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sábado, 9 de janeiro de 2010

Humor infantil

O Andrew é um menino de 4 anos felicíssimo quando, ao fim da tarde, dá um passeio a pé ou de bicicleta com o avô; no trajecto pede-lhe para irem ver a Estação dos comboios que se situa, por detrás de uma fileira de casas; durante a passeata aproveita para confraternizar com os estranhos com quem se cruza; se vai a pedalar trava, pára a bicicleta, desce sem pressa dela, dá uns passos, olha para cima para os senhores e dá-lhes um olá sorridente; As pessoas, surpresas, por alguém tão pequenino lhes prestar tanta atenção não resistem a falar-lhe e é assim que ele em poucos dias tem conquistado verdadeiras amizades; a do Sr. Bento o comerciante da drogaria da esquina, septuagenário, e a do Sr. que costuma estar no passeio da rua, sentado na cadeira de rodas, por em consequência de um grave acidente na linha férrea, em vez de pernas ter somente dois cotos...
O avô em casa conta animado a quem o ouve, e a mulher escuta-o enquanto descasca umas batatas:
- Sabem, o Sr. Bento, o dona da drogaria da esquina, gostou tanto do Andrew que até lhe ofereceu um Shampoo para crianças, dos que não arde nos olhos... Nem acreditei, logo o Sr. Bento que não perdoa a ninguém um cêntimo....

 O Andrew adora ver os comboios...
 e o avô fala-lhe como se ele já entendesse tudo:
-   As carruagens com tons de verdes, ou em tons de azul, são os Intercidades, comboios que param apenas nas estações das principais cidades de Portugal; Os brancos e vermelhos são os Alfas, comboios muito rápidos que fazem o trajecto de Lisboa ao Porto em poucas horas, os outros são os "novos" comboios Regionais,  alcunhadas hoje de Lili-Caneças(1) e que são na verdade as antigas triplas, carruagens auto-motoras eléctricas reconstruidas....

O Andrew sabe-lhe os nomes de cor, e assim que avista um a passar na linha férrea aponta para o comboio e diz para quem estiver ao lado...
– Olha o comboio verde, é o Intercidades!
As pessoas acham-lhe graça por ele ser tão pequeno e conhecer tão bem os comboios...
- Avô olha o comboio!, é o Alfaaaaa... olha... olha...
Em casa se ouve algum comboio a passar corre para a janela e grita:
- Avó é o Intercidades! vai para o Porto!
E depois corre para sala para continuar a brincar com os carrinhos... Olha para televisão e grita..
- Não quero ai! Quero o PANDA...
- Não Andrew, o avô quer ver o telejornal! Estavas a brincar com os carrinhos, já não estavas a ver os desenhos animados... –
- Não gosto de ti... Não gosto de ti!... Não venho mais para esta casa... Vou-me embora... - E depois de abrir a porta, sai do apartamento e sobe pelas as escadas do prédio acima a repetir zangado a mesma ladainha: «Não gosto de ti! Não gosto de ti!» - Cruza-se com a vizinha Dona Florinda que vinha a descer e esta pergunta-lhe:
- Não gostas de mim Andrew?
- Nãoooo! De ti gosto, não gosto é do meu avô e da minha avó!
- Estás é com o soninho!
- Não estou nada!!...
Mas a melhor peripécia dele contou–me o avô.
 -Aconteceu ontem. Tínhamos saído de casa, e a poucos metros da porta do edifício, cruzamos com o homem sentado na cadeira de rodas, - sabemos a história - foi vítima de um acidente muito grave na linha férrea; com a pressa caiu para debaixo de um comboio; sobreviveu mas os médicos amputaram-lhe as pernas. Cruzamos com esse Sr, que assim que viu o Andrew, chamou-o «Andrew vem cá!» - O Andrew aproximou-se. A certa altura o Andrew começou apontar com o dedito indicador para as pernas cortadas acima do joelho do Sr. e a perguntar-lhe o porquê daquilo ....
- Andrew!!- gritei-lhe! - «Deixe, deixe é uma criança... Olha Andrew eu explico-te, foi o comboio, cai para debaixo dele e cortou-me as pernas...
- Foi o comboiiiiiii?!
- Foi!
- Foi o Alfa ou foiii o Regional???


