levantava a mesa, com pressa incontida para que mais ninguém atacasse no queijo de cabra, contou-nos que nesse manhã ouviu o filho da vizinha da porta ao lado, a criticar a mãe por andar a namorar um homem 15 anos mais novo; e imitou-os, ao filho e a mãe, nestes termos:
- A mãe namora o Antoninho para quê?, diga-me, para quê?
- Por que eu gosto dele e ele gosta de mim!
- Pois, mas a mãe devia namorar era um homem velho e rico!
- Ah ah, queres um homem rico na família?! pois, então pede à tua namorada que arranje um!
....
 rimo-nos todos de novo...
 e depois Dona Judite, conte, o que é que a filha lhe retorquiu...???
- Nada. Calou-se! toda a manhã!

domingo, 15 de janeiro de 2012

considerações sobre a cópula

...o sexo e a morte sempre intrinsecamente ligados - sendo a prática sexual um dos maiores prazeres da vida, é a oposição à morte! O sexo honra a vida! celebra-a! - e quando com paixão é feito invade-nos uma sensação de poder - plena de prazer! - o sexo é uma junção de vontades! - afasta-nos de sentir a ideia da nossa finitude!...
podemos afirmar: - quem faz sexo não está morto! goza a vida!
... uma senhora viúva na terceira idade sentada no banco de espera de um hospital dizia para quem a ouvia: - No dia em que o meu marido morreu despediu-se de TUDO!

sábado, 10 de dezembro de 2011

o discurso do V for Vendetta

....recomendo a leitura atenta do discurso do V de Vendetta no canal da televisão estatal.

"É claro que há quem não queira que conversemos por esta via. Suspeito que neste instante estão a ser gritadas ordens pelos telefones, e homens com armas vêm já a caminho. Porquê? Porque embora o cassetete seja usado em vez do diálogo as palavras reterão sempre a sua força. As palavras oferecem formas de significado e para os que as escutam: o enunciado da verdade. E a verdade é que há algo terrivelmente errado com este país, não há? Desigualdade e injustiça, intolerância e opressão. E quando dantes tínheis a liberdade de objectar, de pensar e de falar como vos aprouvesse, tendes agora censores e sistemas de vigilância, coagindo-vos à conformidade, solicitando-vos a submissão. Como aconteceu isto? Quem é o culpado? Certamente que há uns mais responsáveis que outros e esses terão de prestar contas, mas mais uma vez, verdade seja dita, se procuram um culpado só têm de olhar para o espelho. Eu sei porque o fizestes. Sei que tendes medo. Quem não teria? Guerra, terror, doença. Miríades de problemas conspiraram para vos corromper a razão, e vos roubar o bom senso. O medo tirou-vos o melhor de vocês. E no vosso pânico viraram-se para um consentimento silencioso e obediente. Haja quem queira pôr fim a esse silêncio. Haja quem queira lembrar ao mundo que a correcção, a justiça e a liberdade são mais do que palavras. São perspectivas."

"Remember, remember, the 5th of November
The gunpowder, treason and plot;
I know of no reason, why the gunpowder treason
Should ever be forgot."

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

...um anjo da Guarda Nacional Republicana

… um grupo de portugueses subiu a terras espanholas; e já bem dentro da vizinha Espanha sentaram-se a uma mesa de uma taberna e pediram dois pires de tremoços e quatro cervejas... conversavam uns com os outros um bom bocado e depois já cansados de ali estarem chegaram-se ao balcão para pagar...
- Já não precisam pagar, já está pago. - disse-lhes um dos empregados.
- Já? Mas quem é que pagou?
- Ele! (apontou para um senhor sentado noutra mesa.)
o pequeno grupo aproximou-se da mesa e indagaram o espanhol
- Diga-nos porque nos pagou a despesa?
- São portugueses, não são?
- sim, somos.
- Pois, por isso, por serem portugueses...
- Não compreendemos.
- Mas vão compreender. Se hoje estou aqui a um português o devo. Salvou-me a vida há muito tempo , nem sei se ainda será vivo. Eu nunca lhe pude agradecer...
- Salvou-lhe a vida?
- Sim, há muitos anos; decorria a guerra civil espanhola - levavam os prisioneiros políticos acorrentados para as praças de touros para... Vocês sabem!!, sim, sob o pretexto de nos considerarem perigosos por não sermos Franquistas... Era nas praças de touros. Há fotografias de fuzilamentos, autênticos genocídios... Sabia-se. Mas todos se calavam... Um dia os que me procuravam avistaram-me. Perseguiam-me! Eu corri pelos montes para a fronteira…Descia e subia encosta... e tentava distanciar-me o mais possível… Já em solo português, subi um morro; sempre a olhar para trás para ver se via os meus perseguidores e, quando olho para diante, vejo um soldado da Guarda Nacional Republicana armado. Donde ele estava observara certamente tudo; sabia que me perseguiam, mas, porque era um homem bom, só fez assim (levou o dedo indicador na vertical aos lábios) para que não falasse e apontou-me a direcção a tomar. Não hesitei um segundo, lancei-me numa corrida desenfreada por um caminho de cabras ladeado de arbustos altos, giestas e silvas...tinha a morte atrás… quando senti que não podia ser avistado procurei um sítio onde pudesse ver sem ser visto... espreitei e vi os meus perseguidores; falavam com o guarda, pouco depois vi-o apontar com o braço para o lado oposto ao que me indicara... vi-os com grande alivio tomar esse caminho... Assim que os deixei de ver corri para bem longe da fronteira... Andei fugido por terras portuguesas durante muitos meses. Eu não tinha dinheiro; andava de povoado em povoado, de casa em casa… nenhum me denunciou! Esconderam-me e mataram-me a fome, foram portugueses.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