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(1) alcunha dada a uma Srª do Jet-Set, muito amiga de fazer plásticas

Agostinho da Silva, excertos - Raul Seixas

https://www.youtube.com/watch?v=KhEQp-KtAi0

http://www.youtube.com/watch?v=8OxlAOvAmZk


«Meu caro amigo: Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim; pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus. Se o criador o tivesse querido juntar a mim não teríamos talvez dois corpos ou duas cabeças bem distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.»
Agostinho da Silva

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Um caso real de desejo.

Ele e ela.
Eram quase vizinhos e digo quase porque poderiam viver paredes-meias, não fosse viverem em ruas diferentes porém muito próximas. A consequência desta relativa proximidade e os horários de trabalho semelhantes levava-os a verem-se diariamente quando acontecia deslocarem-se a pé pelas mesmas ruas em direcção ao Metro, ou no regresso a casa. Caminhavam dir-se-ia lado a lado, outras, um no encalço do outro e a consequência destes coincidentes trajectos era: para ele, o êxtase visual, justificado pelos encantos visíveis e invisíveis dela, sentia-os ele mais insinuados pela roupa justa que cobertos; saber onde ela tomava o cafezinho da manhã, reconhecer-lhe o sonoro tok tok dos seus saltos altos; e, por ultimo, uma vontade inexorável de a conhecer. Chegou mesmo a vestir-se de castanho por constatar que ela vestia muito roupas castanhas. Mas não resultou, ela nem para ele olhava; desprezava-o quanto mais lhe conhecia o desejo nos olhares. Se ele se aproximava, meio encoberto pela multidão, ela, assim que o notava, afastava-se. Apercebia-se ele disso mas em vez de ficar triste pesaroso e cabisbaixo, proferia a seguinte frase, que para ele era um divisa motivadora: “Acolhe-me no Inferno!”
Já ela por ser uma mulher muito assediada aprendera cedo a reconhecer os homens a evitar, bem como a rotular a maioria, pela insistência dos olhares, de tarados. Adquirira muita prática nesses apressados juízos de valor e não supunha que pudesse uma ou outra vez enganar-se. Avaliava todos pela bitola mais baixa e muito raramente olhava um. Quem a conhecesse diria dela: uma mulher cheia de curvas, muito recta. Na verdade não dava confiança aos homens, nem aos tímidos nem aos ousados e não fosse mesmo as curvas a trair-lhe a fleuma jamais a cobiçariam…
Acreditavam alguns que havia ali muito fogo ardente, e o seu vizinho não era excepção. Esta brasa de mulher inspirava nele desejos iguais aos da maioria, mas porque a via mais que os restantes – quanto mais perto da vista mais perto do coração - experimentava por ela um misto de adoração e de repulsa, sentimentos estes aparentemente antagónicos, porque quanto mais ele se mostrava interessado mais ela o ignorava e desprezava…

A desgraça chegara. A sorte do homem ia de mal a pior, andara anos triste por se achar pobre e agora que pensava que ia ser promovido, auferir um pouco mais, continuar a pagar o empréstimo da compra da casa, comprar um novo carro, acreditar finalmente na conquista da mulher dos seus sonhos, fora chamado ao gabinete do chefe.
- Olhe ali o quadro, está ver esses pionés espetados no mapa da empresa? Retire o do meio, está a mais, já não nos faz falta…
- Que quer dizer chefe?
- Não percebeu, olhe bem para o pionés que retirou do mapa, sim esse, é você!, Está despedido!
Já cá fora, a sós, voltou a olhar para o pionés e viu o quanto era insignificante.
- Anos e anos a trabalhar e não passei disto! - dizia.
Lamentava-se: Adeus emprego!, casa!, carro!, mulher!

Nesse dia poderia ter começado a beber! e ou a drogar-se, mas não, o apelo dum instinto mais forte levou-o a desfolhar as páginas dum jornal diário. Lera “Casa de meninas. Massagens. Zona do Marquês de Pombal! 961234512”; pegou no telemóvel!
- Sim o senhor está onde?... Está perto! Sim pode vir por essa rua, quem sobe! É no número 467, 4º Drt. Quando chegar toque à campainha. Tem elevador…
À porta do edifício o homem desempregado sentiu a diferença, habituado aos prédios antigos do Intendente, às escadas íngremes de madeira. Lembrou-se com saudade do tempo em que as jovens nigerianas do Intendente o costumavam assediar. Uma delas - lembrou-se – inclusive, chamou-o da varanda para descaradamente lhe mostrar o que tinha para lhe oferecer, levantando a mini-saia… Alegrou-se de ter recordado esse episódio... Ainda hoje se perguntava porque é que não aceitara o convite... foi lá dias depois, mas ela - disseram-lhe - tinha ido para Espanha...
Carregou no botão do elevador e apreciou a suavidade da ascensão, sentia-se subir para o céu…
TRIMMMM
TRIMMMMMM!!!!
Uma senhora corpulenta na ternura dos quarenta veio abrir-lhe a porta, pareceu-lhe ser a patroa. Vestia um roupão vermelho, apertado à cintura por um cinto da mesma cor.
- Vim por causa do anúncio…
- E fez muito bem em vir… Faz favor de entrar… Esteja à vontade... Pode sentar-se no sofá… Quer beber alguma coisa?...
- Não vim propriamente beber… - disse num tom de voz sorridente…
- Eu sei eu sei, veio ver as meninas. Vejo que vem bem humorado… Certamente, a vida corre-lhe bem… Olhe está com sorte, estão cá as meninas todas e nenhuma está ocupada… Até me admirei de hoje não me pedirem uma folga… São excelentes profissionais, gostam do que fazem…
- É bom! é bom! E os preços…
- 40 euros tudo, uma hora no quarto.
- Óptimo!
- Quer ver as meninas uma de cada vez ou prefere que venham todas juntas?
- Todas juntas!
- Então espere aqui um bocadinho, vou buscá-las …
Durante a espera o nosso homem sentado no sofá, questionava-se «Serão novas? Serão todas boas? Quanto é que me importará um show lésbico?»
Súbito vê entrar na sala a patroa.
- Elas já vão desfilar, espero que lhe agradem… Entrem meninas, entrem!
O homem recostou-se para trás e endireitou as costas…
Uma a uma viu-as entrarem na sala muito bem vestidas. A de fato era a executiva, fazia-se passar por advogada… A que vinha de branco era a enfermeira… uma terceira vinha vestida com uma farda da P.S.P…. outra de coelhinha da Playboy… e súbito o homem teve como que um desfalecimento, turvou-se-lhe a vista… sem querer acreditar viu, entre as cinco, a vizinha – não podia ser verdade, mas era - estava vestida de freira… e não havia dúvidas, ela também o reconheceu…
O nosso homem podia ter-se acabrunhado, mas não se acabrunhou. Apontou para a vizinha e disse alto para a madre superior:
- QUERO AQUELA!
A vizinha ainda esboçou um olhar de clemência, ou melhor de dispensa, para a madre superior! que sempre sentia prazer em obrigá-las a trabalhar... De nada lhe valeu. A patroa dirigiu-se a ela, agarrou-a pela mão e levou-a a ele…
- Aqui a tem! … Durante uma hora é sua. Olhe que o tempo passa depressa! Desfrute-a! Em caso de algum descontentamento tem direito a escrever no livro amarelo – depois segredou-lhe ao ouvido «Escolheu bem! Essa é uma profissional!»

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

no trem

achei-a atrevida logo à primeira impressão pela exuberante grandiosidade estética das curvas das suas pernas - nuas e totalmente descobertas até à mini-saia branca - todos os presentes haviam pregado nelas o olhar - eu pelo contrário mostrava total indiferença - entretanto o comboio proveniente de Madrid chegou à estação e depois de alguns passageiros saírem todos nós entrámos a correr para nos sentarmos nos lugares vagos - a minha preferência não era um qualquer lugar vago - não foi por acaso que me sentei ao lado do alvo da minha falsa indiferença - olhava para ela e estudava pela posição do seu corpo se estaria interessada na minha pessoa - se me desejaria conhecer - as pernas viradas para o lado oposto ao meu, diziam-me que não - esperava que ela me olhasse - mas nada - eram ainda seis da manhã - vi fechar-se-lhe os olhos - bocejar umas ou duas vezes e depois adormecer - se eu pudesse acordá-la, pensava eu - as minhas mãos estavam quentes - ela nem as sentiria - mas minutos depois porque também o meu sono fosse muito, não obstante o prazer de olhar-lhe para as pernas, contrariado adormeci profundamente - acordámos uma hora depois sobressaltados lado a lado com o solavanco dado pela energia contida nas suspensões do comboio proveniente de Madrid depois de haver freado na estação de Lisboa-Oriente - olhamos um para o outro e eu disse-lhe: Agora já não pode dizer que nunca dormiu comigo.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Carta de amor