... comer por obrigação

Quem não compra, não transporta e não cozinha os alimentos vive muito menos tempo na presença dos mesmos. Para ganharmos a real consciência de que eles existem nada como sair de casa para os comprarmos, nada como os transportarmos, (quanto mais pesado for o saco mais consciência), nada como os prepararmos e cozinharmos.
É o que me acontece agora, sou eu que os compro, transporto, preparo e cozinho. Ainda anteontem, comprei uma perna de peru. Trouxe-a para casa; firmei-a contra o tampo da mesa e servindo-me de uma faca e dos dedos comecei a descarnar o osso. A faca não cortava por ai além; eu debatia-me por conseguir separar a carne do osso. O frio dos músculos da carne da perna de peru refrigerada vencia aos poucos o calor do sangue das minhas mãos; passado algum tempo o frio já não era os músculos da perna do peru, era dentro das minhas mãos, dentro dos meus dedos, nos ossos e na carne.
Talvez esse frio cortante haja contribuído para que eu me relembrasse do que já muitas vezes pensara do indesejável na vida do homem: esta necessidade premente de comer.
Então, na altura em que descarnava o osso, como se estivesse a ver-me - de fora - dependente daquele alimento - pensei, senti, a angústia de não ser eu diferente, mesmo o horror por estar submetido, para viver, à condição: tens que comer! O que eu não daria, os séculos que não desejaria transpor de um salto, para não estar submetido à atroz sentença: tens que comer! Ah! poder um dia não comer! viver finalmente livre dessa premente condição imposta pela natureza. Ah! poder um dia, em vez de a vida me dizer incessantemente: Come! Vai comer!, dizer: Outrora comia porque tu querias, agora como, apenas, se quero, Ó Vida; agora como apenas e só por capricho! Por capricho!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

o símbolo do ânimo invencível foi El Sr Dom Quixote

Miguel de Cervantes escreveu o Dom Quixote em contraste aos cavaleiros heróis da altura- na verdade nos livros de aventuras escritos na época eles sempre saiam ganhadores em todas as batalhas, enquanto o nosso amado Dom Quixote saia delas sempre moído e sovado! Mas caso esmorecia? ou perdia o ânimo? - ou chorava? - Não. Até mesmo quando perdeu os dentes e dá em pedir ao Sancho que lhe meta os dedos na boca para que os apalpe e lhe diga com quantos ficou. Dom Quixote não chorava, Sancho sim; uma vez foi de felicidade - quando voltou a encontrar o burro, porque andara dele afastado semanas.
A grande lição do Dom Quixote é a constância na luta, no pelejar pelo ideal de endireitar o mundo, sempre de espírito animado e idealista! - Por isso gostamos dele - Está sempre a ser derrotado mas nunca desiste! e não se culpa pelas suas derrotas, culpa os magos que não lhe querem dar o prazer de sair vencedor! É um louco! mas é um louco feliz!, enquanto os sãos de espírito, como o é Sancho, andam sempre a queixar-se e a dizer mal da vida!
No Diário de Dostoiewski releio que a melhor resposta que poderíamos dar a quem desconhecesse o que é o Homem, era oferecer-lhe o Dom Quixote a ler!...
Aproveito o ensejo para contar-vos uma das muitas piadas que colhi da leitura de Dom Quixote; referia haver um pintor de Aveleda tão bom a na arte de pintar que, para despistar dúvidas, sempre que pintava um galo escrevia por baixo - Isto é um galo!