 passara o tempo em que ainda subia às oliveiras....
 o nevoeiro húmido da noite em Vila Real lembrava a neblina densa nas manhãs de Inverno para a qual eu criança olhava vidrado, por me revelar algo que parecia ver pela primeira vez...
   a neblina nocturna amarelada pela luz dos candeeiros diria que esperava...
  tudo esperava
  o menino, o avô ...
 as pessoas saudosas, os amigos...
... eu, a simpatia da bela jovem para quem olhara cativado... .
 já a olhava sem pestanejar, quando por mérito da proximidade, cumprimentá-mo-nos...
falávamos e depois de uma pequena pausa  a jovem mulher exclamou
- «Não me olhes assim! Não gosto que me olhes assim!»...
  pensei - «perturbou-a ver-me nos olhos o êxtase estético que ela própria provocava»
 ... mas esgotando-se as razões de permanecermos ali em companhia um do outro e ocultando eu a mais profunda - a fruição contemplativa da sua feminina figura - despedimo-nos.

 .... todavia fosse pelo tom de voz com que disse
- Não me olhes assim! Não gosto que me olhes assim! -  fosse porque eu não conseguia mesmo evitar escrever, na manhã do dia seguinte, em torno daquela frase e relembrando retalhos da minha infância, escrevi-lhe uma carta...

 ...depois de ouvirmos tocar a campainha, era com imenso prazer que eu e minha irmã rápidos descíamos os degraus três a três para ir beijar minha avó que chegava. Enquanto descia as escadas aos saltos, sempre com os olhos postos nos degraus, gritava para mim mesmo «É a avó! É a avó!» O último salto era para os braços da minha avó... Essa mesma avó que abria a porta da coelheira para eu ver os coelhinhos, que só apetecia agarrar, a quem eu logo dizia «Avó apanha-me um.» Não precisava de lhe pedir outra vez; ela, estendia os braços e os coelhinhos, todos muito juntinhos a olhar para nós, de repente saltavam em todas as direcções e uns por cima dos outros. Todo aquele movimento cessava quando minha avó apanhava um. Eu não reparava em mais nada, só no coelhinho; podiam as galinhas fazer muito barulho, os patos grasnar, o cão ladrar, nada fazia com que eu retirasse os olhos daquele coelhinho. Jamais um deles me disse:
- Não me olhes assim! Não gosto que me olhes assim!”.
 Eu não reparava em mais nada, mas minha avó reparava, reparava na aflição com que a mãe coelha olhava para nós. «Pronto, pronto! – dizia-lhe minha avó, libertando-o – aqui tens o teu pequenino! Nós não lhe fizemos mal.» E ficávamos todos a vê-lo voltar para ao pé dos seus, eu, a minha avó, a coelha cinzenta e os seus irmãos. Depois de olhá-los uma última vez minha avó fechava a porta e abria uma outra, contígua, mas de uma outra casinha, a do coelho da semente.
 -Avó este é muito grande. Ó vó tu não matas este?
- Este não filho, este é o coelho da semente.
  Eu percebia por coelho da semente aquele que minha avó nunca matava...
- eu nem sabia o porquê.. cheguei a cogitar que a minha avó gostasse mais dele que dos outros...
... porque os outros ela matava.
 Eu não gostava que se matasse os coelhos, mas via muitas vezes minha avó matá-los.
 Ela fazia assim: agarrava-os pelas patas traseiras com a mão esquerda, depois. levantava o braço direito e cerrando os dentes descia-o atestando com força uma, duas três ou quatro pancadas de mão fechada na nuca do coelho, atrás das orelhas, e só depois o punha no chão meio morto...
 Eu tinha pena deles e agachava-me para lhe fazer festinhas... Se minha avó me via a fazer-lhe festinhas repreendia-me logo.
- Deixa-o, ele assim nunca mais morre...
 Eu obedecia-lhe, levantava-me e ficava a olhar para o coelho.
- Coitadinho! Coitadinho!
Repreendia-me outra vez minha avó.
- Não lhe chames coitadinho! Ele assim demora mais tempo a morrer...
Não era mentira o que a minha avó dizia, bem sei hoje que não há nada com mais efeito positivo sobre os seres como o fazer-lhes festinhas ou falar-lhes com palavras meigas...

 ... e assinei a carta.

  mas hoje à distancia de mais uma década, relembrando aquela noite, vejo que no tempo em que ali deambulava à espera, eu procurava sobretudo, acima de todos os compromissos e deveres, marcar um encontro com um tempo em que escreveria as histórias de vida das pessoas, seus desejos e sonhos... 

domingo, 27 de dezembro de 2009

Um homem perdido

O médico já o havia aconselhado a comer chocolate… sinto em si uma tristeza despropositada para a época, estamos na primavera, e os motivos que me contou por si só não são suficientes, Se fosse a si testava o chocolate e para lhe adoçar a vida tenha sempre mel em casa… dissera-lhe o médico... Ouvira-o mas porque não lhe dera nenhum crédito, limitara-se no trajecto para casa a comprar uma caixa de aspirinas. Na sala ampla sentara-se diante da janela e sem olhar para o que quer que fosse recomeçara a pensar na vida; se olhasse teria reparado na aranha a descer pelo seu fio e poderia ter-se lembrado da sua infância passada na casa de campo dos avós onde abundavam aranhas, moscas e formigas… Mas não, nada via senão aquela ideia sinistra que há muito o assediava como se fosse a melhor solução para todos os seus tremores, sentia-se acossado por todos os lados e haveria de fazer como o escorpião – atentar contra a sua própria vida!
A mulher uma fundamentalista cristã odiava-o desde daquele Domingo quando ele irado de ciumes, por não suportar as suas contínuas ausências, fez a porta da igreja abrir-se estrondosamente com um pontapé enquanto se celebrava a missa e, penetrando no seu interior, irrompeu aos gritos: - Onde é que está a Antónia?!, Onde é que está a Antónia!, - pobre mulher por pouco não desmaiara de tanta vergonha...
A filha também o odiava. Desde aquela vez em que ele pai sabendo que a filha estava com o namorado, por ser contra o namoro, abriu-lhes a porta do quarto de rompante propositadamente para os apanhar em flagrante acto; escutou-os primeiro para se certificar que os apanharia… sem lhes dar tempo de poderem disfarçar abriu a porta … a filha estava de joelhos mãos atrás da costas como uma escrava sujeita ao jugo sexual… - foi para isto que eu te pus a estudar? é todos os dias esta pouca vergonha… Andas com esse parvo para teres isso na boca… até tenho nojo de voltar a dar-te um beijo!!! – quanto ele se arrependera depois destas palavras – a filha há mais de 1 ano que não voltara a beijá-lo, tão pouco o olhava, e pior não voltara a dirigir-lhe a palavra… a filha mais meiga, que se sentava no seu colo…
- Blafesmava - Raios estou cansado de pagar as contas, vivo entre gente ingrata que vive à custa do meu suor… querem-me todos ver pelas costas… só me deixam estar nesta casa para pagar as contas… mas isso vaia acabar, á vai! vai!! (continua)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Drageias coloridas para vidas cinzentas...

…do banco da carruagem do metro onde estou sentado costumo ver uma jovem atraente retirar da malinha uma pequena caixa de plástico transparente, contendo  drageias coloridas. Com cuidado agarra-as com a ponta dos dedos leva-as aos lábios, ajeita-as na boca e engole-as uma a uma sem água….
Ela está ali mas não está; não sente o mundo que a rodeia, não o vê, não o ouve; tão absorta e alheada está da vida ao seu redor... os passageiros olham para ela, mas ela olha para o chão… ou melhor não olha, tem apenas a cara virada para baixo…
Se o destino quisesse que eu a ajudasse a reerguer-se decerto que a ajudaria, mas uma barreira invisível de receio e timidez separa-nos como um vidro e sinto que para lhe tocar precisaria do saber quebrar com subtileza – mas como? se ela está ali como se não estivesse – para falar-lhe precisaria primeiro de a acordar e isso seria notado por todos!, - ela assustar-se-ia, faria aquela cara de estupefacção – ou pior ainda - apontar-me-ia o dedo e diria: - Vejam não o conheço e o louco ousa falar-me!!!
... e Eu?  imobilizado, penso, não consigo deixar de pensar, preso da fobia do estranho tímido... doloroso querer tanto falar-lhe... insuportável a tensão crescente, até perder a vontade de estilhaçar as vidraças negras da apatia; derrotado, olho-a uma vigésima vez...
...penso «o inferno são os outros, eu falar-lhe-ia se estivéssemos a sós… »
ajudá-la a ser era ajudar-me a ser também… os pensamento nesse sentido confrontam-se com as forças das mil correntes que me atam de mãos e pés…
se ao menos ela levantasse os olhos…
dez minutos passaram, ela nem os moveu…
a espessura do vidro aumentou - é insuportável o fracasso…!, não irei nunca ajudá-la, ela seguirá a sua vida e eu a minha… mais dia menos dias voltará à consulta com o Psiquiatra – ele não saberá explicar-lhe a solução para o mal de que padece porque de igual mal nunca padeceu - deveria mostrar-lhe um espelho e dizer-lhe : veja para ali, é você! - viu!? a dimensão do seu alheamento!? – mas não! do espelho só existe mesmo o medo ao espelho -
Se ela interagisse com o mundo o mundo a salvaria – mas o Psiquiatra não a ajudará a conseguir esse feito – não a ensinará a dar por ela própria esse pequeno passo – antes lhe prescreverá mais consulta e muitas drogas - em forma de drageias coloridas - e ela vai tomá-las uma a uma!
leva o tratamento à risca, ao segundo, chega àquela hora esteja onde estiver abre a mala, tira a pequena caixinha, e com a ponta dos dedos leva as drageias à boca e engole-as todas, sentada no banco da carruagem do Metro, sem reparar em mais nada...

sábado, 19 de dezembro de 2009

Carta a um amigo doente

Caro amigo
… não estranhes esta carta inesperada, as razões são muitas, mas a primeira deriva de te saber a penar pelo vale das sombras sem saúde - a que nos possibilita vencer! Ora bem, admitamos que sei o bastante do teu debilitado estado para te ajudar. Do que perguntei e tentei saber acerca de ti disseram-me que estavas a lutar com uma depressão – que possivelmente andas a ser medicado – e que por isso estás como um navio parado no estaleiro para conserto – de navios pouco sei – mas sei muito sobre depressões… e é este saber que quero transmitir-te para que o uses em teu benefício… há depressões que vão e há depressões que vêm… são assim como os pensamentos que pensamos quando estamos sós no silêncio da noite horizontal… ora como eu sei que são os pensamentos a matéria prima das depressões eu aconselho-te a que não penses… não deve ser fácil para ti… os grandes pensadores pensam… e o que é pensar? – vou-te explicar com as minhas palavras… pensar é estar sem estar… ou seja é não estar na acção do presente… é teres o teu corpo aqui e a tua mente lá longe no passado ou então algures num futuro longínquo… por isso traz-te para o presente para o aqui e o agora onde é saudável estar! – falar é exactamente isso, é o aqui e o agora! por isso amigo aproxima-te das pessoas que sentes que te entenderão e fala-lhes, mesmo que te seja difícil achar assunto – diz-lhes qualquer coisa! – a palavra te salvará – e não só a palavra, o movimento – move-te amigo – não receies nada, sai de casa, vem ter com os teus amigos, que são mais do que os que tu contas! – tenho a certeza que não tens razão alguma para sentires vergonha de te apresentares doente – sabias que se aparecesses em minha casa mesmo para me dares uma grande coça no Xadrez me encherias de satisfação – pergunta ao Rudolfo quantas vezes eu já fui a casa dele – inúmeras e pensas que me fez mal visitar o nosso amigo Rudolfo? – pelo contrário! – fui a casa dele para não me deixar ir para o passado para a alienação do medo… e falei e ele ouviu-me…
Sei que sentes medo - eu conheço por experiência própria a depressão, ela é essencialmente o medo na sua face mais cruel! bloqueia-nos e paralisa-nos! corta-nos os elos com o nosso próprio ser! – por isso amigo sai mais vezes de casa gasta mais dinheiro a telefonar para combinar e falar com os teus amigos – vem a minha casa ou a casa de qualquer um dos teus amigos ensinar-lhes um pouco do teu saber – o xadrez salva! –
mas olha amigo – todos os teus medos não passam de sombras e fantasmas… que te atacam… olha amigo sai à rua e muda de estratégia… estás a jogar contra essas sombras e fantasmas à defesa… se fosse a ti jogava ao ataque!... age! Sê agressivo contra a tua fraqueza… levanta-te da cama cedo, mesmo que não tenhas ideias do que fazer, toma um banho e telefona aos teus amigos e passa o tempo com eles, e só regresses a casa tarde quando não aguentares de cansado! e vais ver que depressa largas a medicação e voltas a subir ao ringue para mais um combate! –
sai da concha, deixa o covil e a toca, a vida é cá fora!!! - inicia-te no que nunca fizeste – um ginásio por exemplo – descobre coisas novas – vai ver o AVATAR – vem conhecer o meu bairro – vê os filmes que te dei – 2 – eu sei perfeitamente o que se sofre com uma depressão – por isso ataca! ATACA!... o homem é a guerra!
e fala! Fala! verbaliza os teus medos! e eles te deixarão em paz!
Vou-te deixar com o que li na parede da garagem do meu mecânico, julgo que foi escrito por um emigrante brasileiro que veio ganhar a vida para este Portugal cruel
- quando um homem perde os seus bens, perde muito
- quando perde um amigo, perde mais
- quando perde a coragem, perde tudo!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

confissões de um trevo

cresci entre dois azulejos e por isso nunca passei dum trevo raquitico, não obstante sempre fui muito elogiado. Diziam: olha aqui um trevo!, que corajoso! Nunca se deixou cair! Cresceu contra todas as probabilidades! O local nem vos conto: numa parede no interior de uma sala de um pequeno restaurante onde as pessoas se sentavam para almoçar, ai escutei as mais pitorescas conversas. Um dia entrou um senhor grande e corpulento que quase me arrancou da parede, bem tentou mas nao conseguiu. Ele fez força mas eu fiz mais força ainda. As minhas raizes quase cederam... É uma das recordações terríveis que eu tenho. A verdade é que sempre estive muito exposto...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

do livro para todos e para ninguém

(...)
E quando exclamo: «Amaldiçoai todos os demónios cobardes que trazeis em vós, esses demónios sempre prontos a gemer e adorar!» eles clamam: «Zaratustra é ímpio!»
São sobretudo os pregadores da resignação que dizem tais coisas, e é justamente a esses que me apraz gritar ao ouvido: «Sim, eu sou o Zaratustra o ímpio!»
Os pregadores de resignação! Em todos os cantos onde se anicham a mesquinhez, a doença, a tinha, insinuam-se como piolhos…
Pois bem! eis o sermão que dedico aos seus ouvidos: eu sou Zaratustra, o ímpio que diz: «Quem é mais ímpio do que eu, para me matricular na sua escola?»
Eu sou Zaratustra, o ímpio; onde encontrarei o meu semelhante? Os meus semelhantes são todos os que se agarram à vontade por si próprios e se desprendem de qualquer resignação.
Eu sou Zaratustra, o ímpio. Ponho todos os acasos a coser na minha própria panela. E quando estão bem cozidos, declaro que são excelentes, porque são pratos da minha cozinha!
E na verdade, mais de um acaso me abordou com arrogância, mas a minha vontade respondeu-lhe com mais arrogância ainda (…)
Mas para quê dizer estas palavras se ninguém tem, para me ouvir, ouvidos? Por isso os meus gritos a todos os ventos:
- Estais a encolher a olhos vistos, vós humildes! Estás-vos a desintegrar, gente acomodatícia!
- E terminareis por ir a pique com a vossa pesada infinidade de pequenas virtudes, à força de pequeninas maldades, à força de minguada resignação! (…)
A vossas lacunas se misturam e incorporam na teia do futuro dos homens, até o vosso vazio é uma teia de aranha que se nutre do sangue do futuro.(…)
«Tudo se arranja.» Eis mais uma máxima da vossa resignação. Mas eu vo-lo digo, almas delicadas: «Tudo se desarranja, e tudo vos perturbará cada vez mais.»
(…) Amai o próximo como a vós mesmos, se tal vos aprouver; mas sabei primeiro amar-vos a vós mesmos, amar-vos com grande amor, amar-vos com grande desdém!» Assim falava Zaratustra, o ímpio.
Mas para que falar quando ninguém tem ouvidos para me entender? Ainda é muito cedo para o meu tempo.
Eu sou entre esta gente o meu próprio precursor, o canto do galo que anuncia a chegada da minha nova aurora para esta ruelas obscuras…
Mas um dia a minha hora chegará! De hora a hora se tornam mais mesquinhos, mais miseráveis, mais estéreis – pobre vegetação, miserável plebe…
Breve os verei parecidos com a erva seca da estepe, e verdadeiramente cansados de si mesmos, aspirando mais ao fogo do que à água.

Assim falou Zaratustra